Passar de bestial à besta pode ser só uma questão de tempo – e neste caso pouco: ainda só passaram dois anos da consagração de Lee Daniels com o pungente “Precious” para que o seu novo trabalho tenha alcançado reações fortemente negativas. Felizmente para ele, sem sombra de consenso, palavra que não se aplica por aqui.
Esta aventura sulista de Daniels parte de um livro de Pete Dexter, que já forneceu matéria-prima a dois grandes momentos dos anos 1990: “Paris Trout”, com o qual Dennis Hopper, Barbara Hershey e Ed Harris enchiam o ecrã com um filme fortíssimo, e “Rush – Uma Viagem ao Inferno”, não menos poderoso, como Jason Patrick e Jennifer Jason Leigh.
O registo de Lee é algo diferente, mas a história é igualmente intensa: Ward Jansen (Matthew McConaughey) é um jornalista que volta para a sua terriola nos confins da Flórida para investigar a condenação de um homem à pena de morte (John Cusack). Lá anda à deriva o seu irmão mais novo, Jack (Zac Effron), em amenas cavaqueiras com a sua “mãe” adotiva (Macy Gray). Ward traz seu colega Yardley (David Oyelowo, também em cartaz com “Jack Reacher”) e para ajudá-los nas pesquisas há a idiossincrática Charlotte Bless (Nicole Kidman), por quem Jack apaixona-se irremediavelmente. O seguimento da investigação é que vai desencadear os acontecimentos – e como o filme é de Daniels, pode-se contar com violência, sexualidade extrema e perversidades afins.
Aplausos, tomates e alforrecas
O tortuoso destino de “The Paperboy” na imprensa especializada começou de forma insuspeita: presente na seleção oficial do Festival de Cannes 2012, foi aplaudido durante 15 minutos! Mas também foi lá que começaram os apupos e que hoje se contabilizam às dezenas no agregador Rotten Tomatoes.
Mas nem tudo é tragédia: houve muito boa gente que gostou do filme, tanto nos Estados Unidos como em França, primeiro país onde a obra teve distribuição comercial. Neste último, inclusive os ácidos e influentes representantes da Les Inrockuptibles deram boa cotação do filme, acompanhados por críticos do Le Monde, da Premiere e do Paris Match, entre outros.
De modo geral, quem se tem safado bem das críticas é Nicole Kidman e o seu incrível esforço de encarnar uma ninfomaníaca de extrema vulgaridade. É ela que protagoniza uma das cenas polémicas da obra: após Jack ter sofrido um ataque de alforrecas, é a sua Charlotte Bless que tem a receita perfeita para libertá-lo do sofrimento: urinar em cima dele!
E o que o “acusado” tem a dizer?
Lee Daniels concordou no Huff Post que o filme é muito provocativo e que foi uma escolha inesperada depois de “Precious”. “As críticas têm sido mistas, mas eu não estou aqui para agradar como fiz com aquele filme. Os verdadeiros fãs do meu trabalho gostarão deste, assim como aqueles que não conseguem encarar a verdade ficarão chocados e chamarão o filme de nojento”.
Ousadias Artísticas
Não se deve falar das “ousadias” a envolver a personagem de Matthew McConaughey para não estragar a supresa, para além de John Cusack já ter dado mostras de valor em outros trabalhos; os grandes passos em termos de carreira são dados aqui por Zac Effron, a distanciar-se de vez do cinema adolescente, e Nicole Kidman, que mete a sua trajetória de musa no caixote do lixo com o vigor com que interpreta uma personagem abaixo da vulgaridade absoluta.
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Realização: Lee Daniels
Elenco: Matthew McConaughey, Zac Efron, Nicole Kidman, John Cusack, David Oyelowo, Macy Gray, Scott Glenn. EUA, 2012. {/xtypo_rounded2}

