“Nekromantik”, a sessão maldita do Fantas09

(Fotos: Divulgação)

Foi uma sessão maldita, a da uma da manhã no Pequeno Auditório, na noite de Sábado para Domingo do primeiro fim-de-semana do Fantas. Mais não seria esperar, faziam 20 anos desde a estreia do sinistro ‘Nekromantik’ no festival, o apelidado “filme erótico para necrófilos”. Mas desta vez, o terror não ficou só no ecrã.

O herói trágico deste ‘cult movie’ é Rob Schmadtke, funcionário encarregue de remover cadáveres da via pública. Este emprego permite-lhe ocupar os tempos livres com o seu passatempo predilecto: a necrofilia, fantasia que divide com a namorada em bizarras situações de triângulos amorosos.

‘Nekromantik’ foi realizado em 1987 por Jorg Buttegereit e na altura chocou a Alemanha e pôs em alerta vermelho os sistemas de censura do mundo inteiro. Este filme de série Z é tecnicamente terrível: tem falhas de som que obrigam ao recurso de legendas, uma banda sonora inacreditavelmente desadequada e é pior fotografado que muitos filmes que presenteavam o programa Sic Curtas há uns anos atrás.

A realidade é que para criar um espectáculo de atrocidades e perversão não é necessário um grande orçamento. Em ‘Nekro’ podemos ver um “threesome” entre um homem, uma mulher e um cadáver decomposto. Sexo em cima de campas. E uma aberrante masturbação/mutilação/suicídio final que irá deixar estupefacto todo o fãs do ‘gore’ e do cinema mais marginal.

Pena é uma pequena parte “snuff” do filme, onde temos a morte “real” de um animal. Para mim, imagens destas no cinema são erradas e anti-artísticas, são um “corte” absoluto. Mas tudo pode ser perdoado a um filme tão peregrino e tão marginal, a um filme de culto feito nos anos 80 por verdadeiros amadores, mas com uma índole tão perversa que será, certamente, homenageado para a posteridade.

Mas afinal de onde vem a conversa da “sessão maldita”? Muito bem, agora vamos contextualizar a sessão. O realizador Jorg Buttegereit está esta semana no Fantasporto para apresentar todos os seus filmes em retrospectiva e também o seu novíssimo filme, ‘Monsterland’.

Na tenda Cidade do Cinema (localizada na praça em frente ao Rivoli, com entrada livre para ver curtas e beber um copo), um Buttegereit bem acessível e algo tímido conviveu com alguns fãs e também com alguns jornalistas estrangeiros que queriam saber mais da sua obra. Buttegereit apresentou a sessão da uma da manhã no pequeno auditório, deixando a sala para o público apreciar o seu filme. Os tais jornalistas estrangeiros ficaram para ver, afinal, “quem” era Buttegereit.

Tive a “sorte” de me sentar na segunda fila, atrás de três jornalistas que estavam visivelmente embriagados. Volvidos uns dez minutos, dois deles começaram aos beijos, com um ímpeto adolescente apenas justificado pela bebida. Como estavam na primeira fila, obviamente toda a sala reagiu e “apreciou” o espectáculo adicional, que continuou, durante a primeira cena de sexo com um cadáver.

Tudo isto foi interrompido quando ela parou os beijos e vomitou no chão do auditório. Quando se levantou, já acompanhada pelos funcionários do Rivoli, caiu estatelada no chão mais o seu colega, desmaiada.

O resto do filme foi visto numa sala histérica (como é típico num filme gore do Fantas), com cheiro a vómito e a vinho seco, e onde ainda existiram mais alguns desacatos entre espectadores.

Confesso que, depois de aplaudir de pé com uma multidão ‘O Ataque dos Tomates Assassinos’ no Sá da Bandeira no ano passado, pensei não voltar ter uma sessão tão emocionante. Mas ontem (sábado), enquanto vi uma mulher a ser possuída por um pénis falso enterrado num cadáver (e com preservativo posto!), ao mesmo tempo que outra vomitava vinho mesmo à minha frente, com um público a rir a dobrar, em histeria absoluta, foi aí que percebi: em todos os Fantas, haverá uma “sessão do lobo”. Tenham cuidado! Tenham muito cuidado!

7/10

José Pedro Lopes

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