
Chegou ao final a 30ª edição do Fantasporto com o cinema inglês a dominar os premiados e o cinema europeu a representar 80% dos filmes (como Mario Dorminsky anunciou no final).
Sobre este Fantas foi frequentemente dito que era mais fraco que edições anteriores, que tinha menos filmes ou filmes menos chamativos e que o formato estava debilitado ao ver-se reduzido apenas a duas salas no Rivoli. Sinceramente, o Festival nortenho é sempre alvo do comentário de que não é tão bom como o do ano anterior, e frequentemente ou nunca esse comentário é justo ou acertado. E a verdade é que este Fantas 2010 pode não ter tido a tenda do cinema ou as salas externas, e pode ter tido ligeiramente menos sessões, mas nada do que se perdeu foi o que faz o Festival o que é. Aliás, essas salas adicionais geralmente apresentavam filmes comuns ao circuito comercial e a Tenda do Cinema era, no meu parecer, uma adição sem qualquer interesse para o certame.
O Fantasporto vale pelos filmes que traz, e nisso continuou a acertar em cheio. Apesar do grande vencedor, HEARTLESS, não ser um filme para ficar na memória, o Fantas teve grandes trunfos quer no cinema inglês (com o aclamado FISH TANK ou o filme de zombies de 45 libras COLIN) quer nas escolhas de Hollywood que apresentou (o incompreendido JENNIFER’S BODY finalmente encontrou-se com o público português e THE CRAZIES mostrou que há certos remakes que valem a pena). O cinema oriental, que em Portugal só aparece no Fantas, teve grandes filmes em exibição, com destaque para THIRST do realizador coreano mais sagrado da actualidade, PARK CHAN WOOK. O cinema europeu mostrou que era capaz de ter garra e criar produtos de grande público como o “zombie gangster” francês LA HORDE ou a revisitação de “Straw Dogs”, que era o dinamarquês DELIVER US FROM EVIL.
Apesar de não haverem convidados high profile que chamassem a imprensa como nos anos recentes (Wim Wenders no ano passado ou Rosanna Arquette há dois anos), a verdade é que os filmes a concurso estiveram, quase todos, representados. Inclusive Phillip Ridley de HEARTLESS apareceu para receber o prémio de Melhor Filme e Melhor Realizador, apesar de estar a tremer como varas verdes (nunca vi alguém a receber três prémios tão nervoso e envergonhado).
O regresso das acções de formação também foram uma nota positiva. Depois da masterclass de Bill Plympton, há alguns anos que não havia nenhum. A aula de dois dias de Colin Arthur sobre efeitos de maquilhagem teve muito público e veio de encontro a uma falta de formação que existia na área.
Há no entanto que notar algumas falhas na edição de este ano. O Fantas deixou de promover encontros com os realizadores, como em anos anteriores, porque havia pouca aderência do público. Uma pena, pois os poucos que aderiam merecem melhor. E a debilidade da primeira semana, que outrora exibia filmes extra-competição ou revisitações temáticas de grande interesse mas que se viu reduzida a uma repetição algo rotineira de filmes como BRAINDEAD, REANIMATOR ou A TALE OF TWO SISTERS. Isto reduz o festival a um evento de uma e não duas semanas, e isso sim, é algo a corrigir para o ano.
Considerando o debilitado panorama de eventos ligados ao cinema português (e em especial o portuense), surpreende um pouco certas críticas exageradas. O Fantasporto trouxe grandes filmes, que não veriamos em sala, e trouxe ao Porto aquela “tal” semana anual entusiasmante ao nível cinematográfico que já “precisamos” de ter.
Parabéns pelos 30 anos.

