Ficou a cargo do cinema português, numa história sobre imolações e fins de infância, acossada pelo extraordinário, abrir uma das mais vigorosas seleções de curtas-metragens que a Cannes Shorts já viu: “O Cordeiro de Deus”, de David Pinheiro Vicente, que já tinha sido exibido no IndieLisboa, inaugurou a mostra de 11 produções concorrentes à Palma de Ouro de 2020 amparado na apolínea fotografia de Joana Silva Fernandes, uma das mais refinadas de todo o certame.

E foi um certame dos bons, pautado no multiculturalismo e numa urgente perceção dos desamparos de cada dia. Nada mais foi mais poderoso, nesse cardápio de iguarias, apresentado na versão especial do festival cannoise, nesta quinta-feira, 29 de outubro, do que o vigoroso thriller grego conduzido pela realizadora Evi Kalogiropoulou: “Motorway65”. Na trama, dois gémeos ligados à classe operária de uma cidade do interior da Grécia especulam as formas de acabar com as pontes – as imaginadas pelas intolerância e uma plataforma de aço – que separam as comunidades de imigrantes ali residentes. Nesse contexto, uma jovem namorisca com o amor por uma estrangeira e o seu irmão anseia por vencer como kickboxer.
Ódios, armas e repulsas assinaladas a sangue também demarcam com um selo de excelência o único documentário em concurso nessa salada de sabores de travo acentuado: “Son of Sodom”, produção da Colômbia centrada na homofobia, ao explorar os bastidores da morte de um homossexual de 21 anos. Fora o seu teor de denúncia precioso, a curta de Theo Montoya cresce como um espetáculo visual na sua montagem exasperante.

A França frustrou as expectativas da ala fã de animação com um desenho que tropeça no seu excesso de bandeiras políticas, esvaziando-se na forma e no debates que almeja abrir: o frágil “Filles Bleues, Peru Blanche”. Mas o país anfitrião da festa da curta-metragem mundial não se deixou vencer na categoria da comédia romântica, trazendo ecos de Éric Rohmer e Truffaut no doce “Camilles Sans Contact”, de Paul Nouhet, que em Portugal estreou na competição do Curtas Vila do Conde. É a história de um adolescente que luta para se declarar à sua musa, uma jovem saltitante, sendo ajudado por um amigo nessa peleja amorosa. A música de Anne Sylvestre dá um tempero de lirismo a esta love story pueril.
Mas de tudo o que se viu, a maior catarse veio dos Estados Unidos, graças à inusitada presença de Will Ferrell em “David”, um filme-piada de Zachary Woods, cujo guião jamais larga o trilho da precisão. Ferrell é um analista que tem uma sessão de terapia interrompida pelo filho, um ás da luta livre. O analisado, o David do título, vivido pelo ótimo William Jackson Harper, faz o que pode para driblar o inconveniente, mas o absurdo vai se exponenciando narrativa afora.
Aqui fica a lista de cineastas em concurso pela Palma de 2020:
Sameh ALAA realiza “I AM AFRAID TO FORGET YOUR FACE” – 15’ – Egito
Marie JACOTEY & Lola HALIFA-LEGRAND realizam “FILLES BLEUES, PEUR BLANCHE (BLUE FEAR)” – Animação – 10’ – França
Evi KALOGIROPOULOU realiza “MOTORWAY65” – 14’ – Grécia
Sophie LITTMAN realiza “SUDDEN LIGHT” – 14’ – Reino Unido
Theo MONTOYA realiza “SON OF SODOM” – Documentário- 15’ – Colômbia
Paul NOUHET realiza “CAMILLE SANS CONTACT” (CAMILLE, CONTACTLESS) – 15’ – França
David PINHEIRO VICENTE realiza “O CORDEIRO DE DEUS” (THE LAMB OF GOD) – 15’ – Portugal
Lkhagvadulam PUREV-OCHIR realiza “SHILUUS” (MOUNTAIN CAT) – 13’ – Mongólia
Paul SHKORDOFF realiza “BENJAMIN, BENNY, BEN” – 7’ – Canadá
Leonardo VAN DIJL realiza “STEPHANIE” – 15’ – Bélgica
Zachary WOODS realiza “DAVID” – 11’ – EUA
Quem vai encerrar esta versão pocket de Cannes é o comediante Bruno Podalydès, numa missão atrás e à frente das câmaras no comando de “Les Deux Alfred”, trama sintonizada com a onda de desemprego na Europa.

