Estreado no último Festival de Cannes, e exibido recentemente no IndieLisboa, “Rodeo” marcou a estreia nas longas-metragens de Lola Quivoron.
Numa viagem ao mundo do motociclismo urbano, em “Rodeo” seguimos Julia, uma jovem fascinada pelo motociclismo que um dia conhece um grupo de rapazes e faz de tudo para ser aceite e participar nos circuitos urbanos clandestinos. Mas essa viagem não é fácil e, embora a sua perícia seja reconhecida por quase todos, um acidente vai pôr tudo em causa.
Foi em Paris que nos sentámos à mesa com Lola Quivoron e falámos deste “Rodeo“, o qual escreveu em parceria com Antonia Buresi.
Numa entrevista disse que o seu filme ia além do realismo, um pouco surrealista sem ser surreal. O que pretendia, esteticamente, levar ao grande ecrã?
Queria este filme muito próximo da energia daquela prática, do motociclismo, e nisso arrancar a verdade das personagens. Nesse sentido, quis sempre estar perto dessa realidade e que através da linguagem dos grandes planos fossemos mais além desse mesmo realismo. Nós ultrapassamos o realismo através de escolhas estéticas muito fortes, quer seja através do aumento do escopo dos contrastes, das imagens granuladas, das cores e até do CinemaScope, que está ali para dar uma presença ainda mais forte às paisagens e à linguagem dos grandes planos.
Para dizer a verdade, aborreço-me muito com os filmes naturalistas e gosto destes truques de cinema, como se tivéssemos ali uma realidade aumentada em que até conseguimos ver os poros na pele e temos uma maior proximidade dos corpos e da sua fisicalidade. Demasiados próximos. É isto que penso que o cinema tem de ser, uma experiência totalmente diferente da vida quotidiana.
Quando falei sobre o surrealismo era um ir além da realidade, jogando com o género fantástico. A protagonista tem em si várias crenças. Ela acredita na morte e vive entre ela e a própria vida. E está também entre géneros, masculino e feminino, além de se posicionar entre a realidade e os sonhos. Daí a abordagem às vezes surreal no filme, do queimar-se e renascer como uma Fénix. Isto era uma fantasia poética que também queria ter no filme, uma espécie de transcendência nas suas crenças.

Disse que se aborrece com o naturalismo. Tendo em conta isso, como fez – em particular com a Julie Ledru – para arrancar dela uma performance longe desse naturalismo?
Quis que ela fosse uma atriz (risos). Escolhi-a porque ela costumava escrever muito e estava envolvida na comunidade motociclista. Nela estavam já muitos elementos que encontramos no guião, como a raiva, a forma como é capaz de combater, a sua luta por reconhecimento e a sua dinâmica entre homem e mulher. Quando nos conhecemos, a primeiras histórias que partilhamos foi sobre as nossas experiências e em particular as que ela teve. Mas para construir a sua personagem ela teve de trabalhar muito. Ela tinha de encontrar na sua personagem o propósito, intensidade. Na verdade, penso que a maneira que ela interpreta a personagem até pode ser natural, mas o que era essencial para mim era acolher esta performance naturalista, mas distorcê-la através da mise-en-scène, do movimento e depois na montagem, onde crio várias camadas de realidade e além dela.
Sim, as performances são naturais, mas todos eles atuam verdadeiramente e estão longe das personagens que interpretam. Todos tiveram de trabalhar muito para essa construção.
Disse que havia muito da Julie na personagem que interpretou. Existe muito de si nessa mesma personagem?
Sim. Quando construímos uma personagem, escrevemos a partir de muitos elementos e material. É algo complexo e não-binário, fugindo assim às caricaturas. A personagem da Julie está assim carregada de imensas inspirações, seja em si mesmo e nas suas experiências naquele mundo, mas também da minha leitura política, ou seja, uma visão antirracista e transfeminista. Há uma obra que acho extremamente interessante e que é de um filósofo franco-espanhol, Paul B. Preciado, que é transexual, que me ajudou muito a me construir e desconstruir. Graças a ele consegui situar-me em algumas definições e denominações. Considero-me uma pessoa não-binária, ou seja, alguém que não se apresenta totalmente nos estereótipos e representações típicas do feminino e masculino. E como a Julie sou incapaz de viver sobre os códigos do masculino e feminino. Na verdade, sou fluída, alguém em movimento numa sociedade cristalizada em conceitos. A personagem da Julia é igualmente assim. Esta pessoa não-binária deu-me bastante liberdade para criar e representar, longe de determinismos e estereótipos de género.

