Homenageado no Festival de Locarno com um Prémio de Carreira, o franco-grego Constantin Costa-Gavras está neste momento a desenvolver uma série juntamente com o romancista francês Marc Levy na adaptação da sua recente trilogia “9”, sobre um grupo de hackers que tenta defender o mundo e a democracia de um ditador.
Questionado em Locarno pelo C7nema sobre esta sua incursão pelo terreno da TV, o mestre dos thrillers políticos, cujo último filme foi “Adults in the Room”, confessou que está a desenvolver um guião, mas que ainda está a ponderar esta incursão no streaming: “Estou a trabalhar num guião, mas não posso afirmar que vou fazer uma série realmente. No fundo, esta é uma nova maneira de fazer um espetáculo. Mas ainda estou a pensar muito no tema. A primeira questão que tenho é: uma série pode ser uma obra de arte? Um filme é, pois tem início e fim. Uma série, ela acaba e segues para as próximas (temporada). Isto é algo que me faz questionar as coisas. Por um lado, com uma série em streaming atinges milhões de pessoas. O mesmo se passa com filmes, pois podes ver imensos não gastando tanto dinheiro como o farias numa sala. Por tudo isto, posso dizer que estou a trabalhar num projeto, mas ainda estou a fazer várias questões a mim próprio sobre o tema. Vamos ver no que vai dar (ou não).“
Além da distinção em Locarno e a presença no festival suíço, Costa-Gravas verá dois dos seus filmes menos conhecidos exibidos no certame: “Un homme de trop” (Shock Troops) e “Compartiment tueurs” (The Sleeping Car Murders). “O tipo de filmes como aquele que vai ser exibido hoje [“Compartiment tueurs”], eram vistos como um verdadeiro espetáculo, pois podíamos falar através das personagens sobre a sociedade. Podíamos falar da injustiça, da polícia, etc, e como atuavam. Direta ou Indiretamente. Fazer esse filme foi uma verdadeira surpresa para mim. Não tinha intenção de o fazer, mas sim usar o livro [de Sébastien Japrisot] como um exercício de adaptação. Escrevi-o entre o meu primeiro filme e a assistir o René Clément num novo projeto, por trabalhei nesse guião de forma muita académica nas horas vagas. Dei uma cópia do guião à secretária de um chefe do estúdio para ela passá-lo à máquina. Ela fez isso e deu-o ao chefe, que quis adaptá-lo ao cinema (…) chamando Yves Montand, Simone Signoret e Michel Piccoli para o elenco.

Quanto a “Un homme de trop” , Costa-Gravas lembra que propôs ao produtor Harry Saltzman uma história sobre a Revolução Cultural na China, mas ele rejeitou uma fita que tivesse que ser filmada com a maioria de atores chineses, o que o limitaria o retorno comercial. Ao invés, ele ofereceu a Costa-Gavras que lesse um livro de Jean-Pierre Chabrol sobre a Resistência Francesa durante a Segunda Guerra Mundial, que se transformou em “Un homme de trop”:
O Festival de Locarno prossegue até ao próximo dia 14 de agosto.

