Envolvido numa enorme polémica no Médio Oriente, em particular nas redes sociais, com pedidos de boicote e “cancelamento”, o filme “Amira” viu a Royal Film Commission da Jordânia retirá-lo da corrida ao Oscar de Melhor Filme Internacional. Logo após isso, os produtores do filme retiraram filme de uma exibição programada na primeira edição do Red Sea Film Festival, a decorrer atualmente na Arábia Saudita.
Para entender o confronto de opiniões e críticas ao filme – onde se inclui uma verdadeira invasão da IMDB com notas negativas (atualmente o filme tem 1.6/10) – temos de olhar para o seu enredo, o qual aborda o facto real de crianças palestinas que foram concebidas através de esperma contrabandeado a partir de detidos em prisões de Israel. Segundo um texto no final do filme, desde 2012, cerca de 98 crianças foram concebidas dessa forma.
“Amira” gira em torno de uma adolescente concebida com o esperma de um ativista palestino condenado a prisão perpétua. Quando o seu pai pede à mãe de Amira para ter um segundo filho nas mesmas circunstâncias, uma série de eventos vai conduzir a descobertas que vão mudar a vida da família para sempre.
As críticas ao filme surgiram particularmente de famílias de prisioneiros palestinos e organizações envolvidas na defesa dos seus direitos por, alegadamente, o filme “ser insensível e deturpar a situação”. Relatos da imprensa local apontam para pressões, junto da Jordânia, para retirar o filme da corrida ao Oscar, por parte da Comissão de Assuntos dos Prisioneiros da Autoridade Palestina e do ministro da cultura, Atef Abu Saif.
E a verdade é que a Royal Film Commission da Jordânia, num comunicado, defendeu o filme, mas disse que decidiu retirá-lo da corrida ao Oscar porque a polémica poderia ser prejudicial à causa da Palestina: “A sua mensagem não prejudica de forma alguma a causa palestina, nem a dos prisioneiros; pelo contrário, destaca a sua situação, a sua resiliência e também a sua vontade de viver uma vida digna, apesar da ocupação (…) No entanto, à luz da recente grande polémica que o filme gerou e da perceção de alguns de que ele é prejudicial à causa palestina, e por respeito aos sentimentos dos prisioneiros e de suas famílias, a Royal Film Commission tomou o decisão de não ter “Amira” a representar a Jordânia no Oscar de 2022”.

As críticas à fita estenderam-se à Associação de Artistas Jordanos, que denunciou o filme como uma “traição” ao povo palestino e à sua causa, enquanto a Associação de Imprensa do país descreveu o projeto como “vergonhoso” para a história do cinema árabe e que “denigre” a luta do povo palestino e os seus sacrifícios.
Hany Abu-Assad, conhecido por realizar “O Paraíso, Agora!”, é um dos produtores de “Amira” e diz que “foi cometido um erro de cálculo” na execução do filme e que lamenta que os presos tenham se sentido prejudicados com a obra. Ele promete encontrar uma forma de amenizar os danos causados e disse ao jornal egípcio Al-Ahra que a “santidade dos prisioneiros políticos” palestino estava acima de tudo. “Hoje estamos em nossas casas, mas os presos estão nas prisões, a lutar pela nossa liberdade, por isso não podemos ignorar seus sentimentos”, afirmou.
Mohamed Diab, habituado a polémicas

Ainda antes da Primavera Árabe e da revolução egípcia, Mohamed Diab já dava cartas ao abordar temáticas sensíveis e tabus da região. Em 2010, ele abordou a condição da mulher numa sociedade machista através de “678”, filme que seguia a problemática do assédio sexual no Egito. “Há uns anos atrás vi uma notícia alarmante sobre a incidência de casos de assédio sexual no Egito. Foi incrível descobrir que um grupo de homens pode decidir unanimemente violar uma mulher.”, disse Diab ao C7nema numa entrevista na época. “Isto despertou-me uma certa curiosidade que me levou a contactar com muitas raparigas que conhecia. Acabei por entrevistar centenas de mulheres e descobri muito daquilo que sofrem diariamente.”

Depois disso, Diab voltou a estar no centro do furacão com “Clash”, filme cuja ação decorre no Egito em 2013, dois anos depois da sua revolução, num cenário de profunda confrontação entre manifestantes e apoiantes da Irmandade Muçulmana. O filme, que tentava acima de tudo apregoar a necessidade de uma reaproximação das diferentes facções no pós-Mubarak, sofreu criticas de vários quadrantes, em especial da elite governante, resultando numa reação coordenada – e elaborada – contra ele e contra o filme, que incluiu um segmento de 10 minutos na TV nacional egípcia do governo a acusá-lo de ser espião, e artigos de jornais a insinuarem que o cineasta apoiava o terrorismo, a Irmandade Muçulmana e até o sionismo. No final, falou-se mesmo que filme fazia parte de uma conspiração internacional mais ampla contra o Egito.
Agora com “Amira” as acusações contra Diab prosseguem, mas abandona o Egito, onde até foi exibido em El Gouna, e prosseguem noutros países do mundo árabe, com a Jordânia à cabeça.

