O guatemalteco Nuestras Madres é o candidato belga aos Oscars
Premiado com a Câmara de Ouro em Cannes, Nuestras Madres – projeto de mestrado de César Diaz na La Fémis – chegou agora a San Sebastián, um trabalho que nasceu pela obsessão do cineasta pelos “laços filiais”, explicou o realizador ao C7nema. Depois disso, descobriu o trabalho da Fundação de Antropologia forense, que exuma, identifica e entrega aos familiares os cadáveres que são encontrados sem identificação. “Fascina-me como a ciência pode descobrir se um cadáver é da tua família. Especialmente ajudar-te a encontrar pessoas desaparecidas e finalmente ajudar-te a entrar no processo de luto“, explica Diaz, que entre razões ligadas a sua história pessoal e a história da Guatemala executa uma obra onde uma indígena pede ajuda a um especialista forense para identificar o marido que foi enterrado numa vala comum durante a guerra civil guatemalteca (1960-1996).
“A resiliência individual ajuda a resiliência coletiva“, disse Diaz, explicando porque parte de uma história história individual para contar o sentimento global de um país que ainda não sarou todas as feridas deste período negro. “Nem vai sarar enquanto não terminar o processo de justiça. Tem que haver castigo. Sem castigo, sem punição, as razões da guerra ficam também esquecidas” diz Diaz, lamentando profundamente que o país tenha entrado num processo de legislação parlamentar que pode permitir a amnistia a criminosos de guerra já encarcerados.
Tendo consciência que sempre se falou mais do tema a nível internacional do que na Guatemala própriamente dita, Diaz afirma que o seu filme procura continuar um processo de “terapia nacional” onde a literatura tem tido um papel mais importante que o cinema local, que só em 2012 e com Polvo de Julio Hernández Cordón iniciou a discussão do genocídio no grande ecrã.

Pré-selecionado aos Oscars pela Bélgica, na categoria de Melhor Filme Estrangeiro, Nuestras Madres “não tem hipóteses de chegar aos cinco filmes finais“. Pelo menos essa é a opinião do realizador, que apesar de afirmar que vai para os EUA fazer campanha pelo filme e de contar com o apoio do seu distribuidor americano, têm poucas hipóteses contra o poderoso lobby de diversos países e grandes estúdios. “Se chegarmos aos 10 finais, abro o champanhe” (risos).
Novo projeto
A adaptação do romance Los Judces, com a colaboração do seu autor, Arnoldo Gálvez Suárez, será o próximo projeto de Cesar Diaz. “Parecia um filme quando a li“, disse-nos Diaz, acrescentando ainda que o tema diz-lhe muito pois cresceu num bairro muito parecido aquele que a obra literária fala. “Um bairro de classe média baixa que crê que todos os males do mundo são da responsabilidade de uns pobres miseráveis que vivem em barracas sem água e luz numa ravina. Em particular acompanhamos duas mulheres que querem sair deste bairro“.

