A Dança das Raposas: “A vulnerabilidade levou-me diretamente ao filme” — Valéry Carnoy

Estreia a 14 de maio

Depois da estreia mundial na Quinzena de Cineastas em Cannes, em 2025, onde conquistou o prémio SACD Coup de Cœur e a distinção Europa Cinemas, o realizador belga Valéry Carnoy afirma-se como uma das vozes mais promissoras do velho continente.

Em La Danse des Renards (A Dança das Raposas), que estreia esta semana nas salas de cinema nacionais, o jovem cineasta mergulha no universo do boxe adolescente para explorar a vulnerabilidade masculina, a violência dos grupos e a fragilidade do corpo.

Numa conversa com o C7nema em Paris, no início do ano, Carnoy falou sobre a dimensão autobiográfica do filme, a influência de Takeshi Kitano, o trabalho com jovens não profissionais e os seus próximos projetos, entre eles um filme que vai passar pelo Senegal. 

A Dança das Raposas

Estava na cerimónia de premiação da Quinzena quando o filme ganhou os prémios. Como foi a emoção de ganhar o prémio da SACD e subir ao palco?

Sabes sempre um bocadinho antes que ganhaste, por isso tens tempo para perceber o que vai acontecer. Estava contente, mas não tinha experiência nenhuma nestas coisas. Nunca tinha ido a Cannes, nunca tinha feito uma longa-metragem, por isso não me apercebi do impacto que aquilo ia ter para o filme.

Nunca pus os prémios num pedestal, sobretudo no cinema. Acho complicado comparar filmes entre si. Mas agora percebo melhor como funciona: também serve para dar visibilidade aos filmes, tanto internacionalmente como no próprio país.

E como foi essa experiência de estar em Cannes, na Quinzena?

Foi uma boa experiência. Nunca tinha estado lá e só conhecia aquilo pela imagem que se passa cá para fora. A Quinzena é mais simples: não tens de te vestir de forma super formal, não há aquele lado “fancy”.

No fundo, achei bastante parecido com grandes festivais de curtas-metragens. Não me senti num pedestal, mas também nunca me senti inferior. Tinha a sensação de estar exatamente no sítio certo.

Ganhar um prémio em Cannes trouxe uma nova pressão para a tua carreira?

Sim, mas é precisamente isso que é bom. Tu queres essa pressão porque queres poder voltar a fazer filmes. O objetivo é continuar a contar histórias.

Aliás, comecei logo a escrever outra vez. Em Setembro passado já tinha entregue um novo projeto. Tenho vontade de continuar constantemente.

E depois eu sou muito competitivo por causa do desporto. Sempre vivi bem com pressão e stress. Se essa pressão não existisse, acho que nem conseguia trabalhar.

Como começou a história deste filme? O boxe, a masculinidade, a psicologia das personagens…

Como era um primeiro filme, sabia que tinha de fazer algo compatível com um orçamento belga: não podia contar qualquer história.

Queria trabalhar algo psicológico, porque estudei Psicologia durante cinco anos. Então pensei: sou um jovem realizador, tenho de começar por algo que conheço intimamente. É aí que posso ser mais sincero. 

Lembrei-me de uma sensação muito forte da adolescência: a vulnerabilidade. Aos 15 anos tive um acidente em que quase morri. Estava numa escola de alta competição, perdi imenso sangue e tive uma longa recuperação física.

Durante esse período de fraqueza percebi como funcionam as dinâmicas adolescentes e a violência social dos grupos. Deixei de conseguir ocupar o lugar que tinha antes dentro do grupo. Perdi força, reputação, popularidade.

Essa sensação de fragilidade levou-me diretamente ao filme. Quando estás cansado e fraco, tornas-te muito mais sensível ao mundo e aos outros. Foi daí que nasceu a história do Camille.

A Dança das Raposas

Estamos assim perante um filme autobiográfico…

Sim e não. Não é autobiográfico nos factos, mas é autobiográfico nas sensações.

E as raposas? Porque introduziste esse elemento na história?

Não as vejo como metáfora. Precisava de introduzir um animal para tirar o filme de um realismo puramente social.

Como o filme fala de dor psicológica — uma ferida invisível — eu precisava de trazer carne, sangue, morte, algo físico. A raposa permitia isso.

Além disso, a amizade entre eles não é feita apenas de boxe, mas também dessa busca pela raposa. E ela ajuda a tornar os momentos dramáticos mais intensos. Quando a amizade deles se rompe ou entra em conflito, a violência em torno da raposa acompanha isso.

A raposa transformou uma simples história de amizade em algo mais brutal e mais estranho.

E porque escolheste o boxe? Tinhas algumas referências cinematográficas?

O que gosto no boxe é que a amizade é essencial. É um desporto muito duro, em que passas mais tempo a treinar do que a combater. Precisas de um parceiro que aceite levar murros de ti, tal como tu aceitas levar os dele. Isso cria uma relação muito forte.

Gostava dessa ideia de entrega mútua, porque a amizade também é isso.

A grande referência foi Kids Return, do Kitano. A amizade está no centro do filme, tal como o boxe, e há dois percursos completamente diferentes que acabam por se reencontrar. Foi claramente o principal farol de La Danse des Renards.

E como pensaste a estética do filme?

Queria uma imagem muito bruta. O sangue, os animais, os corpos, tudo isso já dava personalidade ao filme. Não precisava de uma imagem demasiado trabalhada ou estilizada.

Pedi ao diretor de fotografia algo simples, próximo do 16mm, porque queria que os corpos e os rostos parecessem naturais.

Ao longo do filme os adolescentes vão ficando cada vez mais destruídos fisicamente. Isso era deliberado. A estética vem sobretudo daí: das feridas, do sangue, dos hematomas.

E o trabalho com os atores, como foi?

Fizemos cerca de vinte ensaios. Trabalhei com verdadeiros adolescentes e muitos deles eram boxeadores reais. Alguns eram campeões nacionais ou europeus.

A grande vantagem dos atores não profissionais é que percebes imediatamente quando algo não funciona. Se um diálogo soa falso, eles não conseguem fazê-lo viver.

Por isso mudava constantemente diálogos, movimentos e ângulos de câmara. Às vezes parava uma hora para reescrever uma sequência inteira.

Essa procura constante pelo naturalismo acabou por definir a forma do filme.

A Dança das Raposas

Esse estilo vai continuar nos teus próximos filmes?

Não necessariamente. O próximo filme vai tratar pessoas na casa dos trinta e provavelmente vou trabalhar com atores profissionais.

Acho que vou voltar a uma mise-en-scène mais construída, mais baseada em movimentos de câmara e travellings.

Mas para mim o mais importante continua a ser a qualidade dos atores, dos diálogos e da energia das cenas. Muitas vezes isso vem antes da estética.

E o próximo filme? Podes falar dele?

Sim. A história começa em França ou na Bélgica. É sobre um jovem que tenta tornar-se artista, mas trabalha como empregado de mesa e sente-se atrasado em relação aos amigos.

Ele afastou-se da mãe porque ela não compreende essa vontade de viver como artista. Depois descobre que ela sofreu um acidente no Senegal e está em coma ligeiro.

Quando chega lá, percebe que a mãe tem uma vida dupla há dez anos: um amante, uma casa, um restaurante e até um filho adotivo. Isso é um choque enorme para ele. Sente que ela foi procurar outra família sem ele.

Ao mesmo tempo, vai descobrir os conflitos em que ela estava envolvida. Há uma tensão muito forte entre alguns europeus que vivem lá, quase numa lógica neocolonial.

O filme usa o suspense dessa vida dupla para redescobrir a figura da mãe.

Há também algo de pessoal nesse filme?

Completamente. A minha mãe tinha realmente uma vida dupla no Senegal. E havia mesmo conflitos com um tipo meio bandido por causa de terrenos e animais. Não houve um acidente, como no filme, mas a base emocional é verdadeira.

Vais continuar a fazer filmes tão pessoais?

Não. Também estou a escrever um grande filme sobre hooligans belgas dos anos 1990, baseado num livro e em investigação real. Acho que o filme que falei antes será a última história tão pessoal. Depois disso já não tenho mais nada para dizer sobre mim próprio.

Link curto do artigo: https://c7nema.net/ga18