Realizador de Azougue Nazaré (vencedor do prémio Bright Future em 2018) e produtor de filmes distópicos recentes como Bacurau e Carro-Rei, Tiago Melo regressa ao Festival de Roterdão com Yellow Cake, um filme onde, sob um retrato profundamente enraizado no território onde se desenrola, Picuí, no Nordeste brasileiro, cria uma ficção científica dominada por códigos pulp.
Integrado na competição ao Tigre de Roterdão, Yellow Cake conduz-nos a um projeto científico extremo que ambiciona erradicar o mosquito responsável pela dengue através da sua esterilização com urânio extraído localmente. Para esse fim, um grupo de cientistas instala-se numa cidade marcada pela mineração rudimentar e pela radioatividade invisível, gerando múltiplas consequências em que ciência, mito, capital global e sobrevivência quotidiana colidem e expõe tensões profundas.
Por ocasião da estreia mundial do filme nos Países Baixos, estivemos à conversa com Tiago Melo, que nos explicou um pouco mais desta produção que demorou uma década a ganhar vida.

Olhando para o seu percurso no cinema, quem é o Tiago Melo dentro do cinema que faz e produz? Que dimensões pessoais atravessam esse trabalho e que questões sente como urgentes de colocar hoje no campo cinematográfico?
Bom, eu acho que, primeiro, gosto que os meus filmes sejam também um reflexo do mundo em que vivo. De certa forma, os filmes são um pedaço de mim. O Azougue Nazaré vem da cidade da minha mãe e o Yellow Cake vem da cidade do meu pai. São dois universos que estão no meu sangue. E acho que as pessoas que estão no ecrã acabam por ser também pessoas com quem vamos criando relações.
Aqui a importância de Picuí é central, porque é uma verdadeira personagem. Não só pela dimensão geográfica e pela paisagem, mas também pelas próprias pessoas. Como é que foi trabalhada essa dimensão para dar aquela força que a cidade tem no filme?
O filme surge, primeiro, com a ideia de ter a cidade como protagonista. O primeiro protagonista do filme é Picuí. Eu ainda não sabia que filme seria, mas sabia que queria fazer um filme em Picuí.
Hoje, ao ver o filme pronto, fico muito feliz por sentir que conseguimos isso, e pela força que a cidade tem no filme. É muito gratificante.
É uma parte do Brasil pouco mostrada, pouco vista, e acho que conseguimos mostrar de forma autêntica, realista e respeitosa, sem estereótipos, com um olhar de dentro, não exótico.
Essa preocupação em evitar um olhar exótico esteve sempre presente?
Sim. Acho que isso vem do facto de eu ser de lá. Existe o desejo de conseguir uma visão interna.

A escolha de cruzar ficção científica com elementos de folclore para falar de problemas sociais levanta outra questão: o que é radioativo hoje naquele território? A ciência, o capital global, as relações de poder? Como é que tudo isso foi trabalhado?
Boa pergunta. A ficção científica surge muito das histórias da cidade. Eu até costumo dizer que não sou um grande fã do género, porque é um género com uma legião de fãs muito específicos.
Mas a quantidade de histórias em Picuí envolvendo estrangeiros, mineração, extraterrestres, forças sobrenaturais, é tão grande que se tornou impossível não fazer um filme de ficção científica. O género nasce da oralidade da própria cidade.
Isso é muito genuíno. Hoje fico muito feliz por termos conseguido fazer um filme de género mesmo, não apenas um que flerte com isso. Um filme de ficção científica nordestino, brasileiro, que fala diretamente de problemas sociais.
E esses problemas passam também pelo convívio histórico com minerais radioactivos e por uma questão de saúde pública como o mosquito Aedes aegypti.
Exatamente. Há pessoas que convivem com minerais radioativos há centenas de anos, de pais para filhos. E há um problema de saúde pública no Brasil há décadas, que é o mosquito Aedes aegypti, uma verdadeira bomba biológica negligenciada durante anos.
É simbólico terminar o filme num momento em que o Instituto Butantan anuncia a primeira vacina contra a dengue totalmente produzida no Brasil. Tivemos um apoio muito forte da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz ), uma instituição pública fundamental. O filme critica justamente isso: enquanto se fala em matar mosquitos com radiação, poderia investir-se em vacinas, saneamento básico, educação.
Existe também um cuidado muito claro na forma como mostra a classe trabalhadora, os garimpeiros, os corpos marcados, mas também os boatos e as narrativas transmitidas entre gerações. Como foi esse trabalho entre os factos e a especulação?
É importante perceber que o garimpo em Picuí é rudimentar, de subsistência. Não é de exploração por grandes empresas. Muitos dos minérios são estratégicos e proibidos de explorar.
Picuí é uma região seca, com poucos recursos. O minério salvou muita gente da fome. Há uma diferença clara entre a mineração industrial destrutiva e estes garimpeiros que subsistem.
Existe também uma dimensão espiritual: o minério é da terra, é de Deus. As pedras também são divinas. É importante mostrar todas essas camadas e não demonizar tudo de forma simplista.
O filme levanta uma questão constante: a relação entre ciência, capitalismo e poder político.
Sim. O filme apresenta um Brasil distópico, sob comando militar. Há uma frase muito clara: “o tempo da ciência é diferente do tempo da política”. Quando a política tenta falar mais alto do que a ciência, por interesses, tudo desanda.
Esse conflito entre ciência e poder sempre existiu e quis trazê-lo para o filme, mostrando como uma decisão errada pode afetar um ecossistema inteiro.
Do ponto de vista estético, especialmente na montagem, há momentos de sonho, pesadelo, sensação. Como foi esse trabalho?
O montador é um grande parceiro meu, André Sampaio, que montou todos os meus filmes. Ele é filho de Severino Dadá, que interpreta o Seu Nozinho no filme e que é um dinossauro do cinema brasileiro, montador de clássicos de Nelson Pereira dos Santos e Rogério Sganzerla.
A montagem foi construída junto com o filme, até ao último momento, e dá muita da poesia ao filme. O roteiro foi escrito dentro da timeline. Filmámos uma parte em 2022 e terminámos o filme em 2025. Houve muitas versões, muitas reconstruções. A dimensão sensorial, de imagens de sonhos, do subconsciente, etc, vem muito da montagem, do som e, claro, que também da fotografia.
Falando de cinema brasileiro contemporâneo, sente – como o Davi Pretto, por exemplo – que ainda há poucos filmes distópicos para dar conta da realidade do país?
Sinto isso. Acho que ainda contamos poucas histórias. Yellow Cake é um filme autoral, que o mercado talvez não quisesse, mas que precisava ser feito.
Esse tipo de cinema só é possível com financiamento público, com liberdade para não obedecer a padrões de mercado. A distopia surge dessa liberdade.
Yellow Cake esteve em desenvolvimento durante muitos anos. Já tem novos projetos?
Sim. Yellow Cake completa dez anos desde o primeiro edital. Foi um processo longo, agravado pelos anos difíceis no Brasil. Tenho novos projetos: um documentário – Expedição Txai – que já filmei e vou entrar em montagem em breve, e duas longas de ficção, São Irineu e Ararum. Espero que não demorem tanto.
Em algum deles, vai continuar na ficção científica?
Não. Nenhum deles é de ficção científica, mas o sobrenatural vai continuar presente. Faz parte da nossa espiritualidade, da nossa cultura, das nossas histórias e lendas. Gosto muito desse imaginário popular.

