Verão de 2014: os campos de girassóis e as minas de carvão no leste da Ucrânia, por 12 km, transformam-se num verdadeiro cenário de um crime. O voo MH17 das linhas aéreas da Malásia é abatido. Material recolhido junto do avião, em particular os estilhaços encontrados junto do piloto, apontam para um crime efetuado por tropas apoiadas pela Rússia. Segue-se a negação, a propaganda e uma recusa efetiva das acusações, que chegaram mesmo a tribunal.
Pegando neste tema sensível, que ganhou uma nova dimensão com a invasão no ano passado da Ucrânia, por parte da Rússia, o realizador Roman Liubyi reconstrói os eventos através de um documentário que não se rende apenas ao folheto informativo ou inquisitivo, mas sobrevive igualmente como objeto artístico. Presente em Sundance e agora em Berlim, “Iron Butterflies” foi o nosso principal motivo de conversa com Roman Liubyi.


Como vê a política europeia em relação à Rússia depois deste caso ter acontecido?
Acho que os europeus não entendem realmente que o governo russo é criminoso. Tudo o interessa a esse governo é poder, chegando mesmo a gozar com o tribunal que julgou o caso e a sua decisão. Provavelmente, todos os europeus envolvidos no processo fizeram o melhor que sabiam fazer, mas era e é preciso muito mais. Há que lutar para, de alguma forma, punir os criminosos.
E acredita que, um dia, esses criminosos serão punidos?
Sim, acredito nisso e que este julgamento seja o princípio da punição.
Como nasceu a ideia e começou o processo de criação deste documentário?
Estava a trabalhar em dois documentários curtos, sobre casos criminais de guerra, até que chegamos ao maior deles, a 17 de maio. Interessava-me também falar da máquina de propaganda russa, algo que imediatamente se sentiu neste caso particular. Este era um caso que não tinha apenas uma dimensão local, mas internacional, e por isso mesmo os russos começaram logo a produzir material. Olhei para isto com olhos de realizador e não de ativista. Este voo e avião era como se fosse um território, com o seu próprio ecossistema. E acaba por ser surreal que esta máquina voadora consiga ser derrubada. (…) Tinha assim um filme sobre guerra e propaganda, mas desejava também que existisse um espaço para arte, para um certo misticismo, algo para lá deste mundo físico.
E é aí que entram aqueles momentos mais artísticos que se colam aos grandes blocos de informação que nos vai dando?
Sim, mas para mim a sua presença é natural. Por vezes há momentos e gestos que surgem em cena como uma forma de evitar o uso de palavras, isto dá um input pessoal numa história coletiva.
Teve de lidar com muito material, imagens de arquivo, recolhidas, etc., para criar este documentário? Como foi esse processo de seleção e escolha de todos estes pedaços de História?
Fui ao sabor do momento e não foi necessário ter de “escavar” muito para encontrar as imagens. Por exemplo, não investiguei muito os meios de comunicação russos. Reuni apenas as peças jornalísticas de maior poder, numa forma que leve as pessoas a questionar como é que tudo isto foi possível acontecer. Nunca quis desviar o foco e trabalhei o material como se fosse uma série de TV.
Em Cannes tivemos o “Butterfly Vision” e em Sundance e Berlim vamos ter este “Iron Butterflies“. O quão importante é hoje em dia a presença de cineastas ucranianos nestes certames internacionais?
Acredito que presentemente o meu trabalho é debruçar-me em diferentes temas da realidade ucraniana, mas não estar preso a fazer filmes sobre a guerra. Já fiz duas longas-metragens sobre isso e não quero ficar agarrado ao título de cineasta da guerra. (…) Creio que temos de mudar o foco, de contar histórias ucranianas mas não apenas ligadas à guerra. Temos muita coisa para falar. (…) O meu próximo projeto é uma animação (“Unholy Power“) para as crianças ucranianas. Envolve muito do nosso folclore, por isso ajuda a mostrar a nossa cultura.

