Palma para o Egito: Cannes termina entre o luto e a perplexidade com o estado das coisas

(Fotos: Divulgação)

Venceram a dor, o luto e… o amor, à moda egípcia, mas de universalidade inegável, na entrega da Palma de Ouro de 2020, restrita às curtas-metragens: “I Am Afraid to Forget Your Face”, de Sameh Alaa, foi o título laureado no encerramento da versão pocket de Cannes.

Foi a última das onze curtas projetadas ao júri – as realizadoras Claire Burger e Dea Kulumbegashvili, a atriz Céline Sallette, o realizador Rachid Bouchareb, o ator Damien Bonnard e o produtor Charles Gillibert – e era um dos mais protocolares concorrentes no quesito dramaturgia. A fotografia é de um esmero intocável ao esculpir a luz e lambuzar-se na geleia do chiaroscuro, mas o seu roteiro segue a bússola do óbvio, embora não perca relevância com isso, ao explorar a cultura do silêncio, da burca e do sexismo ao mesmo tempo que tateia a perseverança de um povo contra a intolerância.

Curioso (e doloroso) foi essa vitória vir no dia de um atentado terrorista em Nice, que só amplia a (imperdoável) tendência à islamofobia na Europa. Antes da entrega do troféu – o mais prestigiado da indústria cinematográfica, em paralelo ao Oscar – o delegado geral da curadoria, Thierry Frémaux, fez uma (comovente) chamada de reverência aos mortos da Côte d’Azur e chamou a atenção para o novo confinamento no seu país, a começar no fim de semana e a durar um mês. A Covid-19 por lá só faz crescer e faz vítimas, mais do que na primeira onda, de março a julho, justamente o período em que Cannes esperava fazer a sua 73ª edição, em maio, com Spike Lee no comando dos jurados das longas-metragens. Frémaux fez o que estava ao seu alcance para exibir filmes na Croisette este ano, incluindo o drama de Sameh Alaa, que acompanha os esforços de um jovem, Adam, para se despedir de um amor passando por cima das convenções religiosas do seu credo e mesmo as tradições de vestuário em relação aos sexos.

Tivemos, de terça para cá, 50% de nossa capacidade, no Palais, mas com cem por cento de aprovação do público”, disse Frémaux, que mostrou inteligência curatorial ao dar um fecho dos trabalhos deste outubro pandémico com uma comédia sintonizada com a falta de perspectivas afetivas de um mundo atolado na tecnologia.

Essa bela escolha se chama “Les 2 Alfred”, que se impõe pelas piadas hilariantes acerca da nossa dependência da tecnologia e pelo carisma da atriz Sandrine Kiberlain. Bruno Podalydès é quem assina a realização e dá um banho de atuação no trabalho mais maduro da sua trajetória, cujo ponto alto foi visto na competição de Locarno: “Dieu seul me voit” (1998). Neste trabalho, candidato a transformar-se em sucesso de público quando o circuito francês puder reabrir as portas, Bruno divide o ecrã com o irmão, o comediante Denis Podalydès, numa reflexão sobre o reposicionamento profissional de quem já está na faixa dos 50 anos. Denis vive Alexandre, um desempregado, pai de família, que toma conta dos filhos dos filhos – durante os dois meses em que a sua mulher, vivida por Vanessa Paradis, está embarcada num submarino – dependendo da bondade de amigos e colegas. Arcimboldo (figura imponentemente vivida por Bruno) é um pai já em alforria, pois o seu filho adolescente saiu de casa. É ele quem vai ajudar Alexandre a cuidar dos dois rebentos – uma bebê e um filho de 4 ou 5 anos – quando este consegue trabalho numa start up implacável com os horários dos seus funcionários. Entre elas está a impaciente e competitiva Severine, personagem de coração gélido que Sandrine constrói fugindo das óbvias caricaturas.

É pena que o guião demore a engrenar sobretudo nas pistas de corrida da gargalhada. Existe empatia por Alexandre de cara; existe carinho por Arcimboldo graças ao talento de Bruno; e há uma banda sonora de embevecer os tímpanos. Mas a montagem, no terço inicial, oscila demasiado entre o incómodo em relação ao controle que a técnica digital exerce sobre o quotidiano e a crítica de costumes, empacando um pouco a fruição. Passados 25 minutos insossos, tudo vai numa crescente, culminando com uma hilária guerra de drones, que Cannes aplaudiu firmemente, com o desejo de que, em breve, aquele espetáculo possa ser visto nas salas de exibição.

Últimas