Berlinale Shorts 2021 – Pílulas de invenção

(Fotos: Divulgação)

Canteiro de formação de alguns dos maiores cineastas em atividade no cinema atual, como Cristi Puiu, Leonor Teles, Jorge Furtado e Park Chan-wook, a Berlinale Shorts oferece sempre uma miscelânea de sabores que nem sempre agradam as pupilas gustativas da cinefilia de igual medida, derrapando por vezes num excesso na direção de arte (como se vê no filme mexicano “Al motociclista no le cabe la felicidad en el traje”) que embarca reflexões sociais. O que era para ser um filme sobre um motard, descamba para a metáfora dos traumas coloniais nas Américas,e acaba afundando-se em excessos cenográficos.

Mas no cardápio de 20 iguarias de diferentes países, há pratos de temperos universais, como “Si t’as un coeur”, de Emilie Vandenameele, que evoca o Eric Rohmer mais doce, o de “O Raio Verde” (Leão de Ouro de 1986), ao fazer uma crónica sobre a puberdade. Igualmente universal e poderoso é “Easter Eggs”, de Nicolas Keppens, uma produção belga nomeada pelo júri da sua categoria a concorrer ao European Awards.

É um trabalho de argumento primoroso, comprovando a força da animação do Velho Mundo na sua dramaturgia. Na sua trama de componentes existenciais, Jason sonha em ter a sua própria bicicleta. Se ele conseguisse encontrar os esplêndidos papagaios que recentemente escaparam da sua gaiola no restaurante chinês, poderia vendê-los por muito dinheiro e realizar o seu sonho. O seu amigo Kevin certamente o ajudará nessa empreitada. Mas Kevin está demasiado zangado. Essa zanga compõe o retrato melancólico de uma amizade tóxica.

Encantado por um outro concorrente da Bélgica, “My Uncle Tudor”, de Olga Lucovnicova, que tem produção portuguesa, e acabou por receber o Urso de Ouro de curtas, nesta quinta-feira. O corpo de jurados da Berlinale ignorou a maior jóia de seu certame, em 2021: o nigeriano “Rehearsal”, de Michael Omonua.

De todos os filmes em concurso nas Shorts, o emissário de África é quem mais e melhor sabe brincar com as ferramentas da montagem e com conceitos filosóficos estéticos de representação ao discutir a encenação de um ritual de cura. Mesmo sem láureas, a energia que Omonua arranca de cada quadro coneta-se com aquilo que este 71º Festival de Berlim tem mostrado de melhor: histórias de abrasivo desafio à moral vigente.

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