Gérard Depardieu e Asia Argento filmam em Lisboa o novo projeto de Fanny Ardant

(Fotos: Divulgação)

Depois de “Comboio Noturno para Lisboa” (de Bille August), cujas filmagens decorreram em 2012, é a vez da segunda aventura na realização da atriz Fanny Ardant (na imagem acima) ocupar as ruas da capital portuguesa. “Cadências Obstinadas”, cuja rodagem iniciou há dois dias e se estenderá por seis semanas, tem no elenco grandes figuras do cinema europeu, como Gérard Depardieu e Franco Nero, a bela Asia Argento e os atores lusos Ricardo Pereira e Nuno Lopes. O projeto foi apresentado hoje (16/01), em Lisboa, numa conferência de imprensa que reuniu a realizadora, os dois atores portugueses, Argento e o produtor do filme, Paulo Branco

O filme será integralmente rodado na cidade portuguesa mas não serão explorados pontos turísticos ou facilmente reconhecíveis. De acordo com Fanny Ardant, cujo último trabalho como cineasta, “Cinzas e Sangue”, estreou há quatro anos em Portugal, a ideia é encontrar aqui pequenos aspetos pitorescos que não se podem localizar em outras cidades europeias.

No enredo do filme, os acontecimentos não são localmente situados e a variedade de línguas e sotaques falados na obra também não servirão para determinar onde a história se passa. Essa internacionalidade é intencional. “Para mim a nacionalidade dos atores não é relevante. Eu adoro sotaques. No caso do português, que não compreendo, acho poético”, disse Ardant. Para além disto, ela acredita que a linguagem do cinema é internacional. 

“Cadências Obstinadas” é a história de um casal em crise, depois de anos de vida conjunta, que busca a sua reinvenção através da arte – ele reconstruindo um hotel em ruínas e ela criando uma peça para violoncelo para apresentar no dia da inauguração da obra. 
 
 
 Gérard Depardieu e Asia Argento


Os pequenos “crimes” de Gérard Depardieu

Apesar de estar um tanto fora do contexto, Ardant não fugiu à pergunta sobre as recentes polémicas envolvendo um dos protagonistas e seu amigo pessoal, Gérard Depardieu. Segundo ela, a culpa “é da imprensa”, que adora explorar “pequenas coisas”. “O que importa é que ele é um dos maiores atores da sua geração”, reforçou. Segundo ela, ele tinha pedido um papel para o seu filme de estreia, mas dificuldades de envolve-lo num projeto rodado na Transilvânia não permitiram que ele entrasse. “Agora ele perguntou outra vez: tens um papel para mim”? 


Os atores portugueses

“Desta vez não fui para o Brasil!”, brincou Ricardo Pereira. O ator, que recentemente terminou sua participação numa peça de teatro, por ora teve que abrir mão de alguns trabalhos no país com o qual tem tido uma relação profissional muito forte para dedicar-se a este “Cadências Obstinadas”. “Tenho que falar italiano no filme, então tive aulas e o período de preparação foi muito exigente.” Já Nuno Lopes disse que “é uma honra” fazer parte do projeto, tendo sido convidado por Fanny Ardant conhecer o seu trabalho.


Asia Argento

A atriz relata que estava em Istambul quando recebeu a chamada convidando-a para o projeto de Fanny Ardant. “Eu não conseguia ouvir ‘nada de jeito’, mas disse sim. Fanny Ardant é uma grande inspiração para a minha carreira”. Asia, que passou por Cannes em 2012 com “Dracula”, realizado pelo pai, o mestre do terror Dario Argento, rompeu assim um tempo razoável sem filmar – uma vez que, segundo salientou, após o nascimento do seu segundo filho ela estava mais voltada para a família. 


O potencial inaproveitado de Lisboa

Fazendo eco daquilo que foi observado pelos produtores do filme de Bille August, Paulo Branco também lamentou o facto da cidade estar tão subaproveitada na hora de atrair investimentos internacionais para movimentar a sua economia através do cinema. “Em Paris, no ano passado, foram rodados cerca de 500 filmes!”, afirmou. Para ele, é uma pena que não exista uma política orientada para área. E a responsabilidade não é só do governo. “Já que não se pode contar com o ICA, então são as autarquias e as grandes empresas que têm a enorme responsabilidade por atrair investimentos”. 


A destruição da cultura em Portugal: “querem que nos tornemos selvagens”

“Já é a terceira vez que o FMI me apanha por aqui!”, diz, arrancando risos, Paulo Branco. Como não podia deixar de ser, a crise económica, o desinvestimento no cinema e na cultura em geral acabou por ser um assunto importante na conferência. Apesar desta terceira aterragem por cá do Fundo Monetário Internacional, o que implica inevitavelmente em cortes na cultura e na área social, o produtor acredita que em 1983 e 1985 não se viu um tamanho grau de destruição da cultura em Portugal. 

“A cultura e o conhecimento são um prazer, não uma obrigação”. Para ele, não só a arte mas todo o conhecimento está ser votado ao desprezo pela nova elite que governa o país. Este envolve também a ciência. “Querem que nos tornemos selvagens e domesticados ao mesmo tempo”

Nuno Lopes completa: “Há toda uma brilhante geração de atores que está ser desperdiçada. Conheço alguns que estão a mudar de profissão e outros a fazer coisas que detestam para poder sobreviver”, afirmou, referindo-se à quase impossibilidade de se fazer teatro e cinema no país.
 
 
 

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