Quando Kelly Reichardt criticou Quentin Tarantino pela glorificação da cultura “macho man” que o norte-americano impõe em “Era uma vez…em Hollywood”, na figura da personagem de Brad Pitt (“o homem branco que bate no Bruce Lee, salva a donzela em perigo e incendeia os “hippies horríveis””, nas suas palavras ), criou alguns ódios (mas também amores) no seio da crítica de cinema e na própria arte em si. Como criticar alguém que não só apresenta um corpus de trabalho que se tornou decisivo a partir dos anos 1990 e inspirou tantos nos seus festins de expressão de cinéfila? A verdade é que olhando para o conjunto da obra de Kelly, os seus protagonistas estão nos antípodas dos de Tarantino, e onde tudo é explosão no realizador de “Pulp Fiction”, tudo é contenção em Reichardt.
Nos dois sobrevive uma coisa: uma nostalgia pelos anos 1970, tão explícita no vitaminado “Era uma Vez…em Hollywood”, ora no controlado “The Mastermind”, que concorreu à Palma de Ouro do Festival de Cannes. Porém, onde Tarantino abocanha a ousadia da Nova Hollywood, do Giallo e do Poliziesco, apanhando pelo caminho influências anteriores no mundo dos Westerns, para partir para uma forma muito arrojada, violenta e espetacularmente frenética de fazer cinema, Kelly Reichardt encontra espaço para desconstruir os clichês regrados de géneros aparentemente estabelecidos. Já o tinha feito no Western, em filmes como “Meek’s Cutoff” ou “First Cow”, e fá-lo agora na sua revisão da tradição americana dos Heist Movies com “The Mastermind”, onde, mais uma vez, apresenta um olhar particular como uma suave resistência a uma visão padronizada da sociedade, do cinema e dos seus códigos, como semiótica e mitologia.
Recorrendo a um ator que ainda recentemente ajudava no assalto a tumbas em “A Quimera” de Alice Rohrwacher, Josh O’ Connor, Reichardt dá-lhe agora uma missão que também envolve golpes: o de liderar um assalto a um pequeno museu e de lá extrair alguns quadros. Mas este não é um “O Caso Thomas Crown”, “Italian Job” ou qualquer filme da franquia “Oceans”, ainda que o início do filme, de forma semiótica, sejamos transportados a isso. O mentor deste assalto é o filho de um juiz, o carpinteiro desempregado JB, que mora com a esposa, Terri (Alana Haim), e dois filhos pequenos em Massachusetts. A ação desenrola-se em 1970 e o filme surge perante nós, esteticamente e espiritualmente, como um objeto dessa época, não fosse JB um daqueles anti-heróis que povoaram o cinema da Nova Hollywood, ainda que agora tenha uma lavagem Reichardtiana, que é o mesmo que dizer que a ação e o drama surgem de forma controlada e com pouco ou nenhum espaço para o glorificar.
Dando nas entrelinhas do pano de fundo o espírito combativo da época, nomeadamente no que concerne a uma América em batalha no Vietname, e em todos os protestos locais perante essa guerra, Reichardt cavalga novamente por entre o inusitado num cinema que trafega pela suavidade e refreia o frenético. Por isso mesmo, o espectador vai assistindo – com toda a tranquilidade do mundo – ao desenrolar da história de um homem e do seu declínio perante o crime, à medida que o cerco policial e o familiar se impõe.
Espetacular, no sentido de produção de espetáculo, é um adjetivo que poucas vezes podemos usar no cinema de Reichardt, mesmo que “Night Moves” pareça tentado a isso. É na sua calma e aproximação existencialista à personagem de Connor, ao invés da produção de um espetáculo de suspense inserido nos códigos dos heist movies, que “The Mastermind” mostra o seu valor. Um valor que prima na diferença perante os lugares comuns que formatamos como exigência para este género de filmes. Não há absolutamente nada de fascinante na personagem de JB e Reichardt desglamouriza o que grande parte do cinema coloca nos pícaros da frieza cerebral e coolness. E nesse ato, ela mais uma vez acrescenta o seu input ao estabelecido nas convenções da cinefilia.

















