Embora seja adepto do Santos Futebol Clube, equipa de Pelé, João Wainer oferece à chamada Nação Rubro-Negra — designação da massa adepta do Clube de Regatas do Flamengo — um presente em forma de filme: Zico, O Samurai de Quintino. A sua longa-metragem abre caminho para uma série de títulos sobre futebol que se aproximam do circuito nas proximidades do Copa do Mundo FIFA 2026, agendado de 11 de junho a 19 de julho.
Com materiais de arquivo raros e depoimentos de grandes figuras do desporto, Zico, O Samurai de Quintino estreia a 30 de abril com ambição de salas cheias, apelando ao público do Flamengo para encher os multiplexes brasileiros. A narrativa conduz o espectador por um percurso através do acervo pessoal de Arthur Antunes Coimbra, atleta imortalizada sob a alcunha de Galinho e conhecida pelos passes de grande destreza ao serviço do Flamengo. Entre os muitos resgates históricos conduzidos por João Wainer, destaca-se a icónica camisola 10 usada na final da Copa Intercontinental 1981, bem como registos de uma temporada no Japão, onde se tornou peça fundamental no desenvolvimento do futebol local, treinando atletas asiáticos. Um dos propósitos da produção é contornar traços de machismo e dar espaço a vozes femininas, entre as quais a da companheira do jogador, Sandra. Os seus filhos também ganham presença no ecrã.

Desde que chegou aos 70 anos, em 2023, Zico — nome de nascimento Arthur Antunes Coimbra — já foi distinguido com uma estátua, com livros (como O Efeito Zico, de Marcos Eduardo Neves) e até uma banda desenhada (Zico – 50 anos de Futebol, de Flávio Soares e Samuel Bono). Faltava o cinema exaltá-la. João Wainer deu conta dessa lacuna.
As filmagens tiveram início em 2023, ano em que Zico entrou na casa dos setenta, e passaram por locais emblemáticos, como a casa da jogadora no bairro de Quintino, e um set especialmente montado para receber convidados. O projeto percorreu também o Japão, país onde se tornou uma figura central no desenvolvimento do futebol, desde o clube operário Sumitomo Metals até à seleção japonesa.
A trajetória profissional de Wainer é das mais plurais. A realizadora assina a realização da série da Netflix Doleira (2024) e do thriller Bandida (2024), da Paris Filmes. Realizou ainda a ficção A Jaula (2022) e os documentários Larissa: O Outro Lado de Anitta, Pixo (2009) e Junho (2014). Dirigiu também o videoclipe Funk Rave, de Anitta, vencedor do prémio de melhor videoclipe latino nos MTV Video Music Awards 2023, além de trabalhos com artistas como Emicida, MV Bill e Racionais MC’s. Nesta entrevista ao C7nema, disseca as opções narrativas que tomou para abordar a figura de Zico.

Um dos aspetos que mais chamam a atenção no seu filme é a forma como consegues contornar a mitificação de Zico. Ela está presente, é respeitada, mas o filme olha também para o homem — pai, filho, suburbano. Como foi filtrar o mito da figura do herói flamenguista?
João Wainer: Acho que o facto de eu não ser flamenguista ajudou muito. Sou santista, no meio de muita gente da equipa muito apaixonada pelo Clube de Regatas do Flamengo, e essa relação tão visceral às vezes perde algum equilíbrio na forma de contar a história de um jogador como Zico. O adepto do Flamengo é muito apaixonado e, por vezes, não tem o necessário distanciamento. Consegui olhar para a história com mais distância, quase como se fosse “o adulto na sala”, a dizer: “Calma, temos uma história para contar, não é só exaltação.” Retirámos elogios — há muito poucos no filme. Não precisamos de alguém a dizer que Zico é extraordinário — queremos que o documentário conte uma história vivida com ele e que o espectador chegue a essa conclusão por si. Percebemos que o filme não era sobre a carreira desportiva, embora ela esteja lá, mas sim sobre o homem. Quando se entende o ser humano Zico, entende-se o sucesso desportivo nos estádios.
É isso que permite que o filme se torne mais universal?
João Wainer: Exatamente isso. Quando retiramos Zico do lugar de ídolo e o colocamos no lugar de ser humano, o filme ganha outra dimensão. Deixa de ser apenas para adeptos do Flamengo. Passa a ser uma história sobre amor, família, laços, compromisso, respeito e conflitos internos.
Em termos estéticos, o filme articula depoimentos atuais com imagens de arquivo muito marcantes de décadas passadas. Como foi trabalhar essa harmonização visual e lidar com a escassez e o custo elevado de arquivos no Brasil?
João Wainer: Tivemos muita sorte. O Zico guardou imenso material, pois filmava muito a si próprio em Super 8 e entregou-nos uma caixa com dezenas de rolos nunca digitalizados. Tinha também VHS e muitos objetos que ajudaram a construir a narrativa. Usámos esses objetos como “armadilhas” — colocávamo-los no cenário para provocar memórias nas pessoas entrevistadas. Além disso, tivemos acesso ao arquivo da TV Globo e ao Canal 100, que registou a carreira dele com uma qualidade incrível. Priorizámos película sempre que possível. Também tratámos imagens com tecnologia de upscale, transformando material em SD para 4K ou 8K. E trabalhámos muito o som, recriando a ambiência de estádio com gravações em canais separados. Quanto à mistura de formatos, hoje o público já está mais habituado a essa diversidade de texturas.
O filme parece ser mais sobre um país do que sobre um herói. Que Brasil é este do Zico?
João Wainer: Para construir a narrativa, criei uma fantasia: para mim, o Zico é um samurai que morreu no século XVIII e reencarnou no bairro de Quintino, para aprender futebol e levá-lo de volta ao Japão. Pode parecer uma loucura, mas ajudou-me a estruturar o filme. Ele cresceu numa família que o tratou como alguém especial desde cedo. Quando chega ao Japão, já adulto e já consagrado, há uma identificação imediata com valores como disciplina, compromisso e respeito. O Zico é essa mistura entre a criatividade do subúrbio carioca e a disciplina japonesa. O título Samurai de Quintino resume isso.
Essa disciplina já estava nele desde o início?
João Wainer: Sim. O japonês apenas identificou e nomeou isso como “Spirit of Zico”. Mas essa ética estava presente desde o primeiro dia, na forma como foi educado pelo pai e pelos irmãos.
O teu cinema, inclusive na ficção, tende a evitar julgamentos e estereótipos, sobretudo quando aborda territórios como o subúrbio. De onde vem essa abordagem?
João Wainer: Nunca foi meu papel julgar. Se quisesse julgar, teria seguido outra profissão. Estou ali para contar histórias e ouvir. Isso vem muito do fotojornalismo — aprendi a escutar e a respeitar as pessoas como são. Não estamos na pele dos outros para saber o que viveram. Tento abordar tudo sem preconceito, com abertura total. O filme foi-se construindo assim, à medida que íamos conhecendo Zico.
A montagem tem um papel muito forte, sobretudo na forma como recupera a experiência da série Canal 100. Como trabalhaste essa dimensão?
João Wainer: A montagem é a alma do cinema. Montei o filme com André Felipe e pensámos sempre numa experiência cinematográfica. Queríamos que o espectador sentisse o jogo, a bola a rolar, como acontecia no Canal 100. Trabalhámos som e imagem para criar essa imersão. E é interessante ver que até miúdos que nunca viram esse tipo de imagens ficam fascinados. Há uma textura, uma energia ali que hoje já não existe.
Depois deste filme, já tens novos projetos em vista?
João Wainer: Tenho, mas não posso falar ainda. Estou sob contrato neste momento.

