César Diaz invoca Sidney Lumet e leva thriller político a Locarno

(Fotos: Divulgação)

Depois de ganhar a Câmera de Ouro de Cannes com “Nuestras Madres” (2019), o guatemalteco César Díaz retorna com mais uma história que retrata os crimes das obscuras ditaduras militares que vigoraram no país em diversos períodos do século passado, a partir do golpe de estado ocorrido em 1954.

E se em “Nuestras Madres” acompanhamos uma indígena que pede ajuda a um especialista forense para identificar o marido que foi enterrado numa vala comum, durante a guerra civil guatemalteca (1960-1996), em “México 86” as fronteiras fílmicas alargam-se para fazer chegar até nós a história de Maria (Bérénice Bejo), uma ativista rebelde guatemalteca que luta contra a ditadura militar e que é forçada, em 1976, a fugir para o México, deixando o seu filho para trás. Dez anos depois, quando o miúdo vai morar com ela, Maria é forçada a escolher entre os seus deveres de mãe e continuar o seu ativismo revolucionário. Nessa jornada, as convulsões internas são ampliadas pela ideia que a polícia secreta guatemalteca poderá estar no México para a matar.

Continuando com a sua obsessão pelos laços filiais, César Diaz volta a atacar o regime militar que tomou conta do poder pela força, mas sem cair no erro de romantizar a luta armada pela liberdade. “Muitas vezes vemos as personagens no papel de “herói revolucionário”, explicou César ao C7nema, numa entrevista no Festival de Locarno. “Um exemplo para explicar essa ausência de romantismo é a do pai de uma amiga minha, que tinha três casas, três mulheres diferentes e filhos com cada uma. Para explicar essa situação às mulheres, invocava uma questão de segurança (risos). Era simplesmente irresponsabilidade. Além de não romantizar a luta armada, queria criar personagens complexas, além da divisão binária de bons e maus, policias e revolucionários”.

Servindo-se de Sidney Lumet e de muito do cinema americano dos anos 60, 70 e 80 como farol, em particular de “Running on Empty”, Diaz executa um trabalho de extrema tensão, especialmente quando a guatemalteca, que agora trabalha num jornal mexicano, quer expor os crimes da ditadura militar do seu país e vai ouvindo histórias de companheiros que vão sendo assassinados pela polícia secreta da Guatemala. “Adoro os filmes dos anos 60 e 70, os americanos. Em especial os thrillers políticos como “French Connection” e “Running on Empty”. Pensei que era capaz de fazer um filme desses.”, diz-nos, deixando ainda umas palavras sobre Lumet: “Sidney Lumet inspira-me muito. A forma como lida com os assuntos, como consegue que uma grande história se intrometa na escala familiar. Falei muito dele durante a montagem do meu filme. Uma coisa que acho genial é que ele conseguia criar logo uma imagem que nos agarra ao imaginário coletivo. Lumet tem essa inteligência. Uma das minhas dificuldades era como criar os antagonistas, esta polícia secreta e dar-lhes um tom de tensão e dúvida, que faz parte da paranoia inerente”. 

Já sobre a génese de “México 86”, o realizador avança: “O meu primeiro pensamento foi o de contar a história de uma imigrante guatemalteca no México que se separava do filho. Dez anos depois, o miúdo chega ao México e a mãe trabalha como babysitter de uma família branca. O rapaz ia descobrir que ela tratava de crianças, mas tinha-o abandonado. O problema desta história é que, mesmo que tentasse observar a dinâmica familiar, a etiqueta de migrante estava logo agarrada a esta mulher, pois existe nisso uma caricatura e estereótipo. Tentei com as produtoras dar a volta à coisa e, nesse processo, contei a minha história pessoal. Disseram-me logo para escrever e parti dessa história biográfica para depois criar uma ficção. Foquei-me no aspecto do como vai ser esta mulher uma mãe e, simultaneamente, militante revolucionária”.

Dedicando o filme à sua própria mãe, pois afinal foi ela e o seu afastamento que inspiraram o projeto, César conta que, acima de tudo, pretendia mostrar personagens forçadas a viver com outras: “Parecia-me interessante ela ter de viver com o filho entregue ao dilema de um dia podia ser apanhada. Queria estudar as relações filiais, pois ter ou não um vínculo genético com alguém é-me igual. A tua mãe é quem está contigo e passa tempo contigo”. 

Já sobre a escolha de Bérenice Bejo para o protagonismo, o guatemalteco explica: “Sou alguém que necessita de ter rostos na minha cabeça ao escrever. Durante muito tempo, a cara que me surgia na mente era de uma atriz mexicana que fez o “Miss Bala”. Mas depois analisei o que ela fez depois disso e saiu rapidamente da minha mente. Depois descobri um filme do Pablo Trapero, “La inquietud”, e já tinha visto o “Le Passé” de Asghar Farhadi. Quando percebi que Berenice falava espanhol e chegou a França por razões políticas, pensei que ela podia facilmente se conectar à Maria. Enviei-lhe o guião e as coisas foram muito fluídas. Reuni-me com ela em Paris e falámos das nossas histórias e como os segredos da militância impactaram a nossa vida”.

Durante a conferência de imprensa do filme em Locarno, no sábado, Bérenice Bejo partilhou com os jornalistas como este filme a ajudou a compreender melhor a história da sua família e dos seus pais, que deixaram a Argentina durante a ditadura para se estabelecerem em França. “Para mim, quando conheci o César e ele me propôs este filme, era uma forma de falar da minha família, mas sem falar da minha família“, disse. “Venho de uma família que fugiu da ditadura na Argentina. E os meus pais não me contaram muito sobre o assunto. Há muitos segredos, muitos mitos (…) Quando eu tinha 20, 30 e até 40 anos, queria respostas. E sentia-me muito frustrada com os meus pais por não me darem essas respostas“.

O Futuro

Quando nos cruzamos a primeira com César Diaz foi em San Sebastián, quando “Nuestras Madres” já andava num intenso percurso de festivais após a estreia e conquista em Cannes. Nessa entrevista, César mencionou um novo projeto, a adaptação ao cinema do livro “Los Jueces”, que ainda procura concretizar. “Los Jueces é um tema muito guatemalteco. Falo de bairros colados uns aos outros que são algo muito comum no meu país e também no Brasil. Até pela topografia da paisagem, conseguimos mapear a sociedade guatemalteca da extrema pobreza à mais pura riqueza. É um filme difícil de se fazer e sinceramente não me senti preparado para ele. Tem múltiplas personagens e não é fácil trabalhar com tanta gente e tão diferente. Preferi crescer como cineasta e provar o meu valor com um thriller político. Além disso, sabes bem que indústria do cinema é lixada. Quando fazes um filme como “Nuestras Madres”, vais a Cannes e ganhas a Câmara de Ouro, fabricas uma etiqueta e elas querem mais. Ou seja, querem uma coisa “igual”. O que a indústria esperava de mim era outro filme com um toque de documentário, de toada “real”, mas isso não aconteceu”.

Atualmente o realizador diz-se preparado para avançar para “Los Jueces”, mas tem noção que o financiamento será complexo. Além deste filme, César tem ainda um projeto de série, que adapta a obra de um escritor uruguaio. Mais uma vez, ele tem noção que o seu projeto não o típico que as grandes plataformas costumam “aprovar”, mas não desiste e vai lutar para que a série encontre o seu espaço.

O Festival de Locarno prossegue até dia 17 de agosto.

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