Claude Schmitz e “Crab & Conrad”: quando o policial serve apenas de pretexto

(Fotos: Divulgação)

Cresceu entre o cinema de autor europeu e a cultura popular americana, criando para si mesmo um estilo muito próprio. Claude Schmitz, belga de nascença, gosta de apropriar-se de formas clássicas — o thriller, o buddy movie, o filme policial — para rapidamente tirar o foco delas e olhar para o espaço, tempo e humanidade que as suas personagens apresentam.

Depois de Braquer Poitiers (2018) e de L’autre Laurens (2023), não esquecendo Lucie perd son cheval (2021), o realizador belga regressa com Crab & Conrad – Idiotic Gems (Sainte-Marie-aux-Mines), um filme onde parte da figura arquetípica do duo policial, mas afasta-se deliberadamente do cinema de intriga para construir um retrato de território e da convivência. Filmando em Sainte-Marie-aux-Mines, uma pequena cidade da Alsácia onde a realidade local — os habitantes, os espaços, os ritmos — se infiltra diretamente na ficção, o filme é uma das obras mais curiosas do Festival de Roterdão.

Nesta entrevista, o realizador fala sobre a génese do projeto, a relação com os atores não profissionais Rodolphe Burger e Francis Soetens, a importância do improviso, a influência de Tintin na estética do filme, e a ideia de cinema como espaço de observação mais do que de controlo. 

Claude Schmitz

Quando apresentou L’autre Laurens (2023) em Cannes, disse-me que durante a sua juventude passou por dois colégios: um via filmes do Kurosawa e do Bergman, no outro via filmes do Chuck Norris e do Steven Seagal. Essa mistura acabou por moldar a sua personalidade cinematográfica. Nesse sentido, e depois do  L’autre Laurens, como é que nasce este Crab & Conrad?

Nasceu por várias razões. A primeira é muito simples: quando fiz The Other Laurens, tive imenso prazer em trabalhar com o Rodolphe Burger e o Francis Soetens. No entanto, eles tinham uma participação relativamente pequena no filme e, além disso, eram os únicos que estavam completamente num registo de improvisação. Eram pessoas que, na verdade, não se conheciam antes.

Durante a rodagem, tive a sensação de ver nascer uma espécie de alquimia entre eles, uma cumplicidade que eu não tinha antecipado. E, ao longo do próprio processo, comecei a pensar que fazia sentido continuar, prolongar esse duo, oferecer-lhes um terreno de jogo mais amplo para poder desenvolver essa parceria.

Falámos disso ainda durante o filme e, muito rapidamente, surgiu a ideia de montar este novo projecto. No início, não havia outra ambição senão prolongar a ideia de um duo de polícias, num jogo em torno do buddy movie dos anos 1980 e 1990, mas divertindo-nos a desviar um pouco o género.

O que vemos em Crab & Conrad é algo que eu já tinha feito no L’autre Laurens: pegar num género — aqui o buddy movie — e deslocá-lo para um lugar onde houvesse mais espaço para os seres humanos, para as pessoas que viverem as personagens.

E a ideia para o enredo?

O Rodolphe convidou-me para ir a casa dele, na Alsácia, na cidade natal dele, Sainte-Marie-aux-Mines. Disse-me: “vem ver onde vivo, talvez isso te interesse, talvez te inspire”.

Fui lá numa altura em que estava a acontecer a Mineral & Gems, a feira de minerais — a segunda mais importante do mundo, logo a seguir à de Austin, no Texas. Foi aí que descobri um pequeno vale com um cenário muito particular e uma atmosfera muito forte. Uma vez por ano, aquele lugar transforma-se no centro da vida em torno das pedras preciosas e dos minerais.

Durante alguns dias, passam por ali cerca de 10 mil pessoas; depois, a cidade volta a ficar vazia e instala-se uma espécie de melancolia. Achei que era um cenário extremamente interessante. Eu já tinha as minhas duas personagens e foi assim que começámos a imaginar o projeto.

E como construiu e desenvolveu as personagens do Crab e do Conrad, dois polícias solteiros, deslocados para um novo posto? Houve inspirações? Por exemplo, o filme faz lembrar um pouco o cinema do Bruno Dumont, como em P’tit Quinquin.

Para mim, o duo de polícias é um arquétipo do cinema. Está em todo o lado, até na literatura. Não é tanto Dumont, embora seja inevitável pensar nesse tipo de duo. Sinto sobretudo que esta figura existe há muito tempo e que já a vimos em inúmeras ficções.

Crab & Conrad – Idiotic Gems

Como em Tintin, os Dupont e Dupont.

Exactamente. Talvez por eu ser belga, há um álbum de Tintin que me interessa particularmente: Les Bijoux de la Castafiore (As Jóias de Castafiore). É um episódio anti-narrativo. Não há realmente uma história; há um pretexto. O pretexto é o roubo das jóias — aqui, no filme, é a busca de um anel. O que interessa é a atmosfera, as personagens e a forma como as relações evoluem ao longo de um verão.

Foi isso que aconteceu neste filme. Eu não tinha uma ideia pré-concebida sobre as personagens. Como o Rodolphe e o Francis não são actores profissionais, interessava-me imaginar algo que fosse o mais justo possível em relação ao que eu tinha visto neles em L’autre Laurens.

Desta vez, a ideia foi: e se eu os deixasse viver? Com um guião não demasiado fechado, dar-lhes um terreno e observar o que acontece.

No caso do Bruno Dumont, há um trabalho de direcção de atores extremamente preciso. No meu caso, não. Não é um trabalho de marionetista. Pelo contrário, trata-se de deixar as personagens viverem, crescerem, ganharem humanidade, intervindo o mínimo possível.

Falou de pretextos. Existe a busca de um anel, mas rapidamente esse deixa de ser o foco e o fim. É este o cinema que gosta de fazer?

Sim. Eles procuram um anel. Mas a pergunta é: o que é que eu procuro através disso tudo? Procuro também uma pedra preciosa, algo com reflexos, com brilhos particulares. Essas pedras preciosas são as pessoas.

O que procuro no cinema é mostrar algo das pessoas. Toda a estrutura de um filme serve apenas para isso: mostrar seres humanos e interacções entre pessoas que, à partida, não se deveriam encontrar.

Aqui, a questão era também territorial: o que faço com este lugar real, Sainte-Marie-aux-Mines? Como trabalhar com um território que existe, que não é fictício, e fazer com que a sua essência seja perceptível?

Desde cedo pensei o filme como um “filme de território”, como já tinha feito em Braquer Poitiers (2018). É o território que conta a história.

Passei muito tempo lá, não a fazer castings, mas simplesmente a conhecer pessoas. Todas as pessoas que aparecem no filme são habitantes reais de Sainte-Marie-aux-Mines. Não há atores profissionais, com exceção de Anne Suarez, que interpreta a comissária. Os pastores, o dono do restaurante, todos são habitantes locais e, muitas vezes, interpretam o seu próprio papel. Construíram a história comigo.

E como pensou a estética do filme? Como foi o diálogo com o diretor de fotografia e a montadora?

Com o diretor de fotografia, o Florian Berutti, tentámos encontrar um dispositivo fixo, evitando o excesso de découpage, algo que impusesse um ritmo à ficção e, ao mesmo tempo, deixasse espaço às pessoas. Pensámos também numa imagem próxima da banda desenhada, de Tintin: uma imagem gráfica, simples, com cores saturadas, que evocasse a ligne claire do Hergé.

Na montagem, a ideia foi semelhante: simplicidade. Não sobrerritmar, não criar um ritmo artificial, deixar espaço às coisas. Tratava-se de encontrar um equilíbrio entre esta comédia estranha e momentos que, por vezes, se aproximam de algo mais real, quase documental.

Qual foi o maior desafio? O financiamento foi fácil?

Foi relativamente fácil. O filme foi montado ao longo de um ano. Eu queria algo espontâneo, coerente com o espírito do próprio filme. Financiámo-lo com pouco dinheiro da Bélgica e da Alsácia. O orçamento foi pequeno, cerca de 500 mil euros, mas era exatamente o que o filme precisava.

O maior desafio foi captar algo deste território específico: mostrar esta pequena cidade de cinco mil habitantes sem um olhar pré-concebido, sem caricatura, sem folclore.

O que representa para si estar com este filme em Roterdão?

Já estive em Roterdão com outros filmes, como o Braquer Poitiers. Gosto muito deste festival porque está aberto a formas mais experimentais. Estou curioso para ver como o filme vai ser recebido. Para o público francófono, funciona bem por causa das referências, mas há um desfasamento, um absurdo particular.

Não sei se vai funcionar aqui. Estou curioso.

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