Um filme com a missão de relembrar os erros do passado, documentando o contexto histórico de uma época, vive ou morre das personagens que escolhe seguir. Felizmente, a protagonista de Papicha, Nedjma, é interpretada com vivacidade por Lyna Khoudri, cujo desempenho apaixonado, alimentado por um elenco jovial cheio de energia, enche a Argel de 1997 de ritmo e fervor. Infelizmente, as relações que se estabelecem entre as personagens são frequentemente desconsideradas e descuidadas, enfraquecendo o coração desta história e, com ela, o do filme.

A realizadora Mounia Meddour centra o enredo num grupo de amigas universitárias, pois são elas o setor da população mais perseguido pelos movimentos extremistas do Islão responsáveis por desencadear a guerra civil argelina. Face à injustiça, à discriminação e à opressão por parte de grupos religiosos armados, estas jovens mulheres pouco mais conseguem fazer que atirar coisas ao chão, gritar para serem ouvidas, e continuar a viver – porque é efetivamente o seu mero viver em liberdade que é contestado e obstruído. O problema é que Papicha é o equivalente fílmico desse bradar aos céus, sem nada propriamente a argumentar senão a opor numa lógica dualista “os bons” contra “os maus”. Já escrevia Lobo Antunes com ironia há cerca de 50 anos: “Coitados, pensavam que eu gostaria de ler histórias de pessoas sem contrastes, em que os bons são sempre bons e os maus sempre maus, e a bondade e a maldade se acham divididas por uma muralha da China bem definida, e ainda bem, para sabermos de que lado convém estar”.

Não se trata de menosprezar a mensagem que Meddour urgentemente quer transmitir, pois essa é do maior interesse, e bem sabemos como a história se tende a repetir. Porém, para citar outro grande nome do século passado, “o meio é a mensagem”, e enquanto obra cinematográfica Papicha é bastante simplista. Não só o argumento desilude na forma como salta sobre amizades narrativamente importantes (a relação de Nedjma com Linda, da qual depende um passo essencial do enredo, nunca é representada), como certas escolhas estilísticas são desajustadas na sua tentativa melodramática (destaca-se o uso dissonante de Vivaldi).

O que Meddour consegue ainda assim construir é um relato emocionante de uma geração oprimida, que, perante um país com umas escassas três décadas de independência, vê o seu futuro de novo em risco. A instabilidade política, social e económica da Argélia faz dela um “país sala-de-espera” para estes jovens, que, regra geral, emigram assim que têm oportunidade, principalmente aqueles que estão sob ameaça direta, como é o caso das mulheres. E essa é, enfim, a crítica feminista a que – desde os primeiros minutos até ao final – Papicha subscreve, para o bem e para o mal.

Pontuação Geral
Guilherme F. Alcobia
papicha-num-pais-sala-de-esperaCom uma mensagem política clara, importante e simplista em doses iguais, Papicha é um relato histórico que, tentando ser inspirador, se desleixa e se mantém superficial.