Depois de «Peep Show», Yutaka Tsuchiya cria explosivo «GFP Bunny»

(Fotos: Divulgação)

Oito anos depois do bombástico «Peep Show», Yutaka Tsuchiya regressa com mais uma explosão visual num registo docudrama que questiona a realidade e a perspectiva. Inspirando-se num trabalho artístico de Eduardo Kac, que em parceria com o geneticista Louis-Marie Houdebine alterou geneticamente um coelho, dando-lhe o brilho de uma medusa (alforreca), este «GFP Bunny» apresenta-se como uma metafição sobre uma adolescente de 16 anos de idade que abalou a sociedade Japonesa quando tentou envenenar a própria mãe com tálio em 2005. Desde então, a jovem ficou conhecida apropriadamente como a Rapariga do Tálio, e este projeto – visualmente espampanante – é uma espécie de diálogo ela e o realizador, que é caracterizado apenas como uma voz.

Observa, observa, observa…

 

A «Rapariga do Tálio», constantemente vítima de Bullying na escola, mostra um interesse incomum pela ciência, observando e dissecando várias criaturas (só pelo empirismo se pode evoluir) e fazendo o upload de imagens como um diário em vídeo no YouTube. Entrevistas de várias pessoas e curtas documentais são destaque em paralelo com o diário em vídeo, entrecortando a ação, as entrevistas e outras aparições.

Já a sua mãe é obcecada em evitar (o inevitável) processo de envelhecimento, socorrendo-se de inúmeras medicações. A certo ponto a jovem vê a mãe como uma das suas amostras de experimentação e começa a envenená-la, procurando aprender ao máximo sobre a mais recente tecnologia em torno da engenharia genética, bem como em torno da Bioarte, procurando respostas para a diferença entre a cirurgia plástica que sua mãe faz e manipulação genética, acreditando que há esperança na mudança do formato humano e libertando o ser humano da sua prisão que o DNA representa. A par da «recriação», surgem cientistas a falar, entrevistas de rua, sendo lançado um bom tema para uma discussão pós filme.
 
 

Com isto, e sempre com um olhar provocante mas não excessivamente intrusivo, Tsuchiya embarca no levantamento de questões sobre a forma como o ser humano está cada vez mais a ser trabalhado como um metadado e não como um ser de carne e osso. Por isso mesmo, e de forma simbólica, cada vez mais pessoas estão a “caracterizar” as suas identidades a adoptar um segundo «eu», extraindo os elementos ideais de uma vasta base de dados e juntar esses elementos de maneira a criarem aquilo que consideram ser uma versão «única» de si mesmos. As modificações corporais e a autovigilância, são também uma moda desta busca evolutiva à força. Mas como escapar a um mundo em que a linha que separa as personalidades virtuais, o mundo dos avatares e o ser humano é cada vez mais ténue? Como escaparmos a um formato predeterminado? A biotecnologia pode ter a resposta, pois ao se descobrir que na verdade o genoma humano é como um programa com códigos, torna-se possível modifica-lo, podendo o ser humano adquirir uma nova identidade. Seria assim tão bom (ou mau) mudar o código do programa humano e alterar as nossas características?
 
 

Com Yuka Kuramochi no protagonismo e Makiko Watanabe e Kanji Furutachi no apoio, «Bunny» – que deverá ter a sua antestreia europeia no Festival de Roterdão – é um verdadeiro «remix» cinematográfico onde até não faltam aparições de artistas na modificação corporal, biólogos e cirurgiões plásticos.

Aqui fica um trailer:
 
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