Responsável por uma abordagem inusitada para as narrativas policiais, próxima da estética dos reality shows, em “End of Watch” (“Fim de Turno”, 2012) e “Sabotagem” (2014), David Ayer fez-se autor, na dinâmica dos filmes de ação, ultrapassando os limites morais do bom-rapaz, enquanto aposta numa exposição gráfica da violência numa fronteira ténue entre o cinema B e o léxico bem comportado de Hollywood. A sua entrada no universo das BDs com “Suicide Squad”, em 2016, gerou dos blockbusters mais polémicos dos últimos anos pela maneira debochada do seu olhar para o vigilantismo mascarado. A versão levada às sala não era o seu “cut” final, o que o levou a uma campanha nas redes sociais a pedir o director’s cut. Enquanto não alcança o seu objetivo, ele avança pelo tabuleiro pop numa aposta num terreno radical dentro das práticas de representação da violência no audiovisual: o gore.
“The Beekeeper – O Protector” – que marca o regresso aos cinemas após um hiato iniciado em 2020, no lançamento de “The Tax Collector” – é um thriller que beira o pornográfico na sua relação com a brutalidade. Superexpõe sangue e tripas sem travões, oferecendo ao género no qual se instala uma prática visceral de discutir um tabu sociológico: a justiça com as próprias mãos.

Em quesitos plásticos, o realizador constrói o seu espetáculo mais potente, sob a luz dionisíaca da fotografia de Gabriel Beristain (de “Black Widow”), acelerando a temperatura e pressão com a montagem de Geoffrey O’Brien. Na maneira de enquadrar, Beristain valoriza as situações mais grotescas que Ayer encontra para conversar com a cartilha do gore, usando um jarro de vidro de mel como arma e mostrando dedos decepados. Na dramaturgia, o guião de Kurt Wimmer finta a lógica, sem dar qualquer valor à verossimilhança, fazendo do protagonista, o Apicultor, confiado a Jason Statham, um samurai à altura dos anti-heróis de Toshiro Mifune (1920-1997).
A retidão do Apicultor aproveita o máximo do carisma de Statham, revelado por Guy Ritchie em “Lock, Stock and Two Smoking Barrels” e transformado em estrela na franquia “The Transporter” (“Correio de Risco” em Portugal; “Carga Explosiva”, no Brasil), de 2002 a 2008. Mas, para além da persona do ator, existe no filme – apesar de toda a controvérsia que gera – um componente de coragem que desafia a moral da correção política dos tempos atuais. É um espetáculo tecnicamente grandioso – a sua engenharia de som é exuberante! – capaz de resgatar a dinâmica do Exército de um Homem Só da década de 1980, sem neuroses.
Os seus minutos iniciais são aterrorizantes, ao retratar maneiras de expropriar bens alheios num lance digital. No enredo, uma administradora de um fundo (Phylicia Rashad) é roubada através de um golpe de uma organização que assalta contas bancárias de pessoas já idosas ao hackear os sistemas informáticos. Mas, para o infortúnio desse bando remotamente liderado por um ricalhaço problemático, Derek Danforth (Josh Hutcherson), a personagem de Phylicia tem como melhor amigo um Apicultor. O título usado pela figura virtuosa vivida por Statham refere-se a um ramo secreto de um Serviço de Inteligência dos EUA que nem a CIA pode aceder.
Os Apicultores são treinados para matar das maneiras mais inusitadas – e cruéis. Enfrentam os seus algozes de mãos nuas, a extrair soluções bélicas no ato da luta. Carregam em si um lema: “Queres seguir a Lei ou queres a Justiça?”.
Na luta para vingar a amiga e deter a organização de hackers, o Apicultor encara figuras dignas de uma banda desenhada, como um executivo snobe vivido por Jeremy Irons (o alívio cómico) e um vilão de pernas metálicas (Taylor James). Para além deles, numa narrativa avessa a subtilezas, o público verá um estudo sobre a fronteira perigosa entre a inadimplência do Estado e a barbárie do indivíduo.




















