Sylvie Ohayon: “em França estigmatizou-se muito a pessoa que vem do bairro dos subúrbios”

(Fotos: Divulgação)

“Filha” de um bairro dos subúrbios, daqueles que o cinema francês teima em apenas focar o lado da violência, a realizadora Sylvie Ohayon decidiu unir esse mundo “de clichês” com outro no seu mais recente filme, “Alta Costura“, no qual uma jovem que habita num desses bairros, Jade (Lyna Khoudri), acaba por se interessar pela Alta Costura após um encontro fortuito no metropolitano com uma das costureiras principais da casa Dior, Esther (Nathalie Baye). Um encontro que na vida real dificilmente aconteceria, explicou-nos a cineasta, que em janeiro passado nos contou um pouco mais sobre a origem do seu filme.

Sem citar nomes (com muita pena nossa), mas cansada de ver os bairros como aquele em que cresceu maltratados no cinema gaulês, até por cineastas que nunca conheceram realmente a pobreza, Ohayon explicou-nos os seus objetivos com este projeto que chega agora aos cinemas nacionais. 

Em primeiro lugar, o que a levou a fazer uma história com o nome Dior associado?

Bem, queria ter a Alta Costura envolvida no meu filme e em França existem duas casas: a Chanel e a Dior. Eu sou judia. A Chanel colaborou nas práticas antissemitas durante a guerra. Ficámos então só com a Dior. Eu e o meu produtor falamos com eles e pedimos para usar o seu nome e alguns vestidos emprestados. Eles autorizaram.

No seu filme anterior, “Papa Was Not a Rolling Stone”, já falava de uma jovem que queria sair do seu quotidiano. O que a atrai a este tema?

Sou uma autora e também escrevo livros. Quando faço cinema falo de mim própria. Quer a personagem da Esther (Nathalie Baye), quer a Jade (Lyna Khoudri), têm elementos de mim. Sou eu que estou ali. Tenho um lado muito agarrado ao trabalho, ao rigor. Tenho a seriedade da Esther! Mas, por outro lado, amo e tenho raiva do bairro onde cresci, como a Jade. Se sou o que sou hoje, se ganhei a força que tenho, foi lá. Mas foi muito complicado, ser uma jovem, sem irmãos, e crescer ali naquele bairro. E o meu pai era ausente e a minha mãe tinha problemas.

E escolheu envolver a Alta Costura para vincar a distância entre esses dois mundos?

Exatamente. Juntei dois mundos que não estão destinados a conhecerem-se. No mundo real, a Jade e a Esther nunca se encontram.

E é essa Alta Costura que a ajudou a criar uma distância entre os elementos autobiográficos e a ficção?

Sim, é esse elemento e a transmissão de uma amizade improvável que criou essa distância.

Lyna Khoudri e Nathalie Baye em “Alta Costura

A escolha da Lyna Khoudri, para o papel de Jade, como se processou? Ela está formidável…

Sim, é o realizador que escolhe os atores, mas o meu produtor tinha ido a Cannes e falou-me dela no “Papicha”. Ele disse-me para eu ir ver o filme, pois ela estava muito bem nele. Não fui a Cannes nesse ano, mas vi o filme numa sessão normal de cinema. Fiquei entusiasmada com ela.

O “Papicha…que curiosamente também tem no seu enredo de emancipação um vestido.

Sim. Sabe, é curioso. Eu e a Lyna vimos do mesmo bairro. Andamos na mesma escola, etc. E só pela sua atitude consigo ver que ela nasceu e viveu ali.

E quanto à Nathalie Baye, como foi essa escolha?

Também a escolhi. Sabia que ela era honesta, vigorosa. A sua austeridade era ótima para a personagem. De um lado é alguém de muito trabalho, sem necessariamente ser simpática. Mas atenção, a Nathalie é super divertida na vida real (risos), mas consegue nos prender com a seriedade que transmite.   

Um dos momentos mais fortes do filme é o encontro das duas figuras de mundos diferentes no metro…

A única coisa que a Esther tem interesse na vida é o seu trabalho. Ela é muito honesta e sincera com esse trabalho. Já a Jade vem do bairro… (…) Sabe, em França, estigmatizou-se muito a figura da pessoa que vem do bairro dos subúrbios.

É crítica perante a imagem desses bairros no cinema francês atual?

Sim. Bem, até há uma realizadora, que não vou nomear, que tem um filme sobre esses bairros mas que nunca os conheceu de todo. Alguém que não conhece os pobres, pois vem de um meio de ricos. Ás vezes tenho a sensação que olham para os bairros como um zoológico. E esses bairros não são assim como pintam. Por exemplo, mesmo sendo de outros tempos, o Pialat tinha legitimidade para falar da pobreza, pois era um verdadeiro proletário. Hoje em dia, quando falamos dos bairros dos subúrbios, falamos apenas da violência. (…) Existe mesmo um fascínio local por esse tipo de filmes. A realizadora em questão não sabe nada do que fala no seu filme. Bem, também não é grave. Esse filme encontrou o seu público…

Nota-se que ama, ao seu jeito, o sítio onde cresceu. Como é que esse local a formou? E essa vida, como se concilia com o que é agora, com o seu trabalho atual e experiência de vida?

É uma riqueza como um bouquet de flores muito colorido de experiências. Na época, quando entrei na Sorbonne fazia parte do 1% que vinha dos subúrbios. Logo no primeiro dia que cheguei à faculdade, uma jovem atacou-me verbalmente. Disse que eu era uma “filha da rua”. Eu agredi-a, ela caiu, etc. Bem, disseram-me logo que a minha vida ia ser difícil, que o pai dela era ministro. Eu não quis nem saber… Numa conversa à noite sobre o sucedido com a minha avó, ela falou da minha coragem e isso deu-me força. Hoje tenho um grande apartamento em frente à Torre Eiffel, e é isto…

Essa estigmatização a esses bairros nos filmes, como contornou os clichés na escrita do guião?

É um mundo que conheço de coração. Além disso, fui o mais honesta possível. Temos de ver que vamos sempre encontrar clichês, pois eles existem. Sim, a violência, as pessoas que se afastam do ensino ou nunca a tiveram, as pessoas agarradas à televisão, etc. Mas no campo, no mundo rural, também existem clichês e são filmados. 

E no mundo da Alta Costura também existem…

Sim, por isso foquei-me em filmar as pessoas que trabalham nela. Não os estilistas ou as casas em si, estou-me a borrifar para eles, mas os restantes trabalhadores. Os que fabricam realmente um vestido…as costureiras…

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