“Amal” e como “a religião tem de estar fora da escola”

(Fotos: Divulgação)

Com uma carreira no jornalismo antes de começar a fazer filmes em 1997, o belga-marroquino Jawad Rhabib tem dedicado grande parte da sua obra a questões ligadas aos direitos humanos, muitas vezes escolhendo como objetos os migrantes e a sua condição nos países de acolhimento, como se viu em “El Ejido, la loi du profit”, documentário de 2006 sobre a realidade dos imigrantes clandestinos no sul de Espanha.

Posteriormente, em “Boomerang” (ficção de 2010), “Le chant des Tortues” (documentário, 2013), “Insoumise” (ficção, 2016) e “Au temps où les Arabes dansaient(documentário, 2018), temas como a busca da liberdade em sociedades carregadas de pressões religiosas, que impõe restrições em particular às mulheres, ganharam um novo alento, o que se replica com ondas de choque no seu mais recente “Amal”, exibido recentemente no Black Nights Tallinn após estreia no Festival de Ghent.

Neste drama, que valeu a Lubna Azabal (a extraordinária atriz de “Incendies-A Mulher que Canta“) o prémio de melhor atriz no certame estónio, seguimos uma turma numa escola belga onde a radicalização de alguns alunos de ascendência árabe-muçulmana ameaça quem se afasta das suas convicções. Rapidamente, a perseguição e bullying a uma aluna, que creem ser lésbica, vai tornar a dinâmica e a convivência da turma difícil de gerir, colocando a professora secularista, Amal (Lubna Azabal), no epicentro de um terramoto social e emocional.

Jawad Rhabib

A religião tem de estar fora da escola e temos de proteger os alunos disso”, afirmou hoje Jawad Rhabib ao C7nema, falando um pouco mais das origens deste “Amal”, que no final das contas serve como um  sério “aviso” à sociedade belga: “No ‘Au temps où les Arabes dansaient’ abordei o tema da libertação artistica no mundo árabe-muçulmano, em Marrocos, França e Bélgica. Falamos das interdições religiosas aos artistas, a partir de interpretações dos textos religiosos onde nos dizem como devemos agir, comer, etc. Através desse filme, encontrámos muitos jovens das escolas, diretores e professores, onde era visível que viviam num ambiente de medo. Tinham medo de ensinar, de abordar certos temas. ‘Amal’ é uma forma de os homenagear, de dar-lhes a palavra e libertá-los desse medo”. 

Para Jawad, é completamente aberrante a intromissão da religião na escola, em particular o poder de algumas comunidades na Bélgica em nomear quem irá ensinar religião dentro das escolas, sem que possa haver uma supervisão da própria instituição ao que é ensinado. “É um perigo”, adverte, como se observa no seu filme, onde é um professor, Nabil (Fabrizio Rongione), que instiga comportamentos associados à supremacia das leis de Deus sobre as dos homens: “A política deveria dar mais atenção a isto. Hoje em dia, os políticos procuram cada vez mais ter eleitores em vez de trabalhar para o bem comum. Para mim, a escola, o ensino, a cultura, a educação estão no centro de todo o desenvolvimento. Na Bélgica, em Bruxelas, em particular em regiões de forte implantação de migrantes, temos escolas deixadas ao abandono em comparação às que vemos nos quarteirões mais ricos. A verdade é que os políticos abandonam estes jovens e, quem aproveita, são professores como o Nabil, islamistas que encontram o seu espaço de entrada. Vemos isso perfeitamente em Gaza, na Palestina, em que o Hamas se infiltrou na área a partir da miséria instalada. Eles prometem dar dignidade a estas pessoas que o estado abandonou”.

Religião e Scularismo confrontam-se através das personagens interpretadas por Nabil (Fabrizio Rongione) e Amal (Lubna Azabal)

Infelizmente para Jawib, este é um tema que certamente continuará a abordar nos projetos que tem na agenda: “O cinema tem esse papel. Claro que também o papel de divertir, mas vou continuar a abordar temas que me toquem. Não podemos fechar os olhos e dizer que está tudo bem, quando não está. Temos de contribuir para melhorar a situação e olhar para os políticos, para os que decidem. (…) A escola é a base de tudo”.

Vitimização

Num dos momentos de “Amal”, a personagem interpretada por Lubna Azabal, de forma a tentar passar uma mensagem de tolerância, apresenta à turma textos satíricos do poeta árabe Aboû Nouwâs, do século VIII. A liberdade sexual do seu autor, que tanto gostava de homens como mulheres, vai provocar um enorme rebuliço nos alunos mais fundamentalistas da turma, trazendo para a escola os seus pais que acusam a instituição de propagar o Haraam, ou seja, o proibido pela fé. Quando Amal, a professora, diz que as convicções religiosas têm de ficar à porta da escola e não interferir nos programas de ensino, um dos pais que levava uma lista de autores proíbidos acusa-a de desprezar a sua cultura e religião, afirmando mesmo que ela está a ter um comportamento semelhante – de islamofobia – ao que a extrema-direita europeia pratica. 

Jawad critica essa postura de “vitimização” e dispara: “Infelizmente é algo que surge frequentemente quando abordamos e questionamos estes aspetos culturais e religiosos, falando-se muitas vezes em racismo. Na verdade, eles utilizam essa desculpa para uma vitimização do seu discurso. É algo que não suporto, pois é um escape para não falar dos temas da intromissão religiosa. Por isso, prefiro ser eu a abordar o tema, que deixar a extrema-direita pegar nele.” 

Admitindo que escreveu “Amal” com Lubna Azabal na mente e que trabalhou intensamente com ela na construção da personagem, Jawad admite que o seu passado no jornalismo influencia muito o cinema que faz, seja no campo da ficção, seja nos registos documentais: “Nos filmes, é essencial saber fazer as questões certas e procurar as informações”, diz-nos, sublinhando o papel essencial da documentação no processo de escrita.”Quando abordo um assunto tenho de estar bem informado sobre ele. É um trabalho do jornalista, mas também do escritor e realizador. Não quero colocar-me a jeito de cair no terreno do ‘gosto’ ou estar aberto a ataques. É fundamental para evitar o questionamento do meu trabalho numa ficção que é baseada na realidade.”

O Futuro

Com “Amal” lançado e a executar a rota dos festivais de cinema, Jawad diz que já está a trabalhar em dois outros projetos: um documentário e uma ficção com contornos de comédia negra. “Estou neste momento no processo de montagem de um documentário que filmei em Marrocos” diz-nos, acrescentando que mais uma vez terá como foco uma mulher pressionada a manter-se na sua vila e a cumprir os papéis tradicionais entregues às mulheres pela sociedade, mas que decide continuar os estudos. O problema é que essa decisão e ato de perseverança foi fortemente abalada pelo sismo em setembro que causou estragos em mais de 56 mil casas em quase três mil localidades marroquinas, vendo-se ela entregue à “miséria total e sem a escola, a qual ruiu”.

Já o projeto ficcional não será uma daquelas comédias em que se busca o riso pelo riso, apoiando-se antes “em situações completamente absurdas” que o cineasta encontra na Bélgica. “Será uma forma de abordar a liberdade artística, através do absurdo das situações”, conclui, não avançando datas para a sua concretização.

Quanto a “Amal”, ainda não existem datas de estreia do filme para Portugal e Brasil.

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