Morreu Peter Bogdanovich (1939-2022)

(Fotos: Divulgação)

Morreu aos 82 anos o crítico, historiador de cinema, argumentista e realizador Peter Bogdanovich, responsável por títulos como “Alvos“, “A Última sessão“, “Lua de Papel“.

Bogdanovich morreu esta quinta-feira de causas naturais na sua casa em Los Angeles, disse a sua filha Antonia Bogdanovich ao The Hollywood Reporter.

Já me perguntaram se existia um movimento nos EUA quando os anos 1970 chegaram, tipo um movimento cinematográfico de vanguarda. Mas, não… Havia só uma espécie de passagem de testemunho: chegou um grupo mais jovem, afoito por contar as suas histórias, da sua maneira. Mas eu, por exemplo, não segui com esse grupo por onde quer que ele fosse. Estava ocupado com os realizadores do passado. A ouvir pessoas que podiam ser esquecidas. Pessoas que hoje não são mais lembradas“, disse o cineasta ao C7nema numa entrevista no ano passado.

Nascido em Kingston, Nova Iorque, filho de imigrantes em fuga aos nazis, Peter começou como ator na década de 1950, estudando com Stella Adler e surgindo na televisão. No início dos anos 1960, alcançou notoriedade por programar filmes no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque, exibindo com destaque o trabalho de diretores americanos como John Ford, sobre quem escreveu posteriormente um livro e o então subestimado Howard Hawks. Bogdanovich também chamou a atenção para pioneiros esquecidos do cinema americano como Allan Dwan. “Quando [os novos] olhavam para o futuro, eu estava preocupado em olhar para o passado e conversar com o John Ford, Howard Hawks e outros grandes nomes. Fala-se muito que a geração americana dos anos 1960 e 70 viu os filmes de vanguarda da Europa e da América Latina, mas essas longas-metragens estrangeiras raramente chegavam até nós. A Nouvelle Vague, sim, chegou até nós. Mas nem tudo. Vimos os franceses, vimos Bergman, vimos Kurosawa. E eu fiquei com os clássicos de Hollywood, lutando para eles não serem esquecidos. Sigo nessa linha até hoje.“, disse ao C7nema na mesma entrevista.

Alvos

Antes de se tornar realizador, Peter Bogdanovich construiu a sua reputação como escritor na revista Esquire, sendo influenciado pelos críticos franceses da década de 1950 que escreveram para a Cahiers du Cinema, especialmente François Truffaut. Tal como eles, passou da escrita para a realização e em 1968 estreou-se com um filme de baixo orçamento com o apoio de Roger Corman, “Alvos” (1968), que no elenco contava, entre outros, como Boris Karloff. Sobre essa experiência, explicou-nos: “O amor pela Velha Hollywood, pelos clássicos que hoje já não são mais falados, levou-me a ter Karloff comigo. Já tinha encenado uns sete espetáculos teatrais. Tinha ainda trabalhado como assistente de realização de Roger Corman em “Os anjos selvagens” (The Wild Angels), de 1966. Alguma experiência tinha. Foram apenas cinco dias de trabalho com o Boris, para concluir todas as suas cenas. Ele já estava bem velhinho na época, mas foi muito colaborativo, muito curioso. Tive 23 dias para rodar o filme, sem tempo nenhum para perder e com pouco dinheiro. Filmamos em 1967, mas lançamos só em 1968, porque a montagem atrasou-se.”

Seguiram-se “Voyage to the Planet of Prehistoric Women“, o documentário “Directed by John Ford” e o seu primeiro grande sucesso, “A Última Sessão“, pelo qual foi nomeado a 8 Oscars e ganhou 2. “A Última Sessão falou para uma plateia que queria aquela maneira de contar. Uma plateia que ainda sabia quem era Howard Hawks e John Ford e que parecia aberta para o que aquele momento de transição histórica trazia“, disse-nos, explicando ainda a sua maior dificuldade na época: “Todo o processo para convencer o Ben Johnson de que deveria estar connosco, apesar de toda a reserva que tinha em relação ao facto de o guião ser muito palavroso. Foi algo que me tocou. Estava próximo de John Ford na época e foi ele quem intercedeu, explicando ao Ben que ali seria uma forma definitiva dele sair da sombra de John Wayne. E, como esperava, ele ganhou o Oscar por aquele papel“.

Bogdanovich seguiu “A Última Sessão” (1971) com outros sucessos, “Que Se Passa Doutor?” (1972) e “Lua de Papel“, que rendeu a Tatum O’Neal um Oscar de Melhor Atriz Secundária. Foi a adaptação da novela de Henry James, “Daisy Miller” (1974), que marcou o início do fim da carreira de Bogdanovich como cineasta popular e aclamado pela crítica. Protagonizado por Cybill Shepherd, o filme foi atacado pela crítica e representou um fracasso das bilheteiras, repetindo-se de forma ainda mais acentuada a situação com “Amor eterno” (1975), onde a atriz voltava a aparecer, agora ao lado de Burt Reynolds.

Ela está muito bem em Daisy Miller, e recebeu ótimas críticas. As pessoas estavam irritadas porque eu estava a ter um caso com ela” , disse Bogdanovich numa entrevista de 2019 à Vulture. “Vi fotos nossas; Eu pareço um cara arrogante e atraente, e ela parece uma miúda sexy. E éramos ricos, famosos e fazíamos filmes juntos. Em algum momento em meados dos anos 70, quando estávamos com péssima reação da imprensa, o Cary Grant ligou-me e disse: “Peter, pelo amor de Deus, pare de dizer às pessoas que é feliz. E pare de dizer que está apaixonado.(…) Ele estava certo.

Peter Bogdanovich e Cybill Shepherd nas filmagens de “A Última Sessão

Tentando recuperar o sucesso inicial, Bogdanovich volta-se para o passado com “O Vendedor de Sonhos” (1976), comédia que narra os primeiros dias da indústria cinematográfica, desta vez sem Cybill Shepherd no elenco. Não se repetiu o sucesso de “Lua de Papel” (1973) e as bilheteiras não saíram recheadas, o que levou a um hiato do cineasta durante três anos.

Regressaria com “Noites de Singapura” (1979), mas voltaria a deixar a sua marca nos jornais (no pior sentido) com uma comédia de baixo orçamento estrelada por Audrey Hepburn e Dorothy Stratten: “Romance em Nova York” (1981). Durante as filmagens, Bogdanovich apaixonou-se por Stratten, que era casada com Paul Snider, o qual dependia dela financeiramente. Stratten foi morar com Bogdanovich, e quando ela disse a Snider que o ia deixar, o homem disparou sobre ela, matando-a, cometendo suicídio de seguida. Todo este caso assombrou a publicidade a “Romance em Nova York“, que teve uma distribuição limitada e, consequentemente, fracos resultados na bilheteira. Devastado com a morte de Stratten, Peter Bogdanovich teve ainda de lidar com o desastre financeiro que ditou a sua bancarrota.

Bogdanovich e Dorothy Stratten | Foto: The LIFE Picture Collection / Getty Images

Regressaria à escrita através da publicação do livro de memórias “The Killing of the Unicorn: Dorothy Stratten (1960-1980)“, publicado em 1984, e estrearia em 1985 “Máscara“.

Depois disso veio “Ilegalmente Tua” (1988); “Texasville” (1990), a sequela de “A Última Sessão“; “Apanhados no Acto” (1992); e “O Grande Sonho” (1993), que seria o seu último filme para o cinema até lançar “Ela é Mesmo… o Máximo” (2014) e o documentário “The Great Buster“, sobre a lenda do cinema mudo Buster Keaton.

Nos seus créditos contam-se ainda os livros “Who the Devil Made It: Conversations With Legendary Directors” (1997) e “Who The Hell’s in It: Portraits and Conversations“, o qual publicou em 2004 e contém 26 perfis e entrevistas a personalidades de Hollywood.

O cineasta tinha ainda agendado um novo projeto cinematográfico, “One Lucky Moon“, que fica assim parado com a sua morte. Sobre esse filme e o futuro do cinema no pós pandemia, o realizador disse ao C7nema: “È preciso pensarmos o que sobrará desta atividade depois da pandemia acabar. Já não ia há muito tempo ao cinema por estar ocupado com trabalho, a escrever roteiros e livros. Sinto que as comédias, que vem sendo lançadas nas plataformas online, para serem vistas em casa, terão uma boa receção. Eu mesmo tenho uma comédia para ser filmada quando tudo passar, chamada “One Lucky Moon”, ambientada num parque temático da Costa Oeste“.

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