Existe uma expressão brasileiríssima que une a noção de “reverência” à ideia de sobrenatural que se chama “bater cabeça”, usada como um sinónimo para demonstrar respeito a uma manifestação do Além. Nessa lógica, a partir da próxima terça-feira, o cinema brasileiro vai estar a “bater cabeça” para as forças das trevas e do “extra-ordinário” com a abertura da 7º edição do festival Rio Fantastik.
A maratona horrorífica do Rio de Janeiro abre as suas atividades prestando um tributo à atriz Aldine Müller, com a projeção de “Shock: Diversão diabólica” (1984), de Jair Correia. Na sequência, o evento – criado pelo crítico e cineasta Mario Abbade – engata a exibição de uma série de produções brasileiras. Entre os títulos nacionais do evento estão filmes de grife autoral como “A Macabra Biblioteca do Dr. Lucchetti”, de Paulo Biscaia Filho, e “Os Dragões”, de Gustavo Spolidoro. Uma vez mais, quem estrutura essa seleção, em troca com Abbade, é um dos maiores especialistas do terror da América Latina: Carlos Primati. Jornalista, crítico, editor, tradutor, pesquisador de cinema fantástico e uma enciclopédia humana quando o assunto é a representação audiovisual do macabro, Primati conversou com o C7nema sobre o lugar dos fantasmas, dos monstros e dos serial killers na ficção… e na realidade.
Qual é o ethos heroico que pode ser encontrado nas personagens do terror dos anos 2020, seja nas vítimas, seja nas figuras que enfrentam o Além?
Acho que a beleza do horror está em ser sempre muito plural e heterogéneo, com múltiplas possibilidades, mas não é errado dizer que o género, nesta década, tem representado algumas mazelas sociais transmutadas em símbolos terríficos. Isso também não é novidade, mas me parece que a atual onda faz questão de usar este elemento como uma espécie de legitimador do género. Há um certo senso de coletividade, por exemplo, em filmes que lidam com opressão e racismo – mas é importante frisar que o horror é, por definição, um género que narra as histórias pelo ponto de vista dos oprimidos, não dos opressores.
Quando vemos as narrativas de Jordan Peele, entendemos que os pequenos episódios de racismo vividos pelas personagens representam toda uma realidade enfrentada quotidianamente por pessoas negras (ou latinas, ou imigrantes) em cenários de preconceito. Não vejo problema nisso, inclusivamente gosto bastante do Jordan Peele, mas alguns filmes buscam uma espécie de “justiça social” que não somente é incompatível com a realidade que vivemos, como também não é o papel primeiro do horror.
O filme de terror não tem o compromisso de consertar o mundo, mas em espelhar o que ele tem de mais assustador – e eventualmente oferecer soluções fantásticas para esses problemas. Acho preocupante quando se começa a cobrar que uma obra de ficção tenha obrigatoriamente senso social e de justiça. O horror serve para aterrorizar e é muito mais rico quando a reflexão cabe ao espectador. Por outro lado, acho preocupante quando um filme de grande público como “Halloween Kills” defende um discurso problemático – e muito mal resolvido diegeticamente – a favor do linchamento (ou de relativizar a sua prática como um mal necessário para limpar a sociedade). Se ele não se empenhasse tanto em inserir uma longa sequência de linchamento de um inocente, e depois oferecer uma reflexão (bastante contestável) sobre o comportamento daquela turba enfurecida, eu poderia encarar apenas como uma cena infeliz. Mas do jeito que está no filme, parece uma tentativa de se discutir um assunto polémico demais para aquele espaço. Não vi o “Halloween Ends”. Então, não sei como essa questão se resolve – se é que volta a ser abordada. Mas, pessoalmente, prefiro histórias mais intimistas, que retratam horrores mais íntimos, não tanto coletivos ou sociais. O meu filme de horror favorito dos últimos anos é “Saint Maud”, da Rose Glass, sobre o inferno particular da depressão vivido por uma fanática religiosa que se vê no papel de uma espécie de santa salvadora dos pecadores. É um dos filmes mais cruéis, perturbadores e pessimistas que vi em muito tempo. Mas acho simplório dizer que ele critica a religião ou sequer que se preocupa com o fanatismo, e sim que foca na construção de uma personagem complexa e que vivencia sozinha todos os seus horrores existenciais.
A recente série “Dahmer – Monster: The Jeffrey Dahmer Story”, da Netflix, assim como o filme “The Golden Glove” (2019), de Fatih Akin, deram ao audiovisual uma leva de psicopatas que se alinham ao sexo, ao jugo pela atração sexual ligada ao perigo, ao crime. O que essas estéticas revelam sobre a relação entre o medo e o desejo? Que neuroses esses produtos, sobre monstros reais, revelam?
A vida se resume a como nos relacionamos com o sexo e a morte, não? O quanto isso é tabu, é sedutor, é perigoso e misterioso. O desejo de se envolver com algo/alguém que pode lhe proporcionar prazer, mas também pode causar a sua morte, é o que torna o cinema fascinante desde os filmes policiais dos anos quarenta (e em clássicos como “Vertigo”, de Hitchcock). Acho que o caminho para o género do horror se manter sempre pertinente e provocador é não abandonar a sua capacidade de lidar (concomitantemente) com esses dois tópicos que movem o ser humano: sexo e morte. Há algo de sexual na morte, e algo de mortal no sexo, e praticamente todos os grandes realizadores do horror perceberam isso, desde Tourneur, Hitchcock, Terence Fisher, Bava e Mojica, até Tsukamoto, Zulawski, Almodóvar, Clive Barker e Tony Scott. Existe um horror escapista e divertido atualmente (que todos amamos), muito afinado com a estética dos anos oitenta (talvez a década mais conservadora e moralista do século passado), mas o horror como género é mais complexo quando é decadente, perturbador e desesperançoso. Tive um período de ver muitos filmes sobre assassinos em série reais, mas isso acabou me cansando e acho um tanto bobo e imaturo quando pende para uma espécie de culto ao fora-da-lei: às vezes comparo a “admiração” por Dahmer, Ted Bundy e Henry Lee Lucas à reinvenção de cowboys assassinos, como Billy the Kid e os irmãos Jesse e Frank James, como heróis rebeldes em produções cinematográficas de Hollywood. É típico da cultura norte-americana idolatrar bandidos (Michael Myers, Jason Voorhees e Freddy Krueger surgiram nas telas como assassinos temidos, e foi a plateia que os transformou em “heróis”; o mesmo ocorreu na vida real com a idolatria por Charles Manson), e não entendo ainda se o público brasileiro tem uma inclinação para isso ou se apenas vai na onda de tudo que faz sucesso na Netflix. Por outro lado, quero deixar claro que filmes extremos como “Golden Glove” me interessa muito justamente por mostrar o ser humano como o “monstro” mais aterrorizante e cruel – e nada parecido com os carismáticos e espirituosos psicopatas dos slashers. Nesse sentido, “Henry: Portrait of a Serial Killer” (com Michael Rooker) é um brutal contraponto dessa relação do escapismo divertido do slasher e um retrato mais perturbador de um assassino realista.
Cabe espaço para monstros no cinema atual, no pós “The Shape of Water”?
Eu acho bem difícil que isso aconteça de uma maneira que não seja infantilizada e que tente apenas copiar as produções do passado (ou emular os filmes de super-heróis). A maneira péssima com que os estúdios Universal lidaram com o malfadado “Dark Universe” (que parece ter sido cancelado de vez) mostra que falta talento criativo para lançar algo com potencial de gerar uma nova onda de monstros, ainda mais depois do fiasco comercial de “The Wolfman”, com Benicio Del Toro, e “The Mummy”, com Tom Cruise. O horror vive de ciclos que se repetem, então não é impossível que isso aconteça, mas não vejo indícios.
O que o cinema brasileiro tem oferecido de mais genuíno – e de mais… “brasileiro” – ao terror?
Eu vejo a força do cinema fantástico brasileiro na sua pluralidade, muito por conta da dimensão continental do nosso país. A Europa inteira cabe dentro do Brasil, então cada estado brasileiro pode ser comparado a um país diferente, com a sua própria cultura, folclore, tradição e cenário. É inegável que alguns filmes de terror recentes feitos no Brasil chamam a atenção por trazerem questões sociais ao centro da discussão, lidando com preconceito de classe, racismo, fanatismo religioso e intolerância. Mas é um equívoco achar que isso define o terror brasileiro atual. Filmes como “O Cemitério das Almas Perdidas”, “Skull, a Máscara de Anhangá” e “Curupira, o Demônio da Floresta” dialogam muito com o terror comercial e voltam ao entretenimento. Mas o que percebo de mais interessante no horror contemporâneo são as narrativas sobre angústias adolescentes, de falta de perspetiva de futuro e de ameaças de morte precoces, como vemos em “Mate-me por Favor”, “A Noite Amarela”, “Sem Seu Sangue” e “O Porão da Rua do Grito”. Isso pode ser encarado como uma incerteza jovem sobre o futuro do país, mas também como angústias pessoais tipicamente adolescentes inseridas no universo do horror.

Hoje, na Europa, existe uma nova marca de terror que te salte aos olhos?
A Espanha continua a apresentar uma sólida produção de horror, tanto em curtas-metragens quanto em longas, e atribuo isso à política de apoios do país voltado especificamente ao cinema fantástico. Demonstra que os incentivos podem resultar em obras de relevância técnica e cultural. A França me encanta com as realizações, principalmente de cineastas mulheres, e adoro a obra da Julia Ducournau, que é destemida e autoral. A produção independente sempre resiste em qualquer cenário, mas lamento a falta obras mais relevantes em países como a Itália (atualmente muito distante das suas décadas de glória) e a Alemanha. Mas é bom frisar que o italiano Luca Guadagnino, que fez um trabalho digno ao refilmar “Suspiria”, parece estar novamente envolvido com um filme de horror, então o cenário pode melhorar. Conheço pouco do cinema fantástico português, mas me interesso por ele desde que vi a curta-metragem “I’ll See You in My Dreams” (2003). Gosto dos poucos filmes que conheci como curador e júri de festivais, como “O Barão” (2011), “A Floresta das Almas Perdidas” (2017) e “Mutant Blast” (2018).
O regresso de Dario Argento, com “Dark Glasses”, abre alguma nova perspectiva para o giallo ou para o horror autoral da Europa? Qual?
Acho muito difícil, se não impossível, que o giallo volte a ser um género produzido em larga escala como nas décadas de sessenta e setenta. Ele tem servido ultimamente como exercício estético em obras autorais mais “artísticas”, como os filmes da dupla Hélène Cattet e Bruno Forzani. O público que atualmente consome horror não tolera mais narrativas que consideram misóginas e que mostram violência contra a mulher. O giallo expandiu as possibilidades do horror, influenciou o surgimento do slasher, mas a carga brutal de violência sexual desses filmes parece não encontrar respaldo entre as plateias atuais, que paradoxalmente consomem coisas chocantes como a série “Dahmer”, desde que venha com a chancela da Netflix. Argento me parece o último representante italiano a ainda ter disposição para filmar histórias de horror, e acho um privilégio podermos acompanhar isso. Adoraria ver Michele Soavi e Lamberto Bava de volta à produção de horror, mas o cinema italiano parece uma terra arrasada e com poucas perspetivas de renascer com novos realizadores. Mas o horror autoral sempre encontrará espaço, e é por isso que o género persiste como algo vivo e sempre em transformação, e que nunca perderá o seu poder de intrigar e perturbar as pessoas.



