Residente em Berlim, Karim Aïnouz define o país que se tornou a sua casa, em paralelo com os compromissos no Brasil, através de quatro substantivos: “Esta cidade, para mim, é invenção, transgressão, alegria e surpresa”, afirmou o cineasta cearense, de 60 anos, ao C7nema, manifestando a satisfação por estar seleccionado para a competição pelo Urso de Ouro de 2026 com Rosebush Pruning (2026), um painel de cataclismos familiares. “Usaria essas mesmas palavras para definir o festival e para classificar o que senti ao fazer este novo filme”, acrescentou.
Nomeado para a competição oficial da Berlinale em 2014 com Praia do Futuro (2014), Aïnouz regressou ao evento em 2018 com Aeroporto Central (2018), obra que lhe valeu o Prémio da Amnistia Internacional; em 2020, com Nardjes A.I (2020); e em 2022, já como jurado. Pelo meio, venceu o Prix Un Certain Regard de Cannes com A Vida Invisível (2019) e concorreu duas vezes consecutivas à Palma de Ouro: com Firebrand (2023), lançado pela Amazon Prime como Firebrand (O Jogo da Rainha), e com Motel Destino (2024).
“Estes dois filmes compõem uma trilogia com Rosebush Pruning, centrada em personagens masculinas tóxicas e perigosas. No primeiro há um rei, no segundo um proprietário de motel violento, e agora um pai. Fiz uma espécie de anatomia”, explicou o realizador, cujo elenco reúne Pamela Anderson, Tracy Letts, Callum Turner, Riley Keough, Jamie Bell e Elle Fanning.

A obra é descrita como uma nova leitura de I Pugni in Tasca (1965), de Marco Bellocchio. Com argumento de Efthimis Filippou — conhecido por The Lobster (2015) —, o filme decorre numa mansão na Catalunha e acompanha uma família americana privilegiada e excêntrica, mergulhada em conflitos absurdos. Os irmãos Jack, Ed, Anna e Robert vivem isolados do mundo, usufruindo da fortuna herdada, enquanto ignoram as necessidades do pai cego e procuram afeto entre si, rodeados de luxo. Quando Jack, o irmão mais velho e eixo da família, anuncia que vai abandonar o pai e os irmãos para viver com a namorada Martha, os laços familiares entram em colapso. Ed começa então a descobrir a verdade por detrás da morte misteriosa da mãe, fazendo emergir mentiras que conduzem a família a uma espiral de violência.
“Tracy Letts interpreta o pai. É um dos maiores dramaturgos da atualidade. Conheci o seu trabalho através da adaptação que William Friedkin fez da sua peça Killer Joe (2011), sem ainda ter plena consciência do intérprete que é. Adorei a sua irreverência”, explicou Aïnouz. “O filme de Bellocchio foi, sim, um ponto de partida, mas carrega marcas do seu tempo. Lá, a figura central é a mãe; aqui não. O que fiz foi uma sátira, com um humor refinado. É o meu primeiro filme em que os intérpretes não improvisam”, acrescentou, elogiando o guião de Filippou e antecipando o regresso às filmagens no Brasil em 2027. “Vivemos um momento bonito no país. Espero que as alegrias do nosso cinema, com as distinções que temos conquistado, se prolonguem numa forte presença na Berlinale.”

