Peter Bogdanovich: “Demos uma injeção de realismo nas veias do cinema”

(Fotos: Divulgação)

Lançado no dia 2 de outubro de 1971, no New York Film Festival, “A Última Sessão” (“The Last Picture Show”) está a comemorar 50 anos cercados de expetativas de revisões críticas e projeções especiais, mas o seu realizador, Peter Bogdanovich, ainda não decidiu sobre como celebrar, nem sobre como resgatar o espírito de contestação do projeto. Ele vai fazendo a sua parte com a cinefilia ao produzir um livro chamado “Five American Icons”: ao que se sabe, são conversas, anotações e reflexões com e sobre Lauren Bacall, Kirk Douglas, Arthur Miller, Clint Eastwood e Jack Nicholson. E estima-se que termine de escrever este ano, enquanto trabalha, paralelamente, na edição dos seus diários, “But What I Really Wanna Do Is Direct”.

O realizador de “Lua de Papel” (1973) e “Que Se Passa, Doutor?” (1972) hoje tem 81 anos e não filma desde 2018, quando lançou o documentário “The Great Buster”, sobre Buster Keaton, em paralelo ao trabalho para tirar “O Outro Lado do Vento”, de Orson Welles (no qual foi ator) do papel, levando-o à Netflix. Quando “A Última Sessão” foi lançado, tinha 32 anos e transformou-se “na” promessa entre os memorialistas da sua geração, tendo sido nomeado aos Oscars de melhor realização e argumento adaptado (do romance de Larry McMurtry). Multidões de cinéfilos, à época, pagaram para ver a perda da inocência dos jovens Sonny Crawford (Timothy Bottoms), Jacy Farrow (Cybill Shepherd) e Duane Jackson (Jeff Bridges) numa América em P&B. Mas a América da Covid-19 não é mais a mesma.  

Nesta entrevista ao C7nema, Bogdanovich revisita memórias, saudades e sucessos, expondo ainda a sua preocupação com a atual realidade da indústria audiovisual

O que pode salvar o cinema hoje?

A plateia, como sempre foi. “A Última Sessão” falou para uma plateia que queria aquela maneira de contar. Uma plateia que ainda sabia quem era Howard Hawks e John Ford e que parecia aberta para o que aquele momento de transição histórica trazia. Mas hoje há um vírus perigoso entre nós. Não posso ir ao cinema por causa dele. Muitas pessoas não podem. È preciso pensarmos o que sobrará desta atividade depois da pandemia acabar. Já não ia há muito tempo ao cinema por estar ocupado com trabalho, a escrever roteiros e livros. Sinto que as comédias, que vem sendo lançadas nas plataformas online, para serem vistas em casa, terão uma boa receção. Eu mesmo tenho uma comédia para ser filmada quando tudo passar, chamada “One Lucky Moon”, ambientada num parque temático da Costa Oeste.

A Última Sessão

Acredita que “A Última Sessão” fez parte de uma revolução?

Não fizemos uma revolução, só mudámos o processo. Os filmes pararam de ser feitos para estrelas, como os estúdios queriam, e passaram a abordar temas que traziam a realidade à tona. Só demos uma injeção de realismo nas veias do cinema.

Qual é a recordação mais tocante que guarda das filmagens de “A Última Sessão”?

Todo o processo para convencer o Ben Johnson de que deveria estar connosco, apesar de toda a reserva que tinha em relação ao facto de o guião ser muito palavroso. Foi algo que me tocou. Estava próximo de John Ford na época e foi ele quem intercedeu, explicando ao Ben que ali seria uma forma definitiva dele sair da sombra de John Wayne. E, como esperava, ele ganhou o Oscar por aquele papel.

A questão de “A Última Sessão” é a mudança que o seu sucesso significou para mim. Num dia, era apenas mais um realizador. No dia seguinte, era alguém que a indústria passou a considerar o que tinha para dizer. Naquele momento, o Cinema, no mundo, acreditava ser capaz de transformar uma realidade que estava a mudar tragicamente diante de nós. Tentei reagir a isso, uns três anos antes, ao lançar “Alvos”, no qual falei da venda indiscriminada de armas nos EUA, em 1968, em paralelo [à Guerra do] Vietname. Já vínhamos de uma ressaca pesada em relação à Guerra da Coreia, que mudou muita coisa entre nós, por conta da nossa inocência, que acabou ali.

Alvos

Alvos”, literalmente “Targets” no original (Na mira da mortebr), passeou pelo Festival de Pesaro antes de estrear. Como foi realizar uma lenda como o Boris Karloff num momento em que você eras um iniciante?

O teatro ajudou-me. Já tinha feito umas 30 peças como ator quando comecei esse projeto. E o amor pela Velha Hollywood, pelos clássicos que hoje já não são mais falados, levou-me a ter Karloff comigo. Já tinha encenado uns sete espetáculos teatrais. Tinha ainda trabalhado como assistente de realização de Roger Corman em “Os anjos selvagens” (The Wild Angels), de 1966. Alguma experiência tinha. Foram apenas cinco dias de trabalho com o Boris, para concluir todas as suas cenas. Ele já estava bem velhinho na época, mas foi muito colaborativo, muito curioso. Tive 23 dias para rodar o filme, sem tempo nenhum para perder e com pouco dinheiro. Filmamos em 1967, mas lançamos só em 1968, porque a montagem atrasou-se.

Além disso, custou-me vender “Alvos” a um distribuidor. Mas estreamos logo após terem assassinado Bob Kennedy. Imagina o que foi, naqueles dias, lançar um filme sobre um atirador de elite psicopata no momento em que assassinam a tiros um dos senadores com maior popularidade nos EUA. Foi uma histeria. Mas era necessário. Naquele tempo, estávamos a repensar uma nação.

Peter Bogdanovich e Cybill Shepherd nas filmagens de “A Última Sessão

“O cinema encontrou no streaming um canal, um caminho. Mas não pode esquecer a História.” 

Numa entrevista ao Jornal do Brasil, em 2018, comentou que houve gritos de censura contra o filme. Como foi?

A imprensa andou às avessas, mas foi muito positiva, afirmando que o meu filme era um documentário antiarmamento, um libelo antibélico. Passei a ser visto como um realizador de culto, o que ajudou na carreira de “Alvos” nos ecrãs e abriu-me o caminho para filmar “A Última Sessão”, que lancei em 1971.

Já me perguntaram se existia um movimento nos EUA quando os anos 1970 chegaram, tipo um movimento cinematográfico de vanguarda. Mas, não… Havia só uma espécie de passagem de testemunho: chegou um grupo mais jovem, afoito por contar as suas histórias, da sua maneira. Mas eu, por exemplo, não segui com esse grupo por onde quer que ele fosse. Estava ocupado com os realizadores do passado. A ouvir pessoas que podiam ser esquecidas. Pessoas que hoje não são mais lembradas. O cinema encontrou no streaming um canal, um caminho. Mas não pode esquecer a História.  

O senhor não se vê como parte do bloco do qual fazem parte grandes cineastas como Martin Scorsese, Francis Ford Coppola, Brian De Palma e Steven Spielberg, que ainda estão por aí, uns a filmar, outros só a produzir. Como é a sua relação com esse coletivo?

Quando eles olhavam para o futuro, eu estava preocupado em olhar para o passado e conversar com o John Ford, Howard Hawks e outros grandes nomes. Fala-se muito que a geração americana dos anos 1960 e 70 viu os filmes de vanguarda da Europa e da América Latina, mas essas longas-metragens estrangeiras raramente chegavam até nós. A Nouvelle Vague, sim, chegou até nós. Mas nem tudo. Vimos os franceses, vimos Bergman, vimos Kurosawa. E eu fiquei com os clássicos de Hollywood, lutando para eles não serem esquecidos. Sigo nessa linha até hoje.

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