François Cluzet nas sombras do negacionismo e antissemitismo

Cluzet brilha em “L’Homme de la Cave” (Um Intruso na Cave), atualmente nos cinemas nacionais

(Fotos: Divulgação)

Um dos maiores nomes do cinema francês atual é, sem sombra para dúvidas, François Cluzet. E apesar de já ter protagonizado papéis sombrios ao longo do seu percurso, como o inesquecível Paul em “O Inferno” de Claude Chabrol, tem sido em registos mais ligeiros, como “Intouchables” (Amigos Improváveispt),  “Les Petites mouchoirs” (Pequenas Mentiras Entre Amigospt) e “Médecin de campagne” (Médico de Provínciapt), que este ator tem construído a sua imagem no cinema e conquistado uma legião de fãs.

Em “L’Homme de la Cave” (Um Intruso na Cave), Cluzet requisitou o que de mais negro existe em si como ator, para entregar uma prestação memorável no papel de Fonzic, um professor antissemita e negacionista do Holocausto que vai fazer da vida de um casal (interpretado por Bérénice Bejo e Jérémie Renier ), que lhe vende um espaço (uma cave), um verdadeiro inferno.

De notar que a personagem de Fonzic é inspirada em Robert Faurisson (1929-2018), um professor universitário e ensaísta francês que ficou conhecido por negar o genocídio de judeus durante a Segunda Guerra Mundial, o que o tornou a primeira pessoa a ser condenada com base na Lei Gayssot (1990), que proíbe a negação dos crimes contra a Humanidade estabelecidos pelo Tribunal de Nuremberga.

Foi em janeiro de 2021 que nos sentámos à mesa com François Cluzet e descobrimos o que o atraiu a este papel e como o interpretar este “canalha” exigiu dele um estudo humano da sua personagem para evitar cair na caricatura. 

Como foi encarar e construir o Fonzic? O que o levou a aceitar este papel?

Propuseram-me um papel monstruoso, mas magnífico. Dentro da nossa vida de atores, estes papéis oferecem-nos a chance de sair das comédias e entrar num registo de drama total. Nunca tenho medo de assumir estes papéis mais obscuros. A minha esposa tem esse medo, que me confundam de algum modo com a pessoa que interpreto. Isso já aconteceu uma vez na vida, quando protagonizei “L’ Enfer(O Inferno) de Claude Chabrol, onde era um psicopata perigoso. Mas creio que aceitar estes papéis faz parte do nosso dever, como atores.

Trabalhei com um encenador que me dizia que se os atores não aceitam interpretar o papel de monstros, ninguém o fará. E se isso acontecer, nunca veremos como um monstro respira, pensa e fala aos outros. Como ele é capaz de dizer as coisas atrozes que pensa. 

Para mim é um dever e uma forma de passar entre registos diferentes, mantendo questões sociais e políticas na agenda, como o racismo, antissemitismo, etc. Achei formidável neste momento assumir este papel. Tive prazer em interpretar este canalha e ver como funcionam estes monstros. E perceber também que esses monstros não o são a 100%. Procurei também as suas qualidades e muitas vezes, durante o filme, perguntamos quem é este tipo que, a espaços, é charmoso e inteligente. E vemos isso especialmente no contacto com a adolescente. Aí vemos como ele usa esses elementos para a convencer de uma forma perversa as coisas que acredita, usando no processo uma forma de ternura e gentileza. Atraiu-me principalmente a forma humana e perversa desta figura.

Como o realizador, Philippe Le Guay, lhe ofereceu o papel? Ficou surpreendido com o convite?

Não é fácil fazer um filme assim e nem todos os criadores têm coragem para avançar para isto. São muito raros os realizadores que arriscam num tema assim. Muitas vezes confundimos distração com divertimento. Há cada vez mais espaço para comédias e menos para filmes com temas profundos, como este.  Aqui, o meu objetivo era desconstruir um monstro. Quem é este homem e como se tornou assim, perigoso para a sociedade. Para mim era essencial que este filme existisse e espero que encontre público no meu país.

François Cluzet e Bérénice Bejo

Que investigação fez para entrar neste papel? Falou com as pessoas que viveram esta situação?

Encontrei-me com o casal que passou por isto tudo. Foi terrível. Não só se separaram por causa de tudo, mas particularmente a mulher sofreu enormemente com tudo o que aconteceu. Porque em todo o seu quadro familiar, existia efetivamente um judeu que viveu durante a ocupação nazi e que teve de passar por esta questão atualissima do negacionismo. Para ela, foi um enorme desafio. Toda a história da sua família foi confrontada por um negacionista. 

Existe nesta figura negacionista a tendência de se posicionar como vítima. Foi complicado compreender este posicionamento, com toda a complexidade e perversidade que isso trazia com ele?

Sim, foi complexo encarar isso, mas simultaneamente isso dava riqueza à personagem. Estudei a personagem e em cada cena existia um trabalho a fazer. Até porque, mesmo quando a minha personagem não está em cena, ela está. É omnipresente em todos os momentos, o que a torna uma personagem principal. Nunca tive medo de enfrentar esta questão, porque a beleza e riqueza do papel era torná-lo credível. Eu tinha de dar credibilidade a este canalha, por isso tinha de o encarar como humano e nunca cair na caricatura. O que me interessava mais era encarar as suas qualidades e falhas, fazendo o espectador pensar nele.

Há nele igualmente uma criação visual, ou seja, a personagem vai além do que diz ou pensa:  a maneira como ele se veste e movimenta mostram também o que ele é. Como foi esse trabalho de construção visual da figura que temos pela frente?

Trabalhei muito na questão do guarda-roupa. Venho do teatro e o guarda-roupa são sempre acessórios imprescindíveis que contam também a história da personagem. Toda a gente, incluindo o cineasta, tinha ideias claras sobre a imagem da personagem, mas eu tinha um pensamento muito próprio sobre a questão. Eu queria, por exemplo, usar um tipo de camisa que há 20 anos deixou de ser moda, mas que as pessoas mais pobres continuam a usar. Essa camisa, a gravata, o casaco, etc, prolongavam, estendiam as ideias da personagem. E a forma dessa roupa já estar um pouco descolorida, com o passar do tempo, também nos acrescenta algo sobre ele. O aspeto físico, a aparência da minha personagem, é algo que trabalho muito antes das filmagens.

Jérémie Renier e François Cluzet em “L’Homme de la Cave”

Falou à pouco de distrair e se divertir como elementos díspares na função do cinema. O que quis dizer com isso?

A grande virtude do cinema é divertir. Mas divertir significa carregar a nossa voz e ideias. Hoje em dia estamos mais na fase do distrair, ou seja, queremos nos rir, passar o tempo, sem necessariamente pensar no que estávamos a ver. Se tudo estivesse bem hoje em dia, não existiriam dramas no cinema. 

Pensando nisso, tem confiança no futuro do cinema e das salas de cinema?

Creio que as salas vão continuar a existir, mas acho que quem mais vai ganhar com estas novas plataformas e a exposição dos filmes em todo o lado é o teatro, pois realmente apresenta um espetáculo diferente. Eu venho do teatro e amo o teatro, por isso se o cinema decair, tenho sempre o teatro. A pandemia afastou as pessoas do cinema e observamos, sem razão, o medo de ir às salas, diminuindo assim a sua frequentação. Acredito no futuro do cinema, mas o cinema que acredito é o dos autores. Tudo isto trouxe uma grande generosidade entre os atores mas, especialmente os maiores nomes, devem pensar em filmes como cinema e não apenas em “papéis”. Os papéis são importantes, mas a direção deles é essencial. 

Estes períodos de crise têm-se repetido na história e creio que o maior drama em tudo isto foi para os distribuidores. Quando damos a um distribuidor a ideia para um filme, eles avançam com o dinheiro para os produtores. Depois, o filme, com algo como a pandemia, não consegue chegar às salas e eles não têm dinheiro para recuperar o investimento. Muitos distribuidores, neste momento, fecharam a torneira. Muitos produtores também. Se os maiores podem sobreviver minimamente com os seus grandes catálogos, os outros dependem do retorno financeiro imediato, tornando a situação insustentável.

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