Projetado como ficção, mas despedaçado pela censura, que exigiu 103 cortes aos seus 90 minutos originais, “Catembe”, agora numa versão documental de apenas 45 minutos, com pequenas partes ficcionais que povoam o ecrã sem sentido, foi exibido na tarde de quinta-feira, 13 de outubro, no Doclisboa, numa sessão onde esteve pouco público, mas que contou com a presença do seu realizador, Faria de Almeida.
“Queria mostrar como era realmente Lourenço Marques”, explicou o cineasta em palco, acompanhado por Maria do Carmo Piçarra, que posteriormente esteve também presente uma conversa com o realizador Manuel Mozos, sob moderação de Amarante Abramovici (programadora do Doclisboa e curadora da retrospetiva A Questão Colonial).
“As pessoas não faziam ideia do que era Lourenço Marques. Queria mostrar essa cidade que eu gostava muito”, explicou Faria de Almeida, acrescentando que antes mesmo de começar a fazer o filme, apareceu-lhe a PIDE com um documento do Ministério do Interior que dizia que ele ia filmar a história de uma prostituta branca e um pescador negro. “Esse ministro mandou um cartão ao SNI (Secretariado Nacional de Informação) e este serviço ficou aflito. Pediram então ao Ministério do Ultramar para tentar saber o que se passava. A agência do ultramar e o ministério tinham pouca vontade que o filme se fizesse. Naquele tempo, o que se via nos jornais eram atualidades fortuitas, sem interesse nenhum, ou aquelas celebrações em que o presidente ia vestido de branco a passar as ruas de Moçambique com os pretos com bandeirinhas [de Portugal). Queria mostrar como se vivia em Lourenço Marques. Os pretos e os brancos. Depois, a Agência Geral do Ultramar mandou cortar umas coisas, e outras entidades mandaram cortar outras. Alguns cortes eram realmente insignificantes, como o de um ator conhecido que disse que trabalhou em Lourenço Marques e regressou a Portugal”. Ora, para os censores, Lourenço Marques e Moçambique eram Portugal, logo essa passagem tinha de ser cortada. “O filme acabou por ser cortado, cortado, cortado de tal maneira que pensei que podia fazer a montagem de uma versão mais pequena, mas que mostrasse Lourenço Marques”.
Acompanhando sete dias de uma semana, começando num domingo, “Catembe” – que era o nome de uma mulher, mas também de uma região da cidade – vagueia pelo espírito de um local que chega mesmo a ser comparado à Riviera. No que sobrou, os tais 45 minutos, acedemos a inúmeras imagens históricas, umas que mostram a riqueza (dos brancos), outras a pobreza (dos negros), mas igualmente uma miscigenação latente em alguns espaços de lazer, como um um cabaret, onde brancos e negros dançam sem pudores (cenas que foram censuradas).

E se no domingo impera o lazer e o descanso, a segunda-feira traz o trabalho para o grande ecrã. Na terça-feira fala-se das “bifas”, as britânicas que punham os homens locais em alvoroço (uma personagem em cena remete-nos para Zézé Camarinha, provocando risadas). Nesse mesmo dia, numa conversa entre um homem e uma mulher portuguesa, fala-se das diferentes posições e posturas do homem e da mulher na sociedade, e como as jovens eram pressionadas pelas famílias e, para escapar disso, casavam-se “apressadamente”, entrando depois num regime ainda mais opressor.
O cinema em Moçambique e os intelectuais que viviam no local são também abordados noutros dias da semana, tudo num registo riquíssimo sobre o nosso passado colonial que tem de ser olhado com um enorme sentido crítico.
No final, o Doclisboa – com o apoio do projeto FILMar – teve assim uma das suas sessões mais interessantes e corajosas desta edição 2022, onde a retrospetiva “A Questão Colonial” se revelou o maior peso pesado da programação.

