Inspirado na sua própria infância, Marijana Janković lançou em 2016 a curta-metragem Maja, onde acompanhava a experiência da migração a partir do olhar de uma criança. “A curta-metragem era apenas um conjunto de cenas de algo que eu já conseguia ver que poderia tornar-se um filme maior”, explicou-nos a cineasta natural de Montenegro, mas que se fixou na Dinamarca. Muita da sua experiência de vida está agora em Home, a sua primeira longa-metragem, na competição Big Screen do Festival de Roterdão, onde pegando na sua história pessoal cria um retrato mais amplo sobre o deslocamento, o sacrifício e a identidade.
Maja tem seis anos quando os pais deixam a Jugoslávia e partem para a Dinamarca em busca de uma vida melhor. Os dois irmãos ficam para trás, à espera de poderem juntar-se à família. Através do olhar atento da criança, Home acompanha a adaptação a um novo país, a aprendizagem de uma nova língua e as dinâmicas de uma família marcada pela separação e pelo sacrifício.
Na entrevista que se segue, Marijana Janković explica ao C7nema como Home questiona o que é “casa”, o que é o sentimento de “pertença” e o que é a família quando tudo muda.

Fez uma curta-metragem, Maja, há cerca de dez anos, também sobre este tema. Porque sentiu a necessidade de regressar a estes tópicos e de os desenvolver agora numa longa-metragem?
A curta-metragem era apenas um conjunto de cenas de algo que eu já conseguia ver que poderia tornar-se um filme maior. Na verdade, tudo o que estava na curta está agora nesta longa-metragem. Aqui temos não só aquilo que aconteceu durante a história que contei na curta, mas também o que aconteceu antes e depois. A curta funcionou como uma espécie de teste: queria perceber como isto resultava antes de avançar para uma longa-metragem.
E qual foi o grande desafio de contar esta história de ficção com tantos detalhes pessoais e memórias? Onde se situou a separação entre criação, ficção e realidade?
Foi uma viagem muito bonita, porque senti duas coisas ao mesmo tempo. Por um lado, foi um acto de exposição pessoal. Por outro, foi a possibilidade de transformar uma história que poderia ter sido vivida como traumática em algo belo, usando a minha voz para contar a história de pessoas que nunca tiveram voz.
Os meus pais não são pessoas que escrevem livros nem que aparecem na televisão a fazer filmes. São pessoas trabalhadoras, e senti que era importante contar a sua história enquanto ainda estão cá. Caso contrário, nunca seria contada. Ficaríamos apenas com a voz da minha geração. A minha geração é muito mais visível, conta as suas histórias, e é verdade que os tempos estão a mudar. Mas essa geração de imigrantes continua praticamente invisível, porque não são eles que contam as suas próprias histórias.
Eu conheço essas histórias porque fiz parte dessa experiência. Senti que tinha de o fazer para que não desaparecessem.
Durante a escrita, esse processo ajudou-a a compreender melhor algumas decisões tomadas pelos seus pais? Funcionou também como uma espécie de terapia?
Não sei se lhe chamaria terapia. Para mim, foi sobretudo um processo de crescimento. Foi uma forma de me tornar adulta e mãe, ao perceber como eles colocaram a si próprios e as suas necessidades em segundo plano para que eu pudesse tornar-me quem sou hoje, para me dar uma vida melhor.
Sou mãe de uma criança, a Una, que tem agora três anos. De repente, percebi que, quando temos uma família, ela se torna maior do que nós próprios. As nossas necessidades deixam de ser as mais importantes. E essa é a beleza da família e de todos os sacrifícios que fazemos: fazemos-los pela família. Já não somos apenas nós.
Foi exatamente isso que os meus pais fizeram. Mudaram de país, de língua, de tudo o que conheciam e que era a sua zona de conforto, para me dar uma vida melhor. Nesse sentido, este filme é também sobre amor — o amor que damos aos nossos filhos, o que os meus pais fizeram por mim e o que tantos imigrantes fizeram ao partir à procura de um futuro melhor para os seus filhos.

Mas, ao mesmo tempo, sobretudo no caso dos dois rapazes mais novos que ficam para trás na Jugoslávia, existe uma forte sensação de abandono. Como trabalhou essa dimensão?
Há sempre um preço a pagar. Ganha-se algo e perde-se algo. Nos dramas familiares, há quase sempre alguém que ganha e alguém que sente que algo lhe foi retirado — pelos mesmos pais. Não porque os pais queiram ser melhores para um filho e piores para outro, mas porque as circunstâncias os obrigam a tomar decisões que acabam por ter essas consequências.
No filme, os pais não amam a Maja mais do que os irmãos. Ela é simplesmente a filha mais nova e é rapariga. Por isso levam-na com eles e deixam os rapazes. É apenas isso: são as circunstâncias.
Isso faz-me lembrar um filme antigo, um dos meus preferidos, com a Meryl Streep, em que ela é obrigada a escolher entre dois filhos. A escolha é impossível. Faça-se o que se fizer, algo ficará sempre errado.
Como decidiu o tom e a estética do filme? Muitas vezes seguimos o olhar da criança. Como fez a transição desse ponto de vista para o do pai e para o da mãe?
Tive muita sorte em poder trabalhar com um dos melhores diretores de fotografia do mundo, o Manuel Claro, que é extraordinário, e falámos muito sobre isso. Eu estava profundamente obcecada em mostrar a Jugoslávia — o lugar de onde eles vêm — como algo belo. Havia ali um lado romântico. A natureza era aberta, expansiva. Eles eram, de certa forma, livres, mas ao mesmo tempo estavam presos, porque tudo o que acontecia à volta não lhes permitia ter uma vida digna, obrigando-os a partir.
Falámos muito da Jugoslávia como um espaço aberto, das paisagens, também porque eu própria sou obcecada pela beleza dessa parte do mundo. Depois, quando chegam à Dinamarca, pensámos exatamente o oposto: mantê-los fechados, confinados a apartamentos, a quartos. Estão quase sempre em espaços interiores. Há poucas cenas no exterior e, mesmo quando estão fora, é num cemitério ou num quintal. Nunca há realmente uma sensação de abertura.
Era essencial que isso estivesse presente para transmitir o sentimento de estarem presos dentro de algo. Foi um aspecto muito trabalhado.
Os pais nunca falam dinamarquês ao longo do filme. Há mesmo uma cena em que a mãe não sabe ligar para o 112. Como vive essa inversão, em que a criança assume rapidamente um papel quase adulto?
Isso é inspirado na minha própria vida e em memórias muito concretas. Há quem pense que uma criança poderia ficar traumatizada por assumir esse papel. Mas eu não fiquei. O que recordo é que éramos uma equipa. Funcionávamos como uma equipa: o pai fazia uma coisa, a mãe fazia outra, e eu fazia a minha parte.
Aprendi a língua mais depressa para poder ajudar. Era a minha forma de contribuir. Cada vez que traduzia ou ajudava, sentia que estava a marcar um golo. Estava a fazer algo pela família.
Os meus pais vieram para a Dinamarca para trabalhar sem parar. Não foram para escolas de língua, não tinham tempo. Não iam a festas, não iam ao cinema. Estavam ali para trabalhar, ganhar dinheiro e tornar possível a vida que queriam dar a mim e aos meus irmãos. Eles seguiam o caminho deles e eu seguia o meu. Nunca senti isso como uma pressão, mas como algo natural. Para mim, era marcar um golo.

E hoje em dia eles já falam dinamarquês?
Ainda vivem na Dinamarca, mas não falam muito bem dinamarquês. Podemos discutir porquê. Porque nunca se sentiram verdadeiramente em casa aqui. É por isso que este filme tem tantas razões para se chamar Home. Eles nunca sentiram que pertenciam aqui.
Quando falam de casa, falam da Jugoslávia, que hoje é Montenegro. Não têm amigos dinamarqueses, não fazem parte de uma comunidade. Isso também está presente na cena do ataque cardíaco: a Maja ainda está a traduzir o diagnóstico. Esse é o papel dela. É assim que funcionam as famílias: dar e receber. Eles fizeram isso por ela. Ela faz isso por eles. Para mim, é simplesmente a verdade.
A Guerra Civil da Jugoslávia é mencionada, mas não ocupa o centro do filme. Porquê essa escolha?
Pensei muito nisso. Quando se coloca uma guerra numa história, ela tende a ocupar tudo. Este filme não é sobre refugiados. É sobre imigrantes. Há uma diferença. Eram sonhadores. Foram para outro país à procura de uma vida melhor. Não foram forçados a sair.
Mas sente-se que algo está a acontecer. E é importante notar que eles não regressam. Ficam na Dinamarca. Vemo-los 35 anos depois, ainda lá. A Jugoslávia deixou de existir. Já não havia um país para onde voltar. Eu estava mais interessada em contar a história deles do que a história da guerra.
A cena do Campeonato Europeu de Futebol de 1992 é muito simbólica. Era importante terminar o filme dessa forma?
Fico feliz que tenha reparado. A ideia do filme nasceu dessa cena final. A Dinamarca ganha o campeonato porque a Jugoslávia é impedida de jogar. No mesmo dia, os filhos chegam à Dinamarca. Alguém perde tudo e alguém ganha. Esse contraste é muito forte.
Foi a primeira cena em que pensei quando comecei a imaginar o filme. Por isso tinha de terminar aí. Gosto muito de começarmos o filme com os rapazes a ver um jogo da Jugoslávia e de o terminarmos com eles ainda a usar aquela camisola. Eles perdem. Para mim, isso é profundamente simbólico. Era importante contar essa história.

