Aplaudido mundialmente pelo esforço de resgatar a cultura do “cinema de género” outrora vigente em Locarno, redefinindo a relevância da corrida ao Leopardo de Ouro, para além de veredas políticas, o crítico Giona A. Nazzaro prevê algumas controvérsias na seleção que preparou para o festival suíço na sua edição de número 76. De 2 a 12 de agosto, Leonor Teles, Lav Diaz, Basil da Cunha, Quentin Dupieux, Radu Jude e outros criativos consagrados nos anos 2010 e início dos 2020 vão desfilar novos filmes em concurso. Homenagens a mestres como Tsai Ming-liang e Stellan Skarsgard, ou transgressores como Harmony Korine, atestam a ousadia que virou marca registada da curadoria de Giona. Na entrevista a seguir, ele explica ao C7nema que desafios o esperam.
Apesar da movimentação do circuito de cinemas com o evento ‘Barbenheimer’, as salas de exibição estão vazias, em vários países do mundo. O que pode ser feito para mudar isso e o que um festival como Locarno tem a contribuir para essa retomada?
Fui assistir ao filme “Barbie” na sua estreia, em Roma, e a lotação estava esgotada, com espectadores a saírem da sala a dizer: ‘Vou comprar outro bilhete para rever’. Há movimentações na indústria. Nessa movimentação, os festivais, em si, não podem fazer muito, aliás, como se dá em muitos eventos ao vivo, eles estão cheios. O que um festival como Locarno pode fazer é entender que é parte de um motor cultural, com a tarefa de impulsionar a diversidade. Mas um festival não existe para fazer promoção dos lançamentos. Existe para gerar reflexão. Fiz a seleção deste ano para oferecer às plateias uma aventura. Uma aventura na qual não sintam que estão a ver mais do mesmo. O que conta é a liberdade das escolhas.
O Festival de Locarno deste ano está sendo preparado no momento em que o cinema se mobiliza diante da greve dos Sindicatos dos Argumentistas e dos Atores dos EUA. De que forma a greve pode reverberar na sua programação?
As demandas feitas pelo SAG e WGA são corretas e isso é indiscutível. O tema dos direitos sobre a criação artística é uma questão de Justiça nesse pleito. Vou lançar um comunicado oficial sobre o assunto, assim que entender melhor os desdobramentos, que podem, sim, afetar o nosso evento, mas não sabemos como.
De que maneira a discussão sobre inteligência artificial, hoje tão em voga, faz eco no festival?
Não temos a responsabilidade de tratar todos os temas. É que hoje, a ideia de que nós vivemos “supostamente” interconectados impõe uma obrigação de que falemos de todos os assuntos. A Inteligência Artificial vai simbolizar, para sempre, na minha cabeça, o título de um dos grandes filmes do Spielberg. O que estamos a falar é de uma inteligência fake, por ser artificial, e que precisa ser contextualizada mais no âmbito dos direitos humanos e das relações de trabalho. Quanto ao cinema, o uso do digital fez com que o emprego da tecnologia como meio de criação gerasse obras que mais que filmes, são performances.
Na seção de clássicos redescobertos do festival, há espaço para a língua portuguesa com sotaque brasileiro com a exibição de “Abismu” (1977) e “Documentário” (1966), de Rogério Sganzerla (1946-2004). O que lhe fascina na obra de Sganzerla?
Se Sganzerla fosse francês… ou italiano… seria um gigante. O seu “O Bandido da Luz Vermelha” é um dos maiores filmes já feitos. Toda a discussão atual sobre decolonização está expressa em “Abismu”.
Como avalia a atual situação do cinema suíço, resguardado com uma mostra própria no festival?
Existe um grupo de novas vozes que não se limita ao que acontece hoje no mundo e que está a mudar a realidade da produção local com filmes muito originais. O mais importante é o facto dessas vozes ainda não serem definíveis.

