Deu nas vistas em “A Residência Espanhola” e mostrou polivalência em mais de duas décadas de carreira em projetos tão diferentes como “Haute Tension – Alta Tensão”, “Mesrine”, “O Miúdo da Bicicleta”, “Mademoiselle de Joncquières ” e “The Young Pope”.
A belga Cécile de France é uma das atrizes francesas mais requisitadas da atualidade e voltou a trabalhar com Xavier Giannoli, uma terceira vez, em “Ilusões Perdidas”.
No filme, ela interpreta Louise de Bargeton, uma baronesa casada que acolhe Lucien (Benjamim Voisin) como protegido e de quem vai ser amante, levando o jovem a abandonar a pequena Angoulême e partir para Paris.
Falamos com Cécile de France sobre este seu novo projeto, os desafios que a sua personagem lhe impôs e como foi trabalhar novamente com Xavier Giannoli. E ficámos a saber que depois de participar nos três filmes da franquia “A Residência Espanhola” vai agora voltar a esse universo na série que Cédric Klapisch está a desenvolver como continuação e que será filmada brevemente na Grécia. Aqui ficam as suas palavras:
É o seu terceiro filme com o Xavier. Como é trabalhar com ele e o que ele lhe disse para dar vida à Louise de Bargeton?
Adoro o Xavier. É um dos meus realizadores franceses preferidos. Gosto de todos os seus filmes. Tudo o que ele me propõe, aceito. O meu primeiro filme com ele, “Quand J’étais Chanteur”, foi uma experiência de filmagem mágica. Não tinha ainda trabalhado em comédia quando fiz o filme e ele é alguém que impõe a beleza e graça. Nunca tinha feito até então aquele tipo de personagem. De certa maneira, foi ele que me introduziu no cinema de autor. Depois disso participei no “Superstar“, outras filmagens apaixonantes.
No “Ilusões Perdidas”, o que é tocante é que quando leio o livro e comparo com o guião noto que o Xavier dedica-se e interessa-se mais pela personagem da Louise. No livro ela é bastante fria, uma amante com maldade. Já no filme ele interessa-se pela sua dor, a sua atitude e o romance em que está envolvida. A estrutura sentimental da personagem é mais interessante. É alguém que não é livre. Para mim foi muito interessante interpretar alguém diferente ao que estou habituada.

E qual representou para si o maior desafio em interpretar a personagem da Louise?
O que sentimos nela é a ferida sentimental enorme de não poder decidir a sua vida, não poder viver um amor livremente. O não pode amar. Por isso, ela refugia-se na poesia, na literatura. Casada com aquele homem mais velho, vive o quotidiano sem interesse e num registo de monotonia. Sou exatamente o oposto dela: sou absolutamente livre. Havia assim uma responsabilidade histórica de recontar a vida destas mulheres e criar todo um percurso emocional ligado ao amor com o Lucien. A sua condição social impede-a de viver aquele amor, o que é algo de uma crueldade absoluta. Quando estamos interditos no amor, creio ser uma das piores coisas.
A sua interação e relação com o Lucien é fulcral para a história. Como trabalhou com o Benjamim Voisin a criação dessa intimidade? Como foi colaborar com ele?
É muito fácil trabalhar com o Benjamim. Ele abraçou e investiu muito na sua personagem. Conectámo-nos através de uma forma semelhante de trabalho. Sentíamos que estávamos a fazer um filme muito belo e universal. O filme fala da sociedade de hoje, mesmo que se passe há dois séculos. É a mesma sociedade capitalista e eu e o Benjami encarámos as coisas com um sentido de missão. Admiro-o bastante, pois era alguém que estava sempre nas filmagens feliz, excitado com as rodagens e sempre consciente da chance que lhe deram.
É frequente vê-la em filmes históricos. Esteve no “Mademoiselle de Joncquières”, tem na agenda o “Le Bal des Folles”. O “Ilusões Perdidas” é um grande projeto de época. O que a atrai a estes projetos e como é trabalhar neste ambiente com os décors, o guarda-roupa. etc?
É bastante divertido. Os atores são um pouco como as crianças. É como quando nos mascaramos. Sobretudo no “Ilusões Perdidas”, estamos perante verdadeiros décors antigos, em castelos reais. Isso para nós era como uma prenda, pois cada artefacto, cada vestido, ajudava-nos no nosso trabalho. E no filme há sempre um sentimento orgânico e não artificial. Até mesmo como espectadora tenho muito prazer em ver filmes de época.
Como disse, este é um filme histórico mas que fala muito dos dias de hoje. Do jornalismo, da crítica, etc. Hoje em dia vivemos uma sociedade do entretenimento. Como lida com isso, ou seja, com o jornalismo e crítica?
O retrato que tenho sobre a crítica evoluiu ao longo dos anos. Antes de fazer cinema, tinha uma visão um pouco sagrada da crítica de cinema, dava-lhe muito valor. Depois de começar a trabalhar compreendi que não passava, essencialmente, do julgamento de uma única pessoa. Hoje em dia houve uma democratização da crítica, ou seja, qualquer um pode dar o seu ponto de vista sobre algo, até de forma anónima e com muito ódio. Para mim isso são coisas que não têm lugar num espírito de crítica com integridade. Deixei de ler críticas pois o importante é o meu desejo em participar num projeto. Se depois disso ele é um fracasso, ou não gostam dele ou nem o compreendem é triste, mas faz parte da vida. É como um jogo. Mesmo que metas todo o teu coração em algo, essa cartada pode não ser boa. Para os atores não é tão grave, mas para os realizadores sim.

Também participou no “De Son Vivant” da Emmanuelle Bercot… Como escolhe os papéis que quer interpretar hoje em dia? É diferente do passado ou a sua forma de escolha é igual?
O que é diferente agora é que os papéis das mulheres que nos oferecem são mais interessantes. Quando escolho hoje em dia participar num filme o que me move é o mesmo: o guião, a história. Observo muito onde está o coração da história, o que um guião quer contar, não tanto o seu intelecto. Tenho sempre de me apaixonar pelo projeto.
Falando do passado, há muitos anos fez um filme de horror, o “Haute Tension”, mas depois disso nunca mais se aventurou no género. É um género que não a atrai assim tanto?
Nem por isso, podia perfeitamente fazer outro filme de horror. Atuar num filme desse género é muito difícil, é um desafio. Temos que ter a certeza que o guião é bom, que o filme será eficaz, que vai funcionar. Já me propuseram outros filmes. O “Haute Tension” foi muito importante na minha carreira e por isso recusei fazer outros porque poderia destruir o que consegui nesse. Para fazer um filme de horror, ele teria de ser tão bom como esse.
E ganhou muito protagonismo após a sua presença no “A Residência Espanhola”, que depois teve continuação. Podermos esperar o seu regresso na série que o Cédric Klapisch está a desenvolver?
Sim. Nós da geração da “Residência Espanhola” vamos aparecer como convidados. Os papéis principais da série são jovens. É interessante que pegamos na energia que existia na “Residência Espanhola” e transpomos para 25 anos mais tarde. Voltamos aos questionamentos da juventude daquela época.
A sua personagem foi bastante importante para a comunidade LGBT no passado. A série vai manter essa tradição?
Sim, a minha personagem continua lésbica e convicta.
Tem uma carreira internacional e trabalha igualmente para a televisão. Dá algum tipo de prioridade ao cinema ou escolhe essencialmente pelos papéis que lhe oferecem?
Depende sempre do projeto. O que é importante é a história, a personagem, o realizador. Quero contar histórias às pessoas, não interessa onde. O importante é fazer o espectador sonhar, rir, fazê-lo refletir, mudar o seu pensamento. Criar seres humanos com que o espectador possa se identificar, seja através de uma série com muitos episódios ou apenas um filme de duas horas. É essencial fazer o espectador ‘viajar’ durante um projeto.

