As “Ilusões Perdidas” de Benjamin Voisin

(Fotos: Divulgação)

Depois de brilhar com enorme fogosidade uma dramática paixão adolescente em “Verão de 85”, o jovem Benjamin Voisin regressa às salas nacionais com “Ilusões Perdidas”, adaptação ao cinema da obra Honoré Balzac que integraria “A Comédia Humana” .

Com apenas 25 anos, Voisin é uma das grandes esperanças para o futuro do cinema gaulês e no filme de Xavier Giannoli rouba os holofotes com a sua expressividade e carisma natural. Uma tarefa nada fácil, dado ser acompanhado no elenco por nomes como Vincent Lacoste, Gérard Depardieu, Xavier Dolan e Cécile de France. 

É, aliás, esta última que desempenha o papel de Louise de Bargeton, uma baronesa que acolhe Lucien (Benjamim Voisin) como protegido e de quem vai ser amante, levando o jovem de ambições literárias, especialmente poéticas, a abandonar a pequena Angoulême e partir para Paris. É aí que Lucien descobre aquilo que vai ser o século XX: uma civilização que se vende à lei do lucro. 

O seu trajeto vai ser o de uma aprendizagem bastante brutal da vida, perdendo-se nessa sociedade“, explicou-nos Gianolli há três anos, quando começou a trabalhar mais intensamente num projeto ambicionava levar ao grande ecrã há duas décadas.

Estivemos à conversa com Benjamin Voisin sobre a sua participação no filme e carreira, vendo nele todo o seu potencial. E mesmo com propostas paralelas vindas do mundo da moda, especialmente depois de se ter tornado um ícone queer após o filme de Ozon, Benjamin mostrou-se focado apenas e só numa coisa: ser reconhecido como ator.

Cécile de France e Benjami Voisin em “Ilusões Perdidas”

Como foi a experiência de protagonizar este “Ilusões Perdidas” e trabalhar com o Xavier Giannoli?

Foram umas filmagens loucas. Filmamos durante 70 dias e quando o Xavier me propôs o papel, disse-me que era o filme da sua vida. Ele tinha a ideia e o desejo de fazer este filme há vinte anos, começou a juntar material quando tinha a minha idade. 

Para um jovem como eu, participar num filme assim é genial. Além disso, o Xavier como realizador é muito interessante, sempre atento aos detalhes. É como um pintor. Ele templena noção da imagem que quer e, assim, sabemos exatamente onde estar e nos posicionar. Além disso, sentimo-nos hiper protegidos pela beleza dos décors à nossa volta, até pelo guarda-roupa dos figurantes. Há qualquer coisa de muito entusiasmante quando estás defronte da câmara do Xavier.

Sendo um projeto de “vida”, o Xavier Giannoli foi certamente muito preciso naquilo que desejava, ou deixou algum espaço para explorar a personagem?

Ele ocupa-se de tudo. O som, a luz, os décors. Ele tem uma atenção tremenda para que tudo seja perfeito. Foi fantástico apanhar este grau de exigência. Naturalmente que falei muito com ele, até porque um ator faz dois ou três filmes por ano e um realizador muitas vezes leva 3 anos a trabalhar num filme. (…) Sinto-me muito mais autónomo depois destas filmagens.

Mas por exemplo, antes trabalhou com o François Ozon. Sentiu uma grande diferença?

O Ozon é um génio à sua maneira. Vai dizendo as coisas e logo se vê. O Xavier diz: “vamos fazer isto”. São duas maneiras distintas de abordar as filmagens, mas é isso que adoro. Gosto da diversidade de realizadores, atores e técnicos. A diferença entre os dois é da noite para o dia, mas entendo-os perfeitamente e não me importava de trabalhar com um e outro regularmente.

E ainda tinha outro realizador presente no plateau. O Xavier Dolan. Como foi trabalhar com ele e com o Vincent Lacoste, Gérard Depardieu, etc?

Foi como uma prenda. Trabalhar todos dias com estes atores fenomenais… tinha a impressão que estava na escola (risos). Pensava que mesmo que o filme não fosse lançado, tinha estado numa escola, numa aprendizagem permanente. Todos eles deram-me coisas sem dizerem nada e, ao mesmo tempo, tiveram a elegância de não tentar abafar o protagonista, que era eu. Foi perfeito. Todos eles são geniais. Imagine, na segunda-feira atuava com o Vincent Lacoste. À terça com a Cécile de France, à quarta com o Dolan e à quinta com o Depardieu. Nunca sabia com quem ia filmar e ficava sempre expectante e impaciente.

Benjami Voisin nas filmagens de “Ilusões Perdidas”

Tem algum método para atuar?

Não. Sou muito instintivo. Trabalho sempre o instante com precisão, a partir do que imagino. Com o Ozon fiz assim e com o Gianolli também. Uso muito o meu imaginário.

Mas a sua personagem, o Lucien, usa muito a expressividade, particularmente do olhar….

Sim. Percebi nas filmagens que o Xavier gostava disso. O Depardieu disse-me que “um ator tem de estar disponível para o realizador, compreender o que este deseja“. Se o filme fosse realizado pelo Gaspar Noé, certamente eu não faria o que fiz para este papel. É o mesmo papel, mas tenho de compreender o que o realizador que está à minha frente pretende. Fiz esse trabalho de compreender a atmosfera que o Xavier queria para a sua personagem e adaptar-me o melhor possível aos seus desejos. 

Falando do seu futuro, sei que depois de fazer este filme recusou um contrato com uma marca de moda. Porquê?

Achei que era muito cedo pois estou a afirmar-me como ator. E depois de fazer este filme não fazia sentido nenhum trabalhar para uma grande marca (risos). Não quero que a questão monetária comande a minha vida. Prefiro estar menos bem nesse sentido e fazer este gesto para não dar atenção a outras coisas que não o ser ator.

E agora segue-se um filme com Techiné, o “Les pieds sur terre”… 

O maestro… No caso dele é interessante, pois não gosta de ter as coisas todas preparadas. Gosta que nós façamos pesquisa, investiguemos

E também participou no filme “En roue libre”, do Didier Barcelo? Como foi essa experiência?

Era uma primeira longa-metragem, algo que também quero para a minha carreira. Ou seja, quero estar com os grandes atores e realizadores, mas também com cineastas a darem os primeiros passos. Existe uma ingenuidade preciosa nestes realizadores. O En roue libre é um filme onde eu e a Marina Fois estamos num carro e tudo se passa dentro dele. A viatura vai circulando e a paisagem de França acompanha-nos. Queria também muito trabalhar com a Marina, uma atriz muito cómica que me pode também ensinar coisas novas. Quero fazer filmes sérios, mas também outros. Ser polivalente!

E nessa ambição e polivalência, desejas um dia realizar um filme? 

Essa é a grande questão (risos). Escrevo muito, faço imensas coisas na vida além do trabalho de ator. Faço música, trabalho em fotografia e a realização sem dúvida interessa-me. Contar uma história às pessoas é fantástico, filmar atores também me interessa e escrever já o faço. Sim, mas para já estou focado em ser ator. Todas as coisas na vida têm o seu tempo.

Últimas