Existe um sentimento de ausência acerca do mito Jean-Paul Belmondo (1933-2021) na maneira como o ator André Dussollier, hoje com 77 anos, lida com a finitude. Fazer um filme cheio de tons bem-humorados como “Mon Crime” (O Crime é Meu), hoje em cartaz em Portugal, foi um alívio diante de uma angustiante partida.
“Construí uma aproximação forte e vívida de Belmondo nos seus momentos finais, justo numa fase da minha vida em que finalizávamos ‘Tout S’Est Bien Passe’, pouco antes de sua estreia em Cannes. Eu acompanhei a luta de Jean-Paul para viver numa experiência de apego à vida que me fez entender que, enquanto uma pessoa tem algo a expressar, ela é capaz de resistir. Saí dessa vivência com o espetáculo da vulnerabilidade diante de mim”, disse Dussollier ao C7nema durante o Rendez-Vous Avec Le Cinéma Français, um fórum de promoção da produção francófona, realizado em janeiro.
Na época, fazer “Mon Crime” ainda era uma perspectiva distante. “O que existe de mais triste no ciclo de finitude é a perda da autoestima. Por isso, aprendi a apreciar narrativas leves” disse o ator, que nasceu na capital mundial do cinema de animação: Annecy, na França.
Não foi uma surpresa para Dussollier o facto de “Mon Crime” ter se tornado um êxito comercial, pois François Ozon tem dessas coisas. Mas o número de bilhetes vendidos pelo filme causou espanto. À força de mais de um milhão de ingressos vendidos entre março e abril na Europa, a divertidíssima versão para cinema de uma peça teatral homónima de 1934, assinada por Louis Verneuil e Georges Berr, passou a integrar a safra de blockbusters que, este ano, está devolvendo a França a primazia popular sobre as bilheteiras do seu circuito comercial que havia se perdido com a pandemia, quando a frequência do público aos filmes feitos na terra de Truffaut caiu vertiginosamente, mobilizando até cineastas autorais que extrapolam códigos mercadológicos.

“As cenas do dia a dia que nós encontramos nas longas-metragens de Ozon são guiadas por afetos, seja no excesso ou na contenção, e ele é um realizador que entende bastante da tradição do cinema”, avalia Dussollier, que já fazia teatro – e com prestígio – quando decidiu entrar no cinema, em 1972. Foi escolhido por François Truffaut (1932-1984) para atuar em “Une Belle Fille Comme Moi” (1972).
No papel do Sr. Bonnard, dono de uma fábrica de pneus que se encontra em crise, em “Mon Crime”, ele é um dos mestres do cinema europeu convocados pelo realizador parisiense a fim de injetar a energia teatral no seu vaudeville. Isabelle Huppert, Fabrice Luchini e Dany Boon estão ao seu lado. “Procuro sempre injetar humanidade nas personagens”, diz o ator.
Envelopado numa direção de arte requintada, “O Crime É Meu” transporta a plateia até a Paris de 1930, onde Madeleine Verdier (Nadia Tereszkiewicz), uma atriz jovem, pobre e sem talento, é acusada de assassinar um famoso produtor. A sua melhor amiga, Pauline (Rebecca Marder), uma advogada desempregada, consegue defender Madeleine com afinco e ela acaba absolvida por legítima defesa. Uma nova vida de fama e sucesso começa a partir daí. Mas essa bonança só há de durar até verdade por trás do crime ser finalmente revelada, com a chegada de uma estrela decadente (Isabelle) que jura ter outra versão dos fatos. Bonnard, empresário vivido por Dussollier, acaba envolvido no meio das confusões.
A arte fez-me entender a importância de saber ouvir, sem julgar, sabendo apreciar cada verdade ou cada versão dos factos”, diz Dussollier, que soma três César (o Oscar de França) na sua estante. “Dediquei uma vida ao prazer de atuar. Gosto de usar o cinema para entender como podemos resistir e seguir”.

