Os fãs de cinema de horror e suspense, mas em particular os que apresentam situações apocalípticas, na qual a ordem global é revertida, podem ser mais resistentes e estar melhor preparados – mentalmente e na prática – para lidar com a pandemia de coronavírus do que os restantes.
Esta é a conclusão de um estudo executado por Coltan Scrivner, da Universidade de Chicago, especializado em curiosidade mórbida, para a ESIC (Evolutionary Studies in Imaginative Culture), que reuniu um painel de 310 indivíduos dos 18 aos 72 anos para chegar a estas conclusões.
Os investigadores questionaram os voluntários sobre o seu interesse no Coronavírus; o quanto eles se sentiam ameaçados por ele – que níveis de ansiedade, depressão, irritabilidade e insónias haviam experimentado; e o seu interesse atual (comparado ao habitual) em seis géneros diferentes de filmes e programas de TV: terror/sobrenatural, mistério/suspense, pandemia/vírus, romance, aventura/ação, e comédia
Os fãs de filmes de terror e suspense revelaram estar menos angustiados com a crise do que a maioria, mas aqueles que preferem os “filmes de sobrevivência e preparação”, onde a sociedade entra em colapso, foram classificados como os mais resilientes e mais bem preparados.

“Durante a pandemia de Coronavírus, os participantes com maior curiosidade mórbida relataram mais interesse do que o habitual em filmes e programas de TV pandémicos. Uma explicação para isso é que a pandemia de Coronavírus era para eles uma ameaça iminente, levando-os a se interessarem particularmente em recolher informações sobre pandemias e vírus através de simulações fictícias.”, lê-se no estudo, que não chegou a conclusões sobre o maior interesse em géneros como o terror/sobrenatural e mistério/suspense: “O aumento do interesse nesses géneros pode implicar que os indivíduos sintam-se mais interessados em informações sobre ameaças de maneira mais ampla, em resposta ao aumento da relevância da ameaça do coronavírus. No entanto, outra possibilidade é que o interesse mais amplo nos géneros do terror/sobrenatural e de mistério/suspense durante a pandemia se deva ao escapismo.”
“Achamos que as pessoas aprendem [a lidar com as situações] indiretamente. Com a exceção da falta de papel higiénico, elas sabiam praticamente o que tinham de comprar ”, explicou Scrivner ao The Guardian, acrescentando que essas pessoas já viram filmes com situações como a que estamos a viver (e bem piores) centenas de vezes e que por isso não foram apanhadas de surpresa.
Já Mathias Clasen, psicólogo da Universidade de Aarhus e coautor do estudo, que atualmente está a ser analisado pela revista Social Psychology and Personality Science, acrescentou que os filmes podem ajudar as pessoas a se prepararem para situações assustadoras da mesma maneira que a nossa imaginação nos permite ensaiar para datas e eventuais confrontações: “ A nossa capacidade de habitar imaginativamente mundos virtuais – mundos criados por nós, assim como aqueles transmitidos por filmes e livros – é um presente da seleção natural; um pouco da maquinaria biológica que evoluiu porque deu aos nossos ancestrais uma vantagem na luta pela sobrevivência. Se você já assistiu a muitos dos que chamamos de filmes de sobrevivência/preparação, já terá visto viciosamente convulsões sociais maciças, estados de lei marcial, pessoas a responderem tanto de forma pró-social como perigosamente egoísta a um evento catastrófico repentino. Em comparação com alguém que nunca simulou o fim do mundo, estarás num lugar melhor porque tem essa experiência indireta”.

