Muito antes de Central do Brasil (1998) conquistar o Urso de Ouro na Berlinale, Walter Salles teve uma trajetória pouco associada ao cinema: foi piloto, competindo em karting e na modalidade GT3. Hoje, a sua atenção vira-se para outro território popular no Brasil — o futebol — com a preparação da série documental Sócrates Brasileiro (2026).
Produzido pela VideoFilmes e pela Anonymous Content Brasil para a Globoplay, o projeto explora o percurso do jogador, o movimento da Democracia Corintiana e o seu ativismo político durante a ditadura. Fala-se numa possível apresentação no Festival de Cannes, entre 12 e 23 de maio, embora sem confirmação.
Neste 12 de março, data em que o realizador celebra 70 anos, o Canal Brasil assinala a ocasião com uma retrospetiva dedicada à sua obra. A programação inicia-se com um episódio da série Cineastas do Real, conduzido por Amir Labaki, onde Salles reflete sobre a sua estética e o diálogo entre documentário e ficção.
Segue-se Socorro Nobre (1996), curta centrada numa reclusa de Salvador que escreve ao artista Franz Krajcberg — história que viria a inspirar a personagem Dora em Central do Brasil (1998). Depois, Jia Zhangke, Um Homem de Fenyang (2014) acompanha o cineasta chinês Jia Zhangke num regresso às origens, revelando a relação entre memória e criação.
A curta Quando a Terra Treme (2017) aborda as consequências das cheias de Mariana, antecedendo a exibição de O Primeiro Dia (1998), correalizado com Daniela Thomas, e nomeado ao Leopardo de Ouro em Locarno. Segue-se Terra Estrangeira (1995), também assinado pela dupla, com Fernanda Torres e Alexandre Borges.
A encerrar, Central do Brasil (1998), protagonizado por Fernanda Montenegro e Vinícius de Oliveira, reafirma-se como marco do cinema latino-americano, distinguido com o Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro e com o prémio de Melhor Atriz para Montenegro.
Entretanto, Ainda Estou Aqui (2024) continua a somar projecção internacional, com exibições no Festival du Cinéma Brésilien de Paris. Baseado no livro de Marcelo Rubens Paiva, o filme revisita os anos da ditadura (1964-1985) através da figura de Eunice Paiva.
“A minha geração chegou ao cinema após 21 anos de ditadura militar. Muitas histórias ficaram por contar”, recorda Salles. O percurso de Eunice — interpretada por Fernanda Torres, distinguida com o Globo de Ouro — ganha forma num relato sobre memória, resistência e justiça, que valeu ao filme o Grande Prémio FIPRESCI no Festival de San Sebastián.
Eleito Melhor Filme de 2024 por associações de crítica brasileiras, Ainda Estou Aqui (2024) marca o regresso de Salles à ficção após mais de uma década, desde On the Road (2012), adaptação da obra de Jack Kerouac, apresentada em Cannes. Pelo meio, o realizador dedicou-se ao documentário e à produção, participando em projetos como Marinheiro das Montanhas (2021), de Karim Aïnouz, e a animação Arca de Noé (2024), de Sergio Machado e Alois Di Leo.

