“Fiz este filme para encontrar paz e verdade” — Alba Zari fala de “White Lies”

(Fotos: Divulgação)

Fotógrafa, documentarista e artista visual marcada pelas consequências do culto Children of God — um movimento religioso internacional fundado nos anos 1960 e mais tarde exposto por práticas sistemáticas de abuso psicológico, controlo coercivo e violência sexual — a ítalo-tailandesa Alba Zari desenvolveu, ao longo de oito anos, White Lies, um objeto cinematográfico que mergulha na sua história familiar, procura verdades omitidas e constrói (ao seu jeito) uma forma de reconciliação possível, sem qualquer redenção fácil.

Privada do acesso direto às suas memórias de infância, Zari coloca em cena três gerações de mulheres — avó, mãe e ela própria — recorrendo também a fotografias de arquivo e registos vídeo para confrontar uma narrativa familiar sustentada por imagens que insistem numa ideia de felicidade, enquanto ocultam violência, ausência e fratura psicológica.

Na entrevista que se segue, Zari reflete sobre confiança, ética e vulnerabilidade; sobre trabalhar com a família enquanto sujeito e colaborador; e sobre o uso de um arquivo povoado de fantasmas como matéria para transformação, mais do que de exposição.

Alba Zari

Como se constrói um documentário tão pessoal pensando, ao mesmo tempo, na sua exposição pública?

Obrigado por esta pergunta. O importante é planear as coisas. Desde o início, passando pelo desenvolvimento até à pós-produção, foram oito anos. Foi um processo muito longo e tudo foi tratado com muito cuidado, respeito e confiança entre todos nós.

Houve muitos anos de observação em que o diretor de fotografia e o técnico de som estiveram muito em contacto com a minha mãe, o meu tio e toda a gente, só para que se sentissem confortáveis. Fizemos muitos anos apenas de observação e de tentativa de construir esse círculo de confiança e cuidado.

Depois começámos a falar de coisas mais difíceis, mas foi preciso tempo e espaço para que o documentário se tornasse aquilo que é agora.

O filme aborda temas particularmente duros e levanta uma questão ética central, ao colocar em cena três gerações de mulheres — avó, mãe e filha. Em vários momentos vemos a tua mãe numa posição de grande fragilidade. Como foi pensado esse equilíbrio ético entre a tua necessidade de procurar respostas e a exposição de alguém tão vulnerável?

Acho que o maior desafio foi abordar um tema tão difícil com a minha mãe, que é extremamente frágil e vulnerável, da forma mais cuidadosa possível. Elas serão sempre a minha família e eu estava a expô-las. Claro que houve consentimento; foi algo que fizemos juntas, e que elas também fizeram por mim. Foi, de certa forma, um gesto de generosidade, um presente para me ajudarem a encontrar paz e verdade.

Do ponto de vista ético, tive sempre muito cuidado para que nunca sentissem que estava a ir longe demais, mesmo sabendo que eu própria precisava de respostas. Talvez a coisa mais bonita que aprendemos em conjunto tenha sido perceber que dizer a verdade e falar não é um erro. Não há razão para sentir vergonha da história, do passado ou daquilo que aconteceu.

Libertarmo-nos da vergonha — desculpa a repetição — foi profundamente libertador. 

Foi um processo terapêutico para ti e para a tua família.

Sim, foi um processo de cura que atravessámos todas juntas. E ontem, depois da projecção, muitas pessoas do público disseram que também foi um processo de cura para elas e que se sai do filme um pouco transformado.

E acho que isso é a coisa mais poderosa que um filme pode fazer. Ainda estou muito impressionada e surpreendida com isso. Não é apenas algo pessoal, torna-se algo que, espero, tenha significado para outras pessoas. É por isso que se torna público e não apenas privado.

Trabalhou extensivamente com arquivos familiares — fotografias, vídeos e outros registos. Olhaste para esse material como fantasmas do passado ou como ferramenta para reconstruir factos e repensar a narrativa da tua história familiar?

Sou fotógrafa e artista visual. Antes do filme, e mesmo anos antes, já trabalhava em paralelo num projecto fotográfico com arquivos.

O que é interessante, e a razão pela qual usei tanto arquivo, é que tudo foi filmado e fotografado pela minha avó. Do ponto de vista dramatúrgico da narrativa, ela é a minha antagonista. Ela queria criar, através desses arquivos e fotografias, uma história nossa na Tailândia, felizes, escondendo a verdade do que aconteceu dentro do culto e dentro da dinâmica familiar.

Essa caixa de fotografias e memórias é a forma dela contar a história que eu tento desconstruir com o documentário.

E quando olhas para o passado e para essa história antiga, existe perdão?

Existe muito amor e perdão. Acho que é por isso que fiz isto, para juntar as peças. É isso que temos. Há muito amor em fazer este filme.

A ausência da figura da figura do pai sente-se até fisicamente no filme. Como lidaste com essa questão durante o processo de o tentar encontrar?

Essa foi a primeira pergunta, a razão pela qual comecei a fazer este filme. Mas lentamente, ao ouvir as histórias da minha mãe e da minha avó, essa pergunta deixou de ser importante.

Não encontrei o meu pai e agora tenho paz, porque já nem quero tanto procurá-lo. Já não estou à procura. Encontrei paz ao aceitar a história através da escuta da minha família.

Até que ponto a tua história pessoal foi determinante na tua definição artística?

Sem dúvida que me moldou. Eu não seria, não faria o que faço, se não tivesse esta história. Acho que foi uma forma de transformar as coisas. É isso que os artistas fazem. Pegam numa caixa de dor, sofrimento ou passado e transformam-na em outra coisa.

Falaste em oito anos de trabalho. Quando é que soubeste que o filme estava pronto? Que era exatamente aquilo que querias?

Acho que se escreve um filme em três momentos diferentes. Primeiro no desenvolvimento, quando escrevi o guião. Depois, enquanto filmas, estás a escrevê-lo outra vez, porque não controlas tudo. E depois, na montagem, é aí que ele se torna aquilo que é. Tive a melhor experiência com o Pierpaolo Filomeno, o montador do filme. É nesse momento que a história aparece claramente e sabes que está feita.

Voltando à intimidade da história, és a realizadora e também a protagonista. Existe separação? Consegues distanciar-te?

Tentamos. Eu tento. Odeio ver-me em cena. É absolutamente torturante. Mas tive de o fazer porque, como fotógrafa, ter uma câmara na mão é literalmente disparar, apontar uma lente a alguém.

Não podia ser a filha e a pessoa dentro da história a segurar a câmara. Eu tinha de estar presente, porque não queria essa dinâmica de poder que a câmara traz. Claro que, como cineasta, continuo a contar a história, mas queria estar ali ao lado delas enquanto o fazia.

Foi assim que me tornei protagonista. Nunca senti que fosse. Para mim, a minha mãe é a rainha absoluta deste filme.

White Lies

Qual foi o maior desafio? Foi fácil financiar o filme e sustentar este processo de oito anos? 

Tenho muita confiança na minha produtora. Sei que ela deu 100% para fazer este filme. Algumas coisas não estavam sob o meu controle e eu precisava confiar totalmente no trabalho dela. Não fiquei muito stressada com isso porque sabia que não dependia de mim.

A parte mais difícil foi construir essa confiança e dizer “eu preciso de saber, é meu direito”, mas ao mesmo tempo garantir “confia em mim, não vai ser mau”, mesmo que isso significasse expor a minha mãe.

Além da vossa história familiar ligada à seita Children of God, houve uma investigação complementar?

Houve, mas este documentário poderia ter sido cem filmes diferentes se eu tivesse ido por esse caminho. Segui aquilo que senti ser a coisa mais honesta a dizer. Essa parte teria tornado o filme demasiado voyeurista e alimentaria algo que eu não queria alimentar.

Evitar o sensacionalismo. Foi fácil não cruzar essa linha?

Sim. Foi uma escolha. Nunca senti que fosse uma linha que quisesse cruzar. As pessoas que trabalharam comigo estavam todas alinhadas nesse senido. Nunca quisemos ir nessa direção.

Mas não sentiste que estavas muito exposta pela tua história?

Sim, sinto-me exposta, até neste exato momento. Escolhi fazê-lo, por isso não posso queixar-me. Mas acredito que a fragilidade e a vulnerabilidade são também uma força e, por isso, estou a tentar ser forte.

O filme já foi exibido em festivais, agora em Roterdão. Como tem sido a receção?

Foi bonito. No Festival dei Popoli foi a primeira vez e ver as pessoas emocionadas foi impressionante. Depois, em Trieste, pela primeira vez em oito anos, a minha mãe e o meu tio viram o filme no cinema.

A sala estava cheia, cerca de 500 pessoas, havia fila para entrar, amigos, família, mas também a cidade inteira a participar na história. Foi uma experiência bonita para eles. Espero ter-lhes devolvido aquilo que me deram. Ganhámos alguns prémios, o que também foi bom.

E qual foi a reação da família ao ver o filme?

Foi boa. Fiz muita gente chorar. Eles precisaram de tempo para processar, mas estavam felizes. A minha mãe falava com as pessoas do público, muito orgulhosa do que fez e do que eu fiz. Foi bonito.

Vais continuar a trabalhar em temas ligados à identidade? 

Sigo aquilo que sinto ser mais importante dizer. Neste momento, acho que não vou voltar a trabalhar em documentários. Sinto que a minha identidade está resolvida na sua não-resolução, e estou bem com isso.

Quero trabalhar em ficção ou noutra coisa que envolva dinâmicas familiares. Não quero dizer muito porque ainda estou a escrever. Não sei se vai correr bem, mas sim, estou a ir na direção da ficção.

Link curto do artigo: https://c7nema.net/co5j

Últimas