Jane Campion em Locarno: “O Muro de Berlim da dominância de género caiu”

(Fotos: Divulgação)

Numa conversa com alguns jornalistas no Festival de Locarno, onde o C7nema esteve presente, a realizadora neozelandesa Jane Campion admitiu que tem uma relação “muito problemática” com os seus filmes, quando questionada sobre se agiria como Alfonso Cuáron, que dias antes tinha dito no festival que não via os seus filmes em retrospetiva. “O período de tentar levá-los à fruição… é tão intenso (…) Consigo ser bem dura comigo. Sou uma espécie de mãe animal, e fico tipo: ‘Ok, podes voar. Sai! Não me deixes ver novamente. Mas o período em que estou a trabalhar neles para que se tornem a melhor versão de si mesmos é cheio de amor e intensidade. Talvez seja como quando tens um relacionamento intenso com alguém e acaba. Realmente não queres vê-los novamente.”

“The Piano”

Admitindo que tem consciência que o “O Piano” se tornou o filme preferido de muita gente, Campion inicialmente brincou ao dizer que os neozelandeses não lidam bem com os elogios, contando a estranheza quando uma jovem numa loja a reconheceu e elogiou. Porém, ela revelou que apesar da felicidade que o sucesso do filme provocou, ela dissipou-se com eventos pessoais dramáticos, que envolveram a perda de um filho. Ainda assim, ela relembrou que foi a primeira mulher a conquistar a Palma de Ouro, o que provocava um enorme desconforto para o próprio certame. “Foi um choque. Naquele tempo, acho que se não houvessem mulheres a concorrer nem se notava. ‘Ah, as mulheres não fazem filmes!’ Mas o facto de haver só uma [vencedora da Palma] fazia pensar ‘onde estão todas as outras?’ E os homens – os outros realizadores – pareciam embaraçados. Todos nós sentíamos que algo estava errado. Mas tudo isto é sempre sobre poder e dinheiro. Na época, foi difícil. Havia um sentimento de que as mulheres e o que elas estavam interessadas em ver no cinema não era interessante. Mas tudo mudou.

E um exemplo dessa mudança são os recentes triunfos de Julie Ducournau (Titane) e Justine Triet (Anatomy of a Fall) em Cannes, além do triunfo de Audrey Diwan (Happening) em Veneza, Chloe Zhao (Nomadland) nos Óscares e o sucesso estrondoso nas bilheteiras de “Barbie”. As diferenças de género no mundo sentem-se mais em “quem tem o dinheiro”, afirmou, exultando com a faturação de mais de mil milhões de dólares do filme de Greta Gerwig: “Pela primeira vez, temos um filme que não é sobre personagens heróis da Marvel, mas uma espécie de abordagem bem humorada, muito criativa e engraçada da história da Barbie.

The Portrait of a Lady

Questionada se alguns dos seus filmes do passado, como “In the Cut“, “The Portrait of a Lady” e “Holy Smoke“, seriam mais celebrados nos tempos atuais do que na época em que foram lançados, Campion volta a referir que a indústria do cinema era muito dominada por homens, e ainda é, mas que “graças a Deus, o Muro de Berlim da dominância de género caiu“. Especificando o caso de “The Portrait of a Lady”, a cineasta deixa farpas novamente à sociedade, afirmando que fora da Austrália, as pessoas não viam realmente a Nicole Kidman naquela época como atriz, mas como namorada ou esposa de Tom Cruise: “Pensavam que ela não deveria estar a interpretar uma heroína tão clássica, especialmente americana. Mas do meu ponto de vista, ela era brilhante.

E o facto de uma geração nova de mulheres cineastas fruir e ter o reconhecimento que merece, teve peso para Jane Campion embarcar no seu primeiro filme focado numa personagem masculina: “The Power of The Dog”, filme onde “mexeu” com o Western, um género “muito masculino”, ao apresentar um protagonista homossexual. “Houve o ‘Brokeback Mountain antes, mas não quero falar sobre ele“, afirmou.

Falando ainda sobre a construção de histórias e a sua ligação profunda à literatura, Campion encerrou a conversa sugerindo cerca de uma dezena de livros que todos deviam ler.

Recorde-se que Jane Campion está em Locarno para receber um prémio pelo conjunto da sua obra, numa cerimónia hoje à noite, na Piazza Grande, sendo seguida da exibição de dois dos filmes: “An Angel at My Table e “The Piano”.

O Festival de Locarno encerra a 17 de agosto.

Link curto do artigo: https://c7nema.net/gkou

Últimas