Em passagem recente por Portugal, Nicolas Philibert transformou um encontro com as plateias num colóquio vivo sobre o papel lúdico das narrativas de não ficção nas artes audiovisuais.
“Existe uma imposição histórica de que o filme documental deva estar à mercê da visibilidade e do suporte que é dado à ficção, o que, em si, já é um paradigma de luta, amplificado pela batalha que documentaristas têm para democratizar o acesso dos seus sujeitos e dos seus objetos ao olhar do público. Não se documenta a vida alheia a fim de impor um olhar. O ato de documentar traz consigo empatia“, disse Philibert ao C7nema durante a Berlinale, de onde saiu com o Urso de Ouro, à força da elegância do seu “Sobre L’Adamant” (“Sur L’Adamant” no original).
É um dos potenciais filmes a concorrer ao Oscar de Melhor Documentário de 2024, coroado com o mais cobiçado troféu do Festival de Berlim. O realizador é um francês nascido em Nancy há 72 anos que fez fama com experiências pautadas pela inclusão como “O País dos Surdos” (1992).
“No espaço físico das narrativas, vejo uma personagem em transição. O Adamant é um organismo vivo“, diz Philibert. “A minha maior alegria com o Urso de Ouro é saber o quanto a estatueta pode vir a favorecer a carreira de outros projetos de não ficção“.

Ao arredondarmos datas das suas participações como assistente em filmes de outros cineastas, o realizador completa cinco décadas de cinema este ano. Celebra a efeméride com o êxito mundial de “Sobre L’Adamant”, onde nos leva até uma estação fluvial de acolhimento (e também de atendimento clínico) a pacientes com distúrbios psiquiátricos, que flana pelas águas do Sena. Na passagem por Berlim, o filme ganhou ainda uma menção honrosa do Júri Ecuménico, formado por instituições cristãs de cunho humanista.
“Nada em um filme desta espécie se engatilha de véspera. Não me pauto em pesquisa, pois não chego às locações com o filme pronto. O filme em si é uma pesquisa, pois não quero conceitos prévios, não quero filmar o que já sei e não quero impor qualquer conceito intelectual que tenha ao universo que procuro conhecer”, explicou Philibert.
Conhecido principalmente nos países lusófonos pelos documentários “Être et Avoir” (2002) e “La Ville Louvre” (1990), Philibert passou ao posto de realizador há 45 anos, ao filmar “La Voix De Son Maître”, ouvindo executivos em posição de chefia nas grandes empresas. Nos 37 projetos que filmou depois, ele pautou-se sempre por um mesmo método. “Existe uma dimensão de apuração de factos na criação artística. A base do real sedimenta a poesia. Pesquisas não são algo mau. Jamais. Alguma coisa preciso estudar sobre o tema que vou retratar. Não posso ser leviano e ir sem preparação, sem o mínimo de informação. Mas não posso impor postulações, sobretudo num caso como é Adamant, uma geografia móvel que navega pelo mundo”, diz o cineasta.
Existem transtornos emocionais, crises existenciais e questões psiquiátricas graves abalando quem foi ao Adamant procurar ajuda. “Aquele lugar acolhe gente fragilizada, com fraturas, mas são pessoas que resistem. O meu papel político como artista foi dar voz a eles”, explica Philibert. “Oferecer visibilidade ao povo do Adamant é devolver o respeito e afeto a quem foi injustamente posto em invisibilidade”.
“Sobre L’Adamant” estreia em Portugal a 9 de novembro.

