Concorrente aos prémios de ficção de Biarritz, que arranca nesta segunda-feira em França, “Tengo Sueños Eléctricos”, de Valentina Maurel,ganhou a Horizontes Latinos de San Sebastián, no sábado, e teve uma tripla vitória em Locarno, em agosto: conquistou os prémios de Melhor Realização, Atriz (Daniela Marín Navarro) e Ator (Reinaldo Amien Gutiérrez). A cada nova láurea, a Costa Rica, país de origem do projeto e arena desta narrativa familiar, ganha mais visibilidade. Ou deveria ganhar, neste ano em que concorreu na Un Certain Regard de Cannes com “Domingo y la Niebla”, que vai representar o país nos Oscars. O futuro do pretérito nessa reflexão vem da própria cineasta. Conhecida pelas curtas-metragens “Lucía En El Libo” (2019) e “Paul Est Là” (2017), a realizadora, que tem também nacionalidade francesa, não se rende aos supostos bons augúrios que cercam a pátria na indústria do audiovisual.
“Essa aparente visibilidade que temos conquistado em festivais, historicamente inédita, não muda o facto de que nossos suportes públicos à Cultura vêm sendo ameaçados de cortes. E creio ser uma realidade que, infelizmente, anda sendo comum a todo o continente”, diz Valentina, cujo guião tão elogiado em San Sebastián se concentra na reestruturação afetiva de uma família, após uma separação, com foco no processo de amadurecimento de uma adolescente criada num ambiente artístico. “Falo sobre a condição afetiva de pessoas, tentando entender o que as move”.

Em “Tengo Sueños Eléctricos”, Eva (Daniela) e o seu gato são amigos inseparáveis que passam por problemas depois que a mãe decide expulsar o felino do seu lar. A saída para a menina é viver com o pai: um tradutor e aspirante a poeta (Reinaldo Amien) que não parece muito disposto a crescer, mas ama a filha sobre todas as coisas. No ecrã, esse enredo ganha um requinte plástico singular na fotografia de Nicolás Wong Diaz, hábil em dialogar com os códigos do realismo.
“É importante recusar a violência histórica do machismo, e denunciá-la, mas isso não significa não ter liberdade para retratar os homens a partir de um olhar de entendimento, sem juízos prévios, sem condenação. O universo das artes em que as personagens estão inseridas muda muito do perfil arquetípico histórico delas”.
Num dos trechos mais belos do filme, que justifica o título, o pai ensaia escrever estrofes. “A fim de criar esses versos, recorri às lembranças da liberdade que tinha em minha época de adolescente e me arriscava a escrever versos”, diz Valentina. “Havia uma liberdade rara ali”.
A premiação do Festival de Biarritz é no próximo domingo.

