Uma conversa descontraída, onde Banderas recorda o início de carreira com Almodóvar, a cirurgia plástica e a família. ‘A Pele onde eu vivo’ estreou na semana que passou.
Percebeu que neste filme precisava de regressar á suas origens com Almodóvar? De voltar a falar espanhol e no seu país?
Sem dúvida! É como um balão de oxigénio, um copo de água fresca depois de atravessar um deserto.
E por que demorou muito tempo a voltar a colaborar com o Almodóvar?
O génio estava a pensar… (risos) Foi óptimo porque nem estava a pensar fazer o filme. Até que me disse: “Chegou a hora” (risos)
Mas um hiato de 20 anos?…
A razão principal é que eu tive projectos pelo meio e não podia quebrar os contratos. Por outro lado, ele poderia nem ter um projecto para mim. O Pedro é muito preciso. Quando nos liga é para algo muito específico.
Quais as melhores memórias que guarda do trabalhou com o Pedro?
Sabe, essas memorias dos anos 80 estão a voltar com este filme. Uma vez mais, as pessoas ficam espantadas com o que vêem. Não sabem como classificá-lo. No início, isso foi muito gratificante, embora havia quem pensasse que ele era um bluff…
A verdade é que o Pedro é um pouco barroco…
Sim, concordo, veja por exemplo este filme… Ele puxa os limites ao máximo. E ultrapassa-os mesmo. Mas consegue aterrar com os pés no chão. É o que se passava nos anos 80.
Como vê o Pedro agora. Acha que mudou?
Sim, mudou. É mais complexo, mas também mais radical na forma. Eu acho que este filme é mais Almodóvar do que ele próprio.
Sentiu algum problema pela por interpretar uma personagem que até nos faz lembrar o drama vivido pela austríaca Natascha Kampucsch?
Não tive, porque não julgo a moralidade das personagens. É verdade que neste caso pensámos inclusivamente no drama do caso da Natascha Kampusch. Quisemos sentir essa dor.
Concorda que este filme tem a ver com um tipo de beleza fabricada, ou a busca da perfeição, algo comum em Hollywood?
O Pedro até me disse que se o filme não resultasse que eu poderia dedicar-me a fazer próteses mamárias (risos)… Mas a sério, nem acho que a beleza plástica seja exclusiva de Hollywood. Há meninas francesas de 17 anos que colocam implantes. Mas é verdade que existe uma enorme pressão em Hollywood. E acho que vai ficar pior. É uma coisa humana.
Continua a ter uma casa em Málaga?
Sim, claro.
E como divide o tempo entre Málaga e LA?
Mal. E isso é muito duro para a minha família. Tanto em Espanha como em LA. Sobretudo quanto tenho de viajar muito para fazer filmes no estrangeiro. A minha mulher não acha muita piada.
Calculo que seja também duro para os seus filhos…
Sim, mas tive a oportunidade de os levar a uma férias ao México. E foi também uma oportunidade de perceber que nem toda a gente tem as mesmas oportunidades. Quero que tenham essa percepção de que a vida não é um conto de fadas.
E eles já lhe ensinaram alguma coisa?
Sem dúvida. A reciclagem é ditada por eles. E estão sempre a chamar-me a atenção. E se deitar um plástico por engano no recipiente dos orgânicos vai haver gritos… (risos)
O que pensam os seus filhos da animação ‘O Gato das Botas’, o seu próximo filme?
Adoram, claro. E acho que é isso que as pessoas gostam de ver quando vão ao cinema: diversidade. De um lado, ‘A Pele onde eu Vivo’, que coloca muitas questões e do outro ‘O Gato das Botas’, um filme para toda a família. Confesso que me agrada essa diversidade.

