Isabelle Huppert: “Sou boa atriz, mas sou ainda melhor espectadora”

“La Syndicaliste” (A Sindicalista) chega aos cinemas a 18 de maio

(Fotos: Divulgação)

Depois de colaborar com Jean-Paul Salomé em “La Daronne” (Agente HAXEpt), uma das mais aclamadas atrizes francesas, Isabelle Huppert, voltou a trabalhar com o cineasta no thriller “La Syndicaliste” (A Sindicalista).

No filme, uma adaptação do livro homónimo de Caroline Michel-Aguirre, Huppert será Maureen Kearney, uma dirigente sindical que em 2012 foi encontrada amarrada a uma cadeira com a letra “A” esculpida no seu abdómen e o cabo de uma faca inserido na vagina. Traumatizada, ela diz que não tem memórias da agressão.

O caso teve muitas voltas e reviravoltas e cabe a Huppert assumir o papel de Maureen Kearney, uma mulher repleta de ambiguidades.

Foi em Paris que nos encontrámos com Huppert e falámos deste filme, da sua carreira e o que a move na escolha de um papel.

A Isabelle joga muito com a ambiguidade das suas personagens. Nunca sabemos bem se são boas ou más e manipuladoras. Isso é algo que a atrai?

Já houve tempos em que o cinema não se servia da ambiguidade. Eram bons ou maus em ação. Simone de Beauvoir escreveu o “

”, pois existe uma moral nessa ambiguidade. O cinema permite muito bem explorar a ambiguidade.

E o que a atraiu particularmente para assumir o papel da Maureen Kearney  em “A Sindicalista”?

O que me atraiu é a forma como ela se comporta, como má vítima e sua metamorfização ao longo do filme. Está sempre pronta para partir para o combate, mas também esconde-se e revela as suas fragilidades. Mas quando li o guião não formulei imediatamente o que iria ser no filme. De certa maneira, tanto este como o “La Daronne” são sobre pessoas que mudam, que se transformam.

E como estudou para fazer este papel?

Não posso dizer que “estudei”. Li o livro da Caroline Michel-Aguirre, mas descobri esta história um pouco como toda a gente. As pessoas que primeiro vão ver este filme são os jornalistas que acompanharam o caso. É uma história até recente, que soube dos detalhes através do livro. O que achei principalmente interessante no livro é a suspeição generalizada, em que ela passa de vítima a culpada naquele pequeno período temporal. Temos de nos pôr um pouco na pele dos que acreditam nela e naqueles que não. Infelizmente há mais gente que não acredita nela do que a que acredita. O problema dela, na verdade, é como o do nascimento dos rumores, chegando a um ponto onde até o marido desconfia da história dela. Tudo o que lhe aconteceu é tão inimaginável e incrível que ninguém acredita nela. 

E encontrou-se com a Maureen?

Sim. Ela veio duas vezes visitar-nos nas filmagens, mas trocamos apenas duas ou três palavras. Ela já viu o filme, pois ele estreou num festival na Bretanha e ela foi lá. 

Isabelle Huppert e Maureen Kearney

O filme aborda um tema muito contemporâneo:  quando alguém apresenta uma queixa de violação, a primeira reação é não acreditar na pessoa. Muita coisa mudou na nossa sociedade, mas esta questão parece que não…

Sim, e as estatísticas são gritantes. Parece algo louco. Elas são ouvidas, mas depois ou as penas são muito ligeiras ou inexistentes.

A Isabelle é uma atriz arrojada, especialmente na sua conexão com projetos onde a violência é aplicada sobre alguém. E essa violência não é apenas física, mas psicológica. 

Essa é uma percepção completamente externa a mim. Um ator faz o que faz. Sou boa atriz, mas sou ainda melhor espectadora. Por isso sei como me deixar impressionar, investir emocionalmente e colocar-me em cena.

Neste ponto da sua carreira, o que procura e deseja no cinema? Como escolhe os papéis?

Muitas vezes essa escolha nasce de um encontro com um realizador. Não são os papéis em si, propriamente, que me atraem, mas um conjunto de coisas que me levam a aceitar esta ou aquela personagem. Não existe um realizador ou encenador sem uma visão, um olhar. Seja no cinema ou no teatro. Existe muita intuição na escolha após avaliar um conjunto de coisas.

Com tantos anos de carreira e depois de trabalhar com tantos cineastas, nunca pensou passar para atrás das câmaras?

Ser realizadora exige muita energia e sou demasiado preguiçosa para isso. (risos)

Num artigo do New York Times, que falava dos atores mais influentes e importantes do século XXI, o Denzel Washington estava em 1º, o Daniel Day-Lewis em 3º e a Isabelle em 2º. O que é que esta lista lhe diz?

Creio ser mais uma atriz francesa que internacional. (…) Fiquei surpreendida com essa lista e em cada uma das escolhas havia um pequeno comentário sobre o ator/atriz. No meu caso, escolheram falar bastante do “Greta”, que não foi um sucesso nos cinemas, mas tem vindo a conquistar um espaço de culto. Ainda assim é estranho, embora esteja na lista por causa das minhas escolhas ousadas na carreira. Também falaram de “A Pianista”.

Pegando nessa ousadia, também a vimos recentemente num pequeno papel no “EO”. Como nasceu essa participação  no filme do Jerzy Skolimowski?

É um amigo de longa data e tínhamos um projeto em comum que nunca conseguiu ir para a frente. Era um projeto belíssimo, mas às vezes não conseguimos levar para a frente as coisas que queremos. Era um filme baseado numa novela da Susan Sontag, “In America”, sobre uma empresa que se muda da Polónia para os EUA, na Califórnia, e criam uma comunidade. Desde esse tempo fiquei muito amiga do Jerszy e ele convidou-me para participar no “EO”.

O que se segue na sua carreira?

Estou neste momento a filmar com o André Téchiné, alguém com quem não trabalhava desde o “Les Sœurs Brontë” em 1979. 

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