Acostumado a retratar o quotidiano de figuras do dia a dia da Itália numa mirada documental de tons paradoxalmente fabulares, como visto no premiado “As Quatro Voltas” (2010), o cineasta milanês Michelangelo Frammartino arrebatou o Festival de Veneza de 2021, e saiu de lá com o Prémio do Júri, com uma experiência de não ficção por cavernas de seu país que mais parece um tratado de fantasia: “Il Buco” (Das Profundezas), uma verdadeira máquina do tempo. Ela viaja até os anos 1960, durante um boom económico na terra natal do cineasta, onde o edifício mais alto da Europa está a ser construído no Norte daquela nação. Do outro lado do país, jovens espeleólogos exploram a caverna mais profunda do Velho Mundo, no intocado interior da Calábria. O fundo do Abismo Bifurto, a cerca de 700 metros abaixo da Terra, é alcançado pela primeira vez.

A aventura dos intrusos passa despercebida pelos habitantes de uma pequena aldeia vizinha, mas não pelo velho pastor do planalto de Pollino, cuja vida solitária começa a se entrelaçar com a jornada do grupo. Ao olhar para trás e rever essa aventura, o realizador constrói o que pode ser chamado como “meditação”, refletindo de modo quase místico sobre as profundezas incognoscíveis do mundo natural. Eis as suas reflexões geológicas e humanistas, trocadas com o C7nema via Zoom.
Qual é a sensação de solidão que reside em Bifurto?
Não há solidão, pois não estamos sozinhos na comunhão com a Natureza, na relação de se sentir uno com as montanhas. É uma experiência telúrica, que nos ressignifica o contato com a terra, a partir das rochas. E uma investigação espeleológica é um processo de curiosidades coletivas. Eu corria atrás de um conjunto de imagens que fosse capaz de “apresentar” e, não, de “representar”.
E de que forma essa experiência se conjuga com a tradição de cinema de um país que nos deu o neorrealismo, com Roberto Rosselini e De Sica?
A menção ao cinema dos neorrealistas me conforta, pois, para eles, a vida importa mais que os filmes. Os críticos franceses, por exemplo, amam a obra de Rossellini pelo facto de ela abrir mão do controle, na relação com o espaço, e se aproximar do imponderável. O espaço, em Rossellini, é uma lavoura. Neste filme, tenho pastores que observam o que se passa no interior de Bifurto. Posso filmá-los, mas eles não podem ser dirigidos, pois não é daquela natureza.
Como é que se pensa a luz numa narrativa que trabalha com cavernas como foco?
Escolhi um dos mais prestigiosos fotógrafos da Europa, Renato Berta, que filmou com gigantes como Philippe Garrel e Manoel de Oliveira, e dei-lhe o desafio de iluminar “Il Buco”, nas cenas de espeleologia, apenas usando as luzes das lanternas que se usam nos capacetes. Queria que ele extraísse poesia das trevas, fotografando na escuridão mais absoluta.
Que referências geológicas constroem a sua dramaturgia?
Os boletins espeleológicos são consultados e incorporados para narrar aquele mundo a partir de uma dinâmica que trabalha com o reconhecimento do que há de imponderável. É um filme que necessita da imersão no desconhecido.
Como encararia a presença de um filme como ‘Il Buco’ nos streamings?
Pensei o meu filme para a grandiosidade das telas das salas de exibição, cercadas de um espírito de coletividade. Descobri-lo numa plataforma seria reduzir as suas dimensões estéticas. Mas acredito na relevância dos streamings, quando eles têm uma ética de programação, sem se preocupar em passar de tudo, mas, sim, escolher. Se este filme fosse uma videoarte, como fazem Bill Viola ou Gary Hill, também solicitaria uma dimensão de receção diferenciada.

