“A Alma do osso”

(Fotos: Divulgação)
Uma boa dica, para quem gosta de documentários, é “A Alma do osso”, realizado por Cao Guimarães. O filme faz uso da literatura de Guimarães Rosa como apresentação do tema que será abordado, enchendo a tela com a frase : “A solidão é a gente de mais”. Muito antes de qualquer apresentação, citar o escritor mineiro não é um mero ornamento, já que faz uso de cenários e inovações de linguagem, assim como o autor de Grande Sertão: Veredas.
Porém, essas não são as únicas formas de expressão encontradas pelo autor para situar o público neste universo. O espectador que tiver interesse de entrar em contacto com esta  obra extremamente autoral deverá deixar de lado os seus preconceitos e adoptar um olhar minimalista em que gotas de chuva, teias de aranha e sombras são usadas como formas de expressão. Estas opções contrapõem o mundo de “extrapolação visual” que vivemos. Tanto que um “leitor” desavisado poderá resumir da forma mais superficial: “Trata-se de um filme sobre um velho que mora dentro de uma caverna”.

Esta declaração não estaria errada se este detalhe não fosse apenas uma gota dentro do oceano de possibilidades interpretativas que a obra insinua. Para dar forma a este novo mundo, a fita apresenta o quotidiano de Dominguinhos da Pedra, que há mais de quarenta anos vive sozinho numa caverna no interior de Minas Gerais. Este  ermitão, de aproximadamente setenta anos, vestindo trapos, de unhas grandes e barba por fazer, criou uma cultura genuína, completamente liberta das amarras da sociedade.

Ao apresentar o estilo pouco usual da personagem, Cão omite qualquer tipo de justificativa para este meio de vida;  não sabemos seu passado ou suas condições mentais, nem os motivos que levaram Dominguinhos para dentro da caverna. O realizador não parece estar preocupado em reorganizar este universo, mas sim fazer uso dele como forma de narrativa, usando a câmara como canal directo entre a sala de projecção e a caverna, fazendo com que logo nos sintamos dentro daquele ambiente tão particular.

Estas belas imagens, captadas tanto por câmaras por câmeras mini-DV, quanto em super-8  (que remete aos efeitos de pontilhismo de Georges-Pierre Seurat ), fruto, inicialmente, do pouco capital da produção, acabam ganhando um outro sentido quando estas imagens, aparentemente precárias,  esculpem  o olhar  de Dominguinhos, dando um novo sentido visual aquele espaço, indo de encontro com uma das poucas falas do personagem, que diz viver no  mundo dos sonhos.

‘A alma do Osso’ é fruto da fusão de diversas influências artísticas – talvez usadas de forma ingénua – que vão desde o cinema etnográfico de Jean Rouch ao  realismo fantástico de Guimarães Rosa e Juan Rufo.  Muito mais que um filme, trata-se de uma poesia visual extremamente pretensiosa, que abre novas possibilidades para o cinema experimental brasileiro ao ser apresentado em circuito comercial.

Fica então a dica, para aqueles que gostam de garimpar algumas pérolas cinematográficas, com certeza será uma experiência gratificante.

Bruno Marques

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