Vencedor do Grande Prémio da Semana da Crítica de Cannes, “La Jauría” vem a San Sebastián, na reta final do festival espanhol, para tremular a bandeira do cinema colombiano, em fase de renovação e de diversidade. Andrés Ramírez Pulido, o seu realizador, explica ao C7nema que a longa-metragem inaugura uma safra de produções de uma região pouco ativa no audiovisual da sua pátria: Ibagué, capital de Tolima, um dos 32 departamentos (estados) da Colômbia. Fica a cinco horas de carro de Bogotá, num vale, que mantém uma temperatura anual de 24 graus. Lá, Andrés constrói uma narrativa fabular sobre um reformatório para jovens infratores, no meio de uma floresta, onde o ambiente de cárcere cria relações de lealdade. A trama é narrada a partir da prisão do adolescente Eliu, interpretado por um brilhante ator não profissional: Jhojan Stiven Jiménez.
“Foi um sonho ver-me no grande ecrã e colher o fruto do nosso trabalho“, disse Jhojan ao C7nema. Pulio explica na entrevista a seguir qual é o contexto industrial da arte cinematográfica do seu país.
Qual é o maior desafio de retratar um ambiente de prisão, sobretudo pela mirada juvenil, sem cair na antropologia?
Tentei fazer um filme que confiasse na força da alma humana, e na fábula, indo além do lugar social histórico que é perseguido pelo cinema latino-americano sempre. Para isso, a sua dramaturgia investe em diferentes camadas, entre elas, o facto de os meninos encarcerados construírem uma prisão existencial paralela ao espaço que os confina, estruturando uma espécie de lugar imaginário enigmático. E isso se dá no interior deles. Eu acedo esse lugar tentando me aprofundar em cada uma das personagens.
De que maneira “La Jauría” representa a atual movimentação do cinema colombiano?
O Brasil é um continente. A nossa realidade cultural é distinta, por exemplo, do que alimenta o cinema brasileiro. Mas, assim como no Brasil, não há coesão entre os filmes que são feitos nas diferentes regiões do meu país. Ou seja, há muitas miradas. Há pluralidade. E essa condição plural indica de onde nos estamos a ver. E como. O tema da guerrilha foi muito forte historicamente. Mas filmes como “La Jauría” tentam ir para além disso. E isso é possível, em parte, por sermos de um outro território, de um lugar com pouca representação no audiovisual.
Mas existe algum marco histórico no cinema da Colômbia?
Existem alguns filmes, de diferentes momentos. E existe Victor Gaviria, que teve muita influência, além de Luis Ospina. Entre os filmes que nos marcaram, posso destacar “La Vendedora de Rosas“, de Gaviria, e “Agarrando Pueblo“, de Ospina.
Diante do peso histórico de haver um Nobel na cultura de vocês, com a aclamação literária de Gabriel García Márquez, o quanto o cinema sofre com possíveis comparações com o êxito da sua prosa?
O que mais me incomoda nisso é a percepção de que tudo o que produzimos é, ou parece ser, realismo mágico, a partir da herança de García Márquez. O que fiz não é isso. Vai por um outro caminho. Há uma variedade de caminhos para a arte.

