Reinvenções da poética audiovisual alimentam os oito filmes que integram a mostra de Wong Kar Wai na FILMIN, sendo que a maioria deles vai entrar, gradativamente, em exibição na MUBI também. E os melhores filmes que integram esse pacote foram fotografados pelo olhar crítico do australiano Christopher Doyle.
Dedicado a fotografar curtas e longas-metragens desde “That Day, on the Beach” (Aquele Dia na Praia, 1983), quando iluminou as boas ideias de Edward Yang (1947-2007), transformando-as em planos tocantes, ele foi o mais potente parceiro de Kar Wai entre os anos 1990 e 2000, tendo criado “In The Mood For Love – Disponível Para Amar” (2000) com ele. Foi esse o título que inaugurou na MUBI uma retrospetiva de filmes que redefiniram a cartilha do melodrama, misturando mambo, Nat King Cole, The Mamas and The Papas, tons de vermelho e espelhos. Tudo isso numa cartografia da Hong Kong dos anos 1960, 1990 e até de 2040, que a FILMIN explora por inteiro.
Na conversa a seguir, Doyle revê os bastidores das suas trocas com o aclamado realizador, que hoje debruça-se sobre uma série, “Blossoms”, há tempos anunciada.

De que maneira você e Wong Kar Wai retrabalharam, na imagem, o conceito de melodrama?
Quando tinha uns 12 anos, ainda na Austrália, vi uma menina da minha idade passeando na praia e lembro-me de ter ficado encantado com aquela imagem, como se fosse o despertar do desejo. Estudando a pintura de Jean Renoir, lembro-me de ele dizer que não teria sido pintor se não fosse a beleza dos corpos. Quando pensamos em melodrama, há uma instantânea referência ao desejo e ao corpo, pois esse é o género que, a partir do drama, dedicou-se a entender o que os corpos simbolizam. Nos filmes com Wong Kar Wai, nós sempre pensamos aquelas narrativas como rascunhos de algo que procuramos descobrir, nunca como respostas ou presunções. Estávamos sempre atentos ao ritmo, porque o drama pede uma melodia. Melodrama é drama + melodia. Mas estávamos atentos também a questões que passam pelos afetos, pelo querer, pelo entendimento daquilo que nos leva a gostar de alguém. O cinema que inspira-me é o cinema do inesperado. É o cinema do encontro que travamos nos sets.
Como é a noção de liberdade no processo de trabalho com Wong Kar Wai?
Era pautado pela certeza de que poderíamos abortar o que estava escrito no roteiro quando quiséssemos, desde que fosse melhor para fazer a trama andar. Filmando, vês que algumas passagens que estão escritas podem cair ou serem modificadas a partir do momento em que os atores, numa liberdade criativa, encontram aquilo que as personagens sentem e precisam expressar. Sempre trabalho de forma a que posso falar “Isto está uma porcaria”, sem um medo hierárquico. Pois é assim que se cria.
Qual é a dimensão estética do espaço na construção de uma dramaturgia?
Um filme faz-se no lugar onde ele será rodado, a partir da luz natural que esse local oferece. Cada vez que filmo, preciso ir aos locais, conhece-los, respeitar a sua paisagem, a sua arquitetura. É do espaço que brota a luz. E é a partir dela que ressalto o que os corpos das personagens querem dizer. O que a luz faz é ressaltar as vivências.
O que significa ver filmes como os que construiu com Kar Wai num ambiente de streaming, como na MUBI e FILMIN?
O cinema não matou a literatura. A TV não matou o cinema. A pintura de Pollock não matou a pintura figurativa. E a internet hoje oferece-nos veios de expressão muito potentes. Só precisamos estar abertos às explosões de criatividade.





