Amigo Secreto: Inventário das cicatrizes, retóricas e fantasmas milicianos

O novo documentário da diretora Maria Augusta Ramos, premiada em Berlim com 'O Processo', faz uma celebração do jornalismo independente em temos de crise política no Brasil de Bolsonaro

(Fotos: Divulgação)

No calor das especulações, acerca da disputa entre Jair Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva, um novo filme da documentarista Maria Augusta Ramos – realizadora premiada na Berlinale de 2018 com O Processo– entra no cartaz do Doclisboa cartografando as guerras retóricas que se estabeleceram desde o golpe de 2016, em que Dilma Rousseff sofreu um impeachment.

Já em circuito, “Amigo Secreto” reafirma a força da parceria entre a realizadora de Juízo (2007) e Justiça (2004) – ambos na Netflix – e a montadora Karen Akerman na edição de imagens dos embates políticos entre a esquerda e a direita numa pátria latino-americana que sofre com as metástases das células milicianas. No seu novo documentário, Maria Augusta faz uma celebração do jornalismo ético, independente, em meio à entrada do ex-juiz Sergio Moro no governo de Bolsonaro, em 2019, o que coincide com o vazamento de mensagens trocadas por ele com procuradores da justiça e autoridades. Essa troca abala a credibilidade da Operação Lava Jato, nome dado a um processo judicial e policial de caça à corrupção. Um grupo de jornalistas acompanha os desdobramentos do caso, enquanto o país mergulha numa sequência de crises que começa a ameaçar a sua democracia.

Na entrevista a seguir, Maria Augusta explica o engenho de seu processo narrativo.

Nos momentos finais do filme, a frase “A imprensa comprava tudo”, dita na reunião do jornal online Intercept, parece balizar uma certa miopia que tomou conta do discurso político na imprensa brasileira. Que sinais dessa miopia encontrou ao seguir os passos dos jornalistas que esquadrinhavam o processo da Java Jato?

Importante dizer que essa frase, quando dita no filme, é a reprodução da fala de uma ex-assessora de imprensa da Lava Jato, em entrevista para a repórter Amanda Audi, no Intercept, em outubro de 2018. Foi muito antes de surgir a Vaza Jato. É importante reforçar isso para mostrar que essa miopia, como você chama, não é algo possível de ser apontado apenas após a divulgação dos diálogos. Há muito que já havia indícios bastante consistentes de que a Lava Jato agia por interesses políticos e violava o sistema acusatório, mas a essa leitura não era dado espaço, em razão dos resultados políticos alcançados. E, aí, podemos colocar a própria eleição do Bolsonaro, abraçando um discurso lavajatista e levando, de forma inacreditável, Sergio Moro para o seu ministério.

Reunião de pauta de jornalistas que avaliam as estratégias da Operação Lava Jato

A sequência em que Lula diz que a sabatina (o inquérito) feita por Moro parece mais um ataque a uma forma de governo (no caso, o de esquerda) e não uma caça pessoal a ele, corroborada com o discurso final sobre Democracia na Alemanha Nazi (feito por um dos depoentes), parece traduzir a campanha de desmoralização de uma prática de governo alheia à presidência atual. Em que momento o filme, na sua construção, viu-se diante da escolha de afirmar essa desmoralização ou relativizá-la? Em que pontos houve a dúvida – se é que houve – entre essa narrativa ser retórica ou dialética? O que guia a dimensão argumentativa da sua montagem?

Essa questão não foi colocada em um momento específico da montagem ou nesse filme especificamente, mas se trata de uma questão ética de todo o meu cinema. É óbvio que a montagem de um filme é a construção de um discurso, e que esse discurso não é neutro, ele vem alimentado por todo um sistema de crenças e valores. Ele não está fechado, entretanto, ao contraditório, ao conflito de pontos de vista e visões de mundo. Ainda que o filme apresente um discurso fechado, que a palavra final seja minha, em diálogo com a Karen Akerman, a montadora, ele busca apresentar elementos discordante. Isso pode ser visto, por exemplo, na sequência que trata do julgamento da suspeição do Sergio Moro. A contradição entre os resultados alardeados pela Lava Jato e a corrupção da própria operação é apresentada ali de maneira bastante clara, acredito. “É possível combater o malfeito passando por cima dos preceitos legais?” é uma pergunta que o filme deixa no ar. E o faz sem deixar de se posicionar, pois, no limite, abrir essa possibilidade é entregar o país à lógica miliciana que tenta se instalar por aqui hoje.

Como é a conceituação estética de se trabalhar com arquivo nesse filme e no seu cinema? O que é o arquivo que o jornalismo vivo da imprensa, da TV, de blogs, das reportagens do El País e do Intercept te oferecem?

Esse filme recorreu a alguns arquivos à medida em que as nossas personagens também recorriam. Ou seja, a releitura da Lava Jato que o filme propõe é feita de um constante retorno a esses momentos-chave: a denúncia do power point, a audiência do Lula com Sérgio Moro, a delação do Marcelo Odebrecht, a primeira entrevista de Lula ao “El País” etc. – feito por esses jornalistas. E não deixa de ser revelador retornar a eles depois de tudo que a Vaza Jato mostrou. Ver, por exemplo, o ex-presidente Lula altivo, desafiando os procuradores e o juiz que o condenou, acusando a sua parcialidade, semanas antes das revelações do Intercept, é algo bastante impressionante.

A realizadora Maria Augusta Ramos

Qual é a memória política que o filme regista ou mesmo cria ao revisitar cinco anos de crise política?

Em uma conversa com o Pedro Serrano, que não entrou na edição final do documentário, ele relembra como era difícil, nos momentos áureos da Lava Jato, fazer a crítica aos métodos da operação em alguns espaços internacionais. Mesmo lá, a Lava Jato ainda era vista como um caso de sucesso no enfrentamento à corrupção. Estávamos já no final do nosso processo de edição quando chegou a notícia de que a Comissão de Direitos Humanos da ONU havia considerado parcial o julgamento do ex-presidente Lula feito por Sergio Moro. O filme faz, de uma certa maneira, o percurso que levou de um entendimento a outro, dando protagonismo ao jornalismo ético e independente, capaz de corrigir injustiças e sem medo de se rever.

O seu filme tem uma (belíssima) natureza de síntese, em relação à situação de crise moral do Brasil de hoje. Mas que síntese cria?

Eu não saberia dizer em palavras, acho que o próprio filme é a resposta para essa pergunta. Acho que é, de certa forma, a continuidade de uma ideia que já vem de filmes anteriores: a Justiça brasileira tem inúmeros problemas e fragilidades – como bem mostra a nossa brutal desigualdade –, mas ela tem de ser criticada e aperfeiçoada, jamais destruída. O ataque às instituições e ao sistema de justiça, como vemos acontecer hoje, é o caminho mais curto para a barbárie.

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