Eis alguns dos filmes que mais nos impressionaram nesta 61ª edição do festival de Berlim:
Indomável
De Joel e Ethan Coen
Já está em exibição o western revivalista que abriu a Berlinale. Puro e duro, como seria de esperar deste duo fraternal. Bridges está impagável como Rooster Cogburn, mas é nos detalhes deste adaptação do romance de Charles Portis que reside o melhor dos Coen. Olhando para as personagens tão marcantes da sua filmografia, é difícil perceber como não tinham ainda abordado este género.
Classificação: ★★★★☆
Margin Call
De JC Chandor
Ok, pode não ser um filme superior, nem o tema uma grande novidade. Ainda assim, as 24 horas que antecederam o estalar da recessão económica, em 2008, constituem momentos de um cinema com algum engenho. Depois de alguns documentários e spots televisivos, Chandor aproveitou os conhecimentos do pai, que trabalhou durante décadas para a firma Meryll Lynch, e desenvolveu um ‘plot’ convincente sobre aqueles grupo de analistas que descobriu as discrepâncias abissais entre a contabilidade e a forma consequente como a empresa tratou de liquidar os seus activos infectados a preço da chuva. Apesar de se notar a mesma proximidade claustrofóbica ao preço do dinheiro de Sucesso a Qualquer Preço, o filme de James Foley de 1992, percebe-se que a Chandor falta a verve do David Mamet, autor dos diálogos. Não deixa de ser curiosidade, contudo, a presença de Kevin Spacey em ambos os filmes. Aqui ao lado de Paul Bettany, Jeremy Irons, Zachary Quinto, Stanley Tucci e ainda Demi Moore.
Classificação: ★★★★☆
Nader and Simin, A Separation
De Asghar Farhadi
Depois do muito auspicioso Elly, vencedor do prémio de melhor realização há dois anos em Berlim, regressa com um novo relato da sociedade moderna de Teerão. Mas Farhadi é ainda, talvez mais ainda, um autor exímio em observar e detalhar a simplicidade. Hábil em deixar de lado a política, prefere concentrar-se num casal à beira da separação, cuja mulher Simin (Leila Hatami) prefere procurar um futuro melhor para a sua filha fora do Irão. Nader (Peyman Moaadi) é um homem honesto, mas teimoso, que acaba por envolver-se num caso de homicídio involuntário quando a sua empregada doméstica caiu das escadas após ser expulsa por suspeita de furto. Muito para além do aspecto policial, somos arrebatados pelas diversas nuances do guião, em que as questões morais e religiosas definem o trajecto das personagens. Arrebatador até ao último segundo. Por isso mesmo, perdura na nossa memória. É urgente conhecer o cinema deste jovem realizador de 39 anos. Asghar Farhadi é um cineasta com futuro.
Classificação: ★★★★★
Coriolanus
De Ralph Fiennes
Imponente a carga dramática que motivou o actor shakespeareano a adaptar a peça do famoso dramaturgo; infelizmente, a intensidade de algumas cenas perde-se diante a difícil adequação do peso do texto a uma actualidade ambientada num conflito dos Balcãs.
Classificação: ★★☆☆☆
The Future
De Miranda July
Diante o culto gerado em redor do seu primeiro filme, uma pequena jóia intitulada ‘Me, You and Everyone We Know’ (2005), a expectativa cresceu diante do sucessor e acabou por transformar-se na analogia para cinema do trauma do segundo disco. Percebe-se que desta vez a actriz, realizadora e performer quis aliar as diferentes veias criativas num casal de LA que examina o rumo da sua vida. E o que se altera a partir do momento em que decidem adoptar um gato enfermo. Há muito território por explorar nas inseguranças do casal, na atitude do gato falante que serve de narrador ou até na habilidade para parar o tempo. Percebe-se a ambição do arrojo, mas o resultado acaba por ficar ferido pela dificuldade em assimilar todas essas referências. O filme necessitava de ser uma obra-prima. Infelizmente não é.
Classificação: ★★★☆☆
Tropa de Elite – O Inimigo Agora é Outro
De José Padilha
A sequela do Urso de Ouro de 2007 chegou a Berlim, fora de competição, com o selo de ser o filme com maior sucesso de sempre no Brasil, superando mesmo Avatar. Desta vez, o Capitão Nascimento (Wagner Moura) é retirado das ruas e ‘promovido’ a chefe dos serviços secretos. É nesta missão que denuncia as ligações perigosas da política com o crime organizado. O realismo da realidade carioca quase chega a ser caricato de tão excessivo.
Classificação: ★★★★☆
O Cavalo de Turim
De Béla Tarr
São mais de 2 horas e meia de um cinema denso e hipnotizante que descreve, uma vez mais com uma magnífica fotografia a preto-e-branco, o quotidiano de cinco dias na vida de um cocheiro, a sua filha e um cavalo ao longo de uma paisagem desoladora e ventosa. Sabemos na legenda inicial que se trata do trio de personagens que presenciou a cena em que o filósofo alemão Friedrich Nietzsche abraçou o cavalo imóvel que estava a ser chicoteado pelo cocheiro. Um episódio que o afectou e o terá deixado enfermo durante dez anos. O filme retoma esse momento imediato, deixando-nos envolver no minimalismo dos gestos e da música estonteante. Passa por aqui a essência do cinema.
Classificação: ★★★★★
Pina
De Wim Wenders
Apresentado fora de competição, o documentário Pina vem afinal confirmar o magnífico efeito que a mais recente tecnologia 3D pode ter na dimensão de espaço. Nesta homenagem à carreira de Pina Bausch torna-se evidente como a profundidade beneficia as coreografias vanguardistas desta bailarina alemã visionária. Este foi de resto, um projecto há muito discutido entre o cineasta alemão a sua compatriota, mas só tornado possível graças ao novo processo estereoscópico capaz de dar uma nova dimensão aos corpos em movimento. O efeito é, no mínimo, absorvente.
Classificação: ★★★★☆
Paulo Portugal, em Berlim

