‘Boogie’, a prova que o cinema argentino não vive só de Lucrecias e Campanellas

(Fotos: Divulgação)

 

“Se darmos a mão quem irá sacar as armas !?”

 

Talvez esta frase emblemática, atribuída a Bob Marley, seja a melhor forma de definir a animação argentina Boogie ‘(Boogie al aceitoso’, de 2009), baseado na banda-desenhada homónima, que conta com um protagonista frio, machista ortodoxo e, sobretudo, matador  por profissão e por paixão. Contando com um roteiro politicamente incorrecto, recheado de piadas sujas e preconceituosas, esta animação, exibida durante o festival Anima Mundi aqui no Rio de Janeiro, poderia ser interpretada como culto ao poderio bélico americano, porém os seus excessos acabam por colocar por terra qualquer interpretação mais séria da película.
Boogie mata pelo simples prazer de ver sangue e tripas pulando, não está preocupado com intrigas de estado  ou mudanças sociais, e se existe algum outro factor, que justifique seu comportamento, é o retorno financeiro que estas mortes trazem. O seu desprezo pela vida só pode ser comparado com sua repulsa pelo sexo frágil. Em determinado momento, ao  ver uma mulher com a cabeça decepada,  após um tiroteio, ele afirma: “Esta é a mulher perfeita”.

Existe nestas atitudes, um pouco de crítica ao culto as armas, principalmente por parte do cinema americano – “homenageado” com belas reproduções de cenas clássicas de filmes de acção como “Terminator” e “Godfather” . Porém as críticas ficam apenas subentendidas, já que  Gustavo Cova – realizador da longa-metragem –  parece mais preocupado em divertir o público. Evidência disso é a forma como  se aproveita da tela grande para “esconder”, no  segundo plano da acção, cenas de humor gratuito,  como uma  em que um homem, andando de bicicleta,  é atropelado duas vezes.

Esta é a prova de que o cinema argentino não vive somente de Lucrecias e Campanellas. Boogie é uma óptima oportunidade de entrar em contacto com uma animação tecnicamente elaborada e de humor um escrachado. Um bom presente para o cinema de animação sul-americano.

 

Bruno Marques no Rio de Janeiro

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