Pietro Marcello: “Sou utópico e preciso da utopia para viver nesta sociedade”

O mais recente filme do cineasta italiano, “Velas Escarlates”, chegou aos cinemas a 25 de maio

(Fotos: Divulgação)

Inspirado no romance homónimo do russo Alexander Grin (1880-1932) e estreado na Quinzena dos Realizadores (agora Quinzena de Cineastas) do Festival de Cinema de Cannes, “Velas Escarlates” (L’Envol) e uma nova aposta do cineasta italiano Pietro Marcello na ficção,

Com elementos musicais e de fantasia, minados pelo realismo mágico, o novo filme do realizador de “Martin Eden” passa-se no norte da Normandia, entre as duas guerras mundiais, uma época de grandes invenções. É aí que acompanhamos a jornada de Juliette, uma jovem criada pelo pai, um veterano de guerra viúvo, que se esforça para encontrar o seu próprio caminho na vida.

Foi em Cannes, durante a edição 2022, que nos encontrámos com  Pietro Marcello, e falamos sobre este “Velas Escarlates”.

O que o levou a adaptar a obra do Alexander Grin e porque optou por filmar em francês?

Normalmente trabalho com o Marcelo Anselmo na escrita dos argumentos e dei por mim em França, enquanto fazia um documentário sobre o Lucio Dalla, a sentir a necessidade de trabalhar numa ficção. Tive algumas propostas para isso e a adaptação do livro do Alexander Grin foi uma delas. Gosto muito da literatura russa e por sorte dei de caras com esta história, pela qual me apaixonei e adaptei com a ajuda do Maurizio Braucci. Foi preciso fazer uma evocação mais moderna, mas a história podia desenrolar-se em qualquer lado, mesmo em Portugal ou no Japão, dada a sua forma universal. 

Existe um sentido de aventura nos livros que adapta. É algo que lhe atrai?

O Alexander era um grande romancista, alguém que teve muitos problemas na sua época e acabou a morrer na miséria em Staryi Krym, na Crimeia. Era uma personagem muito particular, um pacifista, o que não era bem visto região e levou-o a afastar-se da sociedade. Isso interessava-me.

Falou em evocar a modernidade. Isso era importante para esta adaptação?

Creio que este é um filme muito moderno e tivemos de trabalhar muito na adaptação porque a figura do pai, no livro original, não podia ser passada para os novos tempos. A figura paternal naqueles tempos era muito diferente da de agora. Hoje em dia, os pais fazem o mesmo trabalho que as mães, o que é normal, mas no passado não era assim. Acima de tudo acho que este filme é sobre o estar e viver em conjunto, do criar ou pertencer a uma comunidade. No mundo moderno temos cada vez mais o individualismo, que é um cancro. Já falei disso no “Martin Eden” e acho que a nossa sociedade precisa urgentemente do coletivismo, em detrimento do individualismo. Mas esta história, dentro do meu cinema, é mais próxima do “La bocca del lupo” que ao “Martin Eden“.

A ideia da feitiçaria, vem de si ou estava no livro?

Eu não confio normalmente nos roteiros e preciso adaptá-los. Venho do documentário e estou habituado a improvisar. Este era um guião com uma energia muito particular, num local igualmente único. A Joana D’Arc passou por lá e acredito muito na energia das locações (…) Sou alguém que precisa de imprevistos. Sem imprevistos, as coisas são estéreis, áridas de imperfeições. Prefiro fazer um filme imperfeito.

Velas Escarlates

O filme tem uma dimensão de conto, mas simultaneamente o realismo. Como encontrou esse equilíbrio, entre o realismo de filmar os marginalizados da sociedade e a outra dimensão de fantasia?

Sou utópico e preciso da utopia para viver nesta sociedade. Não consigo fazer algo sem existir uma esperança. É impossível para mim. Nós temos a realidade da vida quotidiana e depois temos a utopia. O Jacques Demy levou a opereta ao cinema, e é alguém que fez sempre um cinema muito popular. Talvez trouxe isso para aqui, até porque este é um filme na sua tradição profundamente francês.

Tendo em conta que considera-se um utópico, no seu filme a profissão de artesão vai desaparecendo. Existe uma nostalgia sua nisso?

Venho de uma família de artesãos e na minha vida já fui várias vezes um. Já fiz carpintaria, já trabalhei com eletricidade. Hoje em dia acho muito triste o desaparecimento dos artesãos. No cinema isso também é problemático. Um dia vão desaparecer todos os artesãos. Por isso fico contente da Juliette continuar o trabalho do pai, não se torne cantora ou atriz. Que continue a tradição…

E como se desenrolou o casting?

Para o papel de Raphaël encontrei-me com vários atores, mas mal vi o Raphaël Thiéry senti que era ele, pela sua figura e autoridade. No caso da Juliette, realizamos um casting selvagem, com mais de 1000 participantes. Quando descobri a Juliette Jouan, fiquei enamorado por ela para aquele papel. Enamorado como atriz (risos), pela sua força e potência. E ela era também cantora, tocava piano, tudo coisas fortes para o seu papel. Como era alguém forte, achei que seria ótima para desafiar a autoridade do pai.

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